
Faz aniversário de 20 anos em 2026 um dos melhores filmes dirigidos por Christopher Nolan. É O Grande Truque (The Prestige, 2006), que está disponível disponível nas plataformas de aluguel digital e traz no elenco um time estelar: Christian Bale, Hugh Jackman, Michael Caine, Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Andy Serkis e o cantor David Bowie (1947-2016).
Escrito por Nolan e por seu irmão, Jonathan Nolan, a partir de um romance de Christopher Priest, O Grande Truque teve sua primeira exibição no dia 17 de outubro de 2006, no mítico El Capitan Theatre, em Hollywood. O filme recebeu duas indicações ao Oscar, nas categorias de melhor direção de fotografia (assinada por Wally Pfister) e melhor direção de arte (por Nathan Crowley e Julie Ochipinti).
A história se passa em Londres, na virada para o século 20, tempo no qual os espetáculos de mágica ocupavam o espaço que em breve seria do cinema, com seu convite à ilusão. Dois jovens mágicos buscam o estrelato: Robert Angier (interpretado por Hugh Jackman) e Alfred Borden (vivido por Christian Bale).

Angier faz jus à cartola, com seus modos sofisticados, e é um mestre do entretenimento. Borden é genial e mais habilidoso, porém não vende seu coelho muito bem. Após um acidente de trabalho, os dois transformam-se em terríveis rivais, dispostos a descobrir segredos alheios ou mesmo sabotar apresentações — e ainda haverá a disputa por uma assistente de palco, Olivia (Scarlett Johansson).
Nolan espelha essa inimizade na contenda histórica travada à mesma época entre os inventores Thomas Edison (1847-1931) e Nikola Tesla (1856-1943) — este último é um personagem importante no filme, com David Bowie no papel. Edison e Tesla disputavam o pioneirismo da produção de energia elétrica — naqueles tempos, acender uma lâmpada era um feito tão extraordinário como tirar coelho da cartola, e cientistas também se valiam do espetáculo para atrair investidores. Com um invento revolucionário, Tesla se torna peça-chave na briga entre Borden e Angier.

A trama permite a Christopher Nolan combinar características fundamentais da sua filmografia, como fez no seu longa-metragem de estreia, Seguinte (1998), ou no blockbuster A Origem (2010): a manipulação do tempo narrativo, a estrutura não linear, a abordagem do conflito entre percepção e realidade, a reflexão sobre o próprio ofício cinematográfico — uma pergunta suscitada é: o que a tecnologia digital acresce de fato ao grande truque que o cinema opera?
Logo na abertura de O Grande Truque, já sabemos que Borden será preso e julgado pela morte de Angier. Mas como os amigos se tornaram ferozes inimigos? Como cada um procurou vencer o outro no domínio do truque perfeito? Em que momento e por que limites éticos e morais foram ultrapassados para superar o adversário?

Também na abertura do filme, há um monólogo do personagem interpretado por Michael Caine, Cutter, um engenheiro de gaiolas para pombos e tanques de água. Ele diz o seguinte:
— Todo grande truque de mágica consiste em três partes ou atos. A primeira parte é chamada de A Promessa. O mágico mostra algo comum: um baralho, um pássaro ou um homem. Ele mostra a você este objeto. Talvez ele peça para você inspecioná-lo para ver se é realmente real, inalterado, normal. Mas é claro... provavelmente não é. O segundo ato é chamado de A Virada. O mágico pega algo comum e o faz fazer algo extraordinário. Agora você está procurando o segredo... mas não o encontrará, porque é claro que você não está realmente procurando. Você realmente não quer saber. Você quer ser enganado. Mas você não irá bater palmas ainda. Porque fazer algo desaparecer não é suficiente: você tem que trazê-lo de volta. É por isso que todo truque de mágica tem um terceiro ato, a parte mais difícil, a parte que chamamos de O Truque.
Esse monólogo é ilustrado por cenas que atiçam a curiosidade, como a de vários chapéus espalhados em uma floresta, e antecipam situações macabras e revelações chocantes. Mas ao longo do filme vamos nos iludir, nos confundir e nos surpreender, porque, a exemplo do que diz o personagem de Caine, talvez não estivéssemos prestando atenção, talvez não quiséssemos realmente saber.
Eis uma bela metáfora para o cinema em si, onde somos cúmplices dos enganadores.
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