
Adicionado recentemente a menu da Netflix, Silvio Santos Vem Aí (2025) é a terceira produção recente dedicada à biografia daquele que é considerado o maior apresentador da história da televisão brasileira.
Senor Abravanel, o Silvio Santos (1930-2024), já havia sido interpretado por José Rubens Chachá e Mariano Mattos (na fase jovem) nas duas temporadas da série O Rei da TV (2022-2023). Depois, Rodrigo Faro encarnou o personagem no filme Silvio (2024), que reconstitui o caso dos sequestros de Silvio e de uma de suas filhas, Patrícia Abravanel, em agosto de 2001.
Agora é a vez de Leandro Hassum viver o protagonista de Silvio Santos Vem Aí, dirigido por Cris D'Amato, realizadora de comédias como Os Parças 2 (2019), A Sogra Perfeita (2020) e Missão Porto Seguro (2025). Quem assina o roteiro é Paulo Cursino, parceiro de Hassum em O Candidato Honesto (2014), Tudo Bem no Natal que Vem (2020) e Meu Cunhado É um Vampiro (2023), entre outros títulos.
Apesar dos currículos do ator, da diretora e do roteirista, Silvio Santos Vem Aí não é um filme cômico, embora não faltem momentos de humor nesta nova cinebiografia escrita por Cursino, autor do script de Mussum: O Filmis (2023) e de Mauricio de Sousa: O Filme (2025, com Pedro Vasconcelos).
Por outro lado, apesar de se concentrar na brevíssima mas buliçosa campanha eleitoral de Silvio Santos para a Presidência do Brasil, em 1989, tampouco é um filme político.
Silvio Santos Vem Aí abre mão de contextualizar o país no momento de sua primeira eleição presencial direta após a ditadura militar (1964-1985). Não investe nas articulações políticas que originaram a candidatura pelo Partido Municipalista Brasileiro (PMB) — aliás, o personagem Silvio Santos mal fala sobre por que resolveu concorrer —, nem comenta a suposta "conspiração" que deu fim à aventura. E não se atreve a dar voz a Fernando Collor de Mello, Luiz Inácio Lula da Silva e Leonel Brizola, os principais rivais na corrida pelo cargo, que poderiam contribuir para pintar um retrato menos chapa-branca do protagonista. No máximo, o filme requenta piadas sobre o excêntrico candidato Enéas Carneiro (1938-2007).

Pesam contra também o excesso de texto — tudo é declarado, nunca mostrado —, uma reconstituição de época econômica em demasia, a direção de fotografia pouco inspirada, a montagem protocolar e a onipresença da trilha sonora. Mas há pontos positivos na cinebiografia, que tem como fio condutor a personagem da atriz e cantora Manu Gavassi, Marília, uma jornalista que trabalha na campanha eleitoral. Ela ganha acesso ao SBT e à casa de Silvio: sua missão é investigar a vida do candidato para prever possíveis ataques dos adversários. A postura inicialmente crítica vai dando lugar a um encantamento, evidentemente — vale repetir: este é um filme chapa-branca.
O que mantém o espectador razoavelmente interessado são a atuação de Leandro Hassum e a estrutura do roteiro de Paulo Cursino.

Ciente de que a sombra projetada por Silvio Santos é gigantesca e aniquiladora, Hassum evita a imitação ou a caricatura. Aposta em uma interpretação mais contida e nuançada, sem esquecer dos trejeitos e dos bordões — e também das tiradas rápidas e implacáveis, como quando é flagrado por Marília fritando seu próprio bife, no camarim:
— Se eu pagasse todo mundo para fazer as coisas por mim, eu não seria o homem mas rico do Brasil.
Já o roteiro de Cursino explora a mitologia em torno do apresentador e das atrações que comandava. O filme usa programas célebres, como o Show de Calouros, o Quer Namorar Comigo e o Topa Tudo por Dinheiro, para, em lances de realismo mágico, fundir o presente com o passado, recapitulando a biografia de Silvio Santos. Figuras icônicas também aparecem, como Pablo, do Qual É a Música?, e Lombardi, o locutor de quem jamais víamos o rosto. Graças a uma boa sacada do script, o mistério sobre sua identidade é replicado na entrevista que o personagem concede, nos bastidores.
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