
Cortam como faca os pedidos de socorro feitos ao telefone por uma menina palestina de cinco anos que se torna a única sobrevivente da saraivada de tiros disparada pelo exército israelense contra o carro de uma família que fugia da Faixa de Gaza.
"Venham me buscar."
"Me salvem."
"Eu estou morrendo."
Essa história devastadora é contada em A Voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab, 2025), um dos cinco indicados ao Oscar de melhor filme internacional. Por coincidência, o título que representa a Tunísia na premiação da Academia de Hollywood estreou nos cinemas do Brasil nesta quinta-feira, 29 de janeiro, exatos dois anos depois dos fatos reconstituídos pela diretora e roteirista Kaouther Ben Hania. Em Porto Alegre, pode ser visto na Sala Eduardo Hirtz da Cinemateca Paulo Amorim, na Casa de Cultura Mario Quintana, com sessões às 19h.

A cineasta tunisiana é a mesma de O Homem que Vendeu sua Pele (2020), que também disputou o Oscar internacional, e de As 4 Filhas de Olfa (2023), que concorreu na categoria de melhor documentário. Por A Voz de Hind Rajab, Kaouther Ben Hania recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, onde o filme foi aplaudido durante 22 minutos.
O longa-metragem vem sendo um dos rivais do thriller político brasileiro O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, nas principais premiações da temporada. Competiu no Globo de Ouro e está na lista dos indicados ao Bafta, da Academia Britânica, e ao Satellite Awards, concedido pela International Press Academy, entidade estadunidense formada por jornalistas de várias mídias e nações.
Na campanha pelo Oscar, A Voz de Hind Rajab tem apoiadores de peso. Entre os produtores executivos, estão seis cineastas e atores já premiados pela Academia de Hollywood: Alfonso Cuarón, Jonathan Glazer, Spike Lee, Michael Moore, Joaquin Phoenix e Brad Pitt.

Formalmente, o filme remete ao claustrofóbico suspense dinamarquês Culpa (2018), de Gustav Möller. A trama se passa quase inteiramente dentro das salas de atendimento de emergência da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, uma organização humanitária que disponibiliza ambulâncias e serviços médicos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. A ação se concentra nos telefonemas dos voluntários com a menina Hind Rajab — que tem o apelido de Hanood — seus familiares, paramédicos e algumas autoridades palestinas. Até a duração é parecida: Culpa tem 85 minutos, e A Voz de Hind Rajab, 89.
Kaouther Ben Hania fez o que se pode chamar de docudrama, um gênero híbrido que dramatiza eventos reais. Os personagens principais são interpretados por atores, todos nascidos na Palestina ou filhos de palestinos. Mas Hind Rajab só é vista em fotos ou ouvida nas conversas gravadas pela Crescente Vermelho e que foram utilizadas no filme, com o consentimento de sua mãe.
A concatenação entre a ficcionalização e o documental é extremamente bem-feita do ponto de vista técnico e amplia o impacto emocional do filme. Sobretudo quando a cineasta tunisiana lança mão de um recurso desconcertante: por vezes, os atores emudecem ou desaparecem de cena, dando lugar à voz ou à imagem, por meio da tela de um celular, dos verdadeiros voluntários. Kaouther Ben Hania reforça: tudo ao que assistimos aconteceu realmente, no contexto da guerra de Israel contra o Hamas deflagrada após o ataque terrorista de 7 de outubro de 2023. A aflição, a revolta e a dor são ainda mais palpáveis para o espectador.

Motaz Malhees, que teve uma pequena participação na versão hollywoodiana de Não Fale o Mal, em 2024, encarna o indignado Omar, o primeiro voluntário da Crescente Vermelho a tentar ajudar Hind Rajab. Saja Kilani vive sua supervisora, a emotiva Rana. Atriz de Agradecemos a Preferência (2024), Clara Khoury é a terapeuta Nisreem. E Amer Hlehel, que integrou o elenco do já clássico Paradise Now (2005), faz o papel de Mahdi, o chefe da equipe.
Na abertura de A Voz de Hind Rajab, esses personagens são flagrados vivendo um dia comum de trabalho, com direito a intervalos para um cigarrinho ou até para jogar pedra, papel e tesoura. A tensão toma conta do ambiente a partir do contato de Omar com uma prima de Hind Rajab, a adolescente Layan, outra passageira do carro que virou alvo de 355 tiros desferidos por soldados de Israel.
— Estão atirando na gente! — grita Layan. — O tanque está perto de mim!
De repente, ouve-se o som de disparos, e a garota silencia. A expressão no rosto de Omar muda totalmente: ele perdeu uma vida. Resta o consolo providenciado por Rana, Nisreem e Mahdi.
A esperança se renova quando, ao retornar para seu posto de trabalho, Omar percebe que há algumas ligações perdidas. São dos pais de Hind Rajab, que informam sobre sua presença no carro. Somente a menina permanece viva no automóvel em que estavam o tio, a tia e quatro primos.

Começa aí a corrida contra o tempo para salvar a guria. Na verdade, o tempo é o menor dos obstáculos: a ambulância mais próxima está a oito minutos de distância. O maior entrave é a burocracia, que chega a ser kafkiana.
A chamada coordenação exige telefonar e aguardar ligações de autoridades que deem o sinal verde para o deslocamento dos socorristas e que garantam a segurança do percurso. Há todo um processo a ser cumprido junto ao exército israelense, não importa que esteja em jogo a vida de uma criança que só queria que a guerra acabasse para poder ir à praia e brincar no mar e na areia, não importa que seja para salvar uma menina inocente de cinco anos que suplica: "Venham me buscar. Me salvem. Eu estou morrendo".
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