
Um tesouro da Hollywood da década de 1970 comemora 50 anos em 2026: Rede de Intrigas (Network, 1976), que foi premonitório e continua muito atual — se não na forma, pelo menos no conteúdo. O filme está disponível no canal MGM+ do Amazon Prime Video, que tem sete dias de teste grátis, e também pode ser alugado, por R$ 9,90.
Lançado nos cinemas dos EUA em 27 de novembro de 1976, Rede de Intrigas é assinado por Sidney Lumet (1924-2011), um dos grandes cineastas que nunca ganharam um Oscar. Ele foi indicado quatro vezes pela Academia de Hollywood ao prêmio de melhor direção — por este filme e também por 12 Homens e uma Sentença (1957), que levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, Um Dia de Cão (1975) e O Veredicto (1982). Seu currículo inclui Longa Jornada Noite Adentro (1962), Serpico (1973) e Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto (2007).
Rede de Intrigas disputou o Oscar de melhor filme — perdeu para Rocky, um Lutador (1976) — e conquistou quatro estatuetas. Foi laureado nas categorias de ator (Peter Finch, no primeiro prêmio póstumo entregue pela Academia de Hollywood — ele morreu de infarto, um mês antes das indicações), atriz (Faye Dunaway), atriz coadjuvante (Beatrice Straight, por apenas cinco minutos de atuação, no papel de uma esposa traída) e roteiro original, escrito por Paddy Chayefsky, que já havia vencido por Marty (1955) e por Hospital (1971). O longa-metragem teve outras quatro indicações — para William Holden, como melhor ator, Ned Beatty, como ator coadjuvante, o diretor de fotografia Owen Roizman e o editor Alan Heim. No Globo de Ouro, faturou as categorias de melhor direção, ator (Finch), atriz e roteiro.

O filme é bastante calcado na palavra, graças aos monólogos e diálogos tão saborosos quanto contundentes, às vezes gritados pelo elenco de um modo que, aos ouvidos de hoje, pode soar artificial. Porém, vale muito a pena prestar atenção ao que os personagens dizem.
O principal alvo de Chayefsky (1923-1981) é o mundo da televisão dos Estados Unidos, naqueles tempos ainda sob a hegemonia dos canais abertos e marcado pela concorrência entre as chamadas Três Grandes: ABC, CBS e NBC. Era também a época em que começavam a ficar borradas as fronteiras entre jornalismo e entretenimento.

Em Rede de Intrigas, na Nova York de setembro de 1975, o diretor de Jornalismo da fictícia UBS, Max Schumacher (personagem de William Holden), é encarregado de demitir seu melhor amigo por causa da baixa audiência do noticiário apresentado pelo veterano Howard Beale (vibrantemente interpretado por Peter Finch). No dia seguinte, Beale abre o programa anunciando, ao vivo e para todo o país, que dali a uma semana vai cometer suicídio na frente das câmeras. É uma alusão nada sutil a um caso então recente, o da jornalista Christine Chubbuck, que se matou em 15 de julho de 1974 durante uma transmissão da atração que comandava em uma emissora da Flórida (Rebecca Hall a encarnou no filme Christine, lançado em 2016 por Antonio Campos e disponível nas plataformas de aluguel).
A partir daí, aos olhos de executivos como o ambicioso Frank Hackett (Robert Duvall) e a inescrupulosa Diana Christensen (Faye Dunaway), Beale deixa de ser carta fora do baralho e se torna a salvação da lavoura, graças a sua metamorfose em Profeta Louco. Ele cria um bordão que logo é adotado pelo público: "I'm as mad as hell, and I'm not going to take this anymore!" (Eu estou muito bravo e não vou suportar mais isso!). Passa a ser a voz do descontentamento contra tudo o que está aí — o desemprego, a insegurança, a Guerra Fria etc. —, uma figura messiânica como muitas que ascenderam ao poder recentemente.
Beale simbolizou a transformação da vida ordinária em espetáculo sensacionalista e antecipou a inclinação do público ao bizarro. O choque entre Schumacher, que desde a primeira cena se perfila como um romântico representante da velha guarda, e Diana, que deseja colocar as ações de um grupo terrorista como atração televisiva, ilustra a vitória do cinismo e a capitulação à dessensibilização — "Guerra, assassinato e morte são, para você, iguais a garrafas de cerveja", ele acusa.

Já o personagem de Ned Beatty, Arthur Jensen, presidente da CCA, a corporação que é dona da UBS, profere um longo monólogo que, apesar de escrito 50 anos atrás, parece extremamente contemporâneo. Remete, por exemplo, ao alinhamento de Mark Zuckerberg, dono do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, a Donald Trump, após sua reeleição como presidente dos Estados Unidos. A flexibilização das normas de moderação de conteúdo em temas como imigração e gênero nas redes sociais pode ser menos por motivos ideológicos e mais por interesses econômicos. É como um aceno de Zuckerberg a Trump para que a Casa Branca atue contra a regulação das plataformas digitais implementada na Europa.
No filme, Jensen resolve passar uma senhora carraspana em Beale depois que o astro midiático denuncia a compra da CCA por um conglomerado da Arábia Saudita e conclama o povo a pressionar o governo estadunidense para impedir a concretização do negócio. Eis o discurso do personagem de Ned Beatty, no qual as marcas citadas poderiam ser trocadas pelos nomes das empresas de tecnologia, as big techs, que dominam a economia e a sociedade nos dias de hoje:
"Você se intrometeu nas forças primordiais da natureza, Sr. Beale, e eu não permitirei isso! Está claro? Você acha que simplesmente interrompeu um negócio. Esse não é o caso. Os árabes retiraram bilhões de dólares deste país e agora devem devolvê-los! É fluxo e refluxo, lei da gravidade! É equilíbrio ecológico!
"Você é um velho que pensa em termos de nações e povos. Não existem nações. Não existem povos. Não há russos. Não há árabes. Não existe o Terceiro Mundo. Não existe o Ocidente. Existe apenas um sistema holístico de sistemas, um domínio de dólares vasto e imenso, entrelaçado, interativo, multivariado e multinacional. Petrodólares, eletrodólares, multidólares, marcos, rins (subunidade do iene, a moeda japonesa), rublos, libras e shekels. É o sistema monetário internacional que determina a totalidade da vida neste planeta. Essa é a ordem natural das coisas hoje. Essa é a estrutura atômica, subatômica e galáctica das coisas hoje! E você se meteu com as forças primordiais da natureza, e você vai se reparar!
"Estou conseguindo falar com você, Sr. Beale?
"Você aparece na sua pequena tela de 21 polegadas e uiva sobre a América e a democracia. Não existe América. Não há democracia. Existem apenas IBM e ITT e AT&T e DuPont, Dow, Union Carbide e Exxon. Essas são as nações do mundo hoje. Sobre o que você acha que os russos falam em seus conselhos de estado — Karl Marx? Eles obtêm seus gráficos de programação linear, teorias de decisão estatística, soluções minimax e calculam as probabilidades de preço-custo de suas transações e investimentos, assim como nós.
"Já não vivemos num mundo de nações e ideologias, Sr. Beale. O mundo é um colegiado de corporações, inexoravelmente determinado pelos estatutos imutáveis dos negócios. O mundo é um negócio, Sr. Beale. É assim desde que o homem saiu do lodo. E os nossos filhos viverão, Sr. Beale, para ver aquele mundo perfeito em que não há guerra nem fome, opressão ou brutalidade — uma vasta e ecumênica holding, para a qual todos os homens trabalharão para servir a um lucro comum, em que todos os homens terão uma parte do capital, todas as necessidades serão supridas, todas as ansiedades serão tranquilizadas, todo o tédio será divertido. E eu escolhi você, Sr. Beale, para pregar este evangelho".
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