
Era inevitável que surgisse Extermínio: O Templo dos Ossos (28 Days Later: The Bone Temple, 2026), filme dirigido por Nia DaCosta e estrelado por Ralph Fiennes e Jack O'Connell em cartaz nos cinemas de Porto Alegre.
Primeiro por causa da aparentemente interminável tendência de os estúdios cinematográficos só apostarem no que já deu certo, abrindo mão da criatividade e da originalidade para investir em franquias ou na nostalgia, ao retomar histórias contadas 20, 30, 40 anos atrás.
Segundo porque, ora, são praticamente imortais as ameaças da saga Extermínio: tratam-se de zumbis, de mortos-vivos. Mas sua sobrevivência no cinema não se deve apenas a questões fisiológicas: ocorre também por causa da aparentemente inesgotável capacidade de se prestarem a metáforas sobre a época em que foram gestados.
Basta observar a carreira do mestre deste subgênero do terror, George A. Romero (1940-2017). A Noite dos Mortos-Vivos (1968) é uma alegoria política sobre as minorias vítimas de intolerância e preconceito nos Estados Unidos. Em O Despertar dos Mortos (1978), o diretor criticou o consumismo, e em Dia dos Mortos (1985), o militarismo da Era Reagan. Terra dos Mortos (2005), por sua vez, aludiu à desigualdade social, tanto no âmbito das cidades quanto na geopolítica mundial.
Cineastas do Sudeste Asiático também se destacam nessa praia. Em Invasão Zumbi (2016), do sul-coreano Yeon Sang-ho, as criaturas que se multiplicam em um trem para Busan nos lembram: a qualquer momento, as circunstâncias (políticas, econômicas, sanitárias etc) podem tornar irreconhecíveis as pessoas ao nosso redor. Estão sempre em xeque os laços sociais e afetivos que nos dão identidade e segurança.
Outro filme da Coreia do Sul, #Alive (2020), de Cho Il-hyung, abordou, em plena pandemia de covid-19, temas como o medo de ser contaminado, o isolamento, a proteção aos entes queridos, a ética das estratégias de sobrevivência, o poder das redes sociais, a necessidade de cooperação, aquilo que nos mantêm agarrados à existência e a esperança por uma cura.
Em Taiwan, o diretor Rob Jabbaz também refletiu o clima do mundo sob o signo do coronavírus em A Tristeza (2021). Mas esta odisseia violentíssima vai além da alegoria, perguntando: o que seria de uma sociedade polarizada se a gente só atendesse aos impulsos do id? Que civilização seria possível se não houvesse as instâncias mediadoras e repressoras do ego e do superego? E em que velocidade todas as construções sociais podem ruir, fazendo desaguar um contagioso e irrefreável banho de sangue?

O Templo dos Ossos é a continuação de Extermínio: A Evolução (2025), filme disponível na HBO Max que, por sua vez, é a sequência direta de Extermínio (2002). Esses dois últimos títulos têm o mesmo diretor, Danny Boyle, vencedor do Oscar por Quem Quer Ser um Milionário? (2008), e o mesmo roteirista, Alex Garland, cineasta de Guerra Civil (2024). Os realizadores ignoraram os eventos de Extermínio 2 (2007), de Juan Carlos Fresnadillo, e abriram em A Evolução uma trilogia ambientada 28 anos depois do longa-metragem original.
Protagonizado por Cillian Murphy, o primeiro Extermínio tornou-se um clássico do subgênero dos zumbis ao mesmo tempo em que o inovou. Em vez mortos-vivos lentos e em decomposição, Boyle e Garland apresentaram criaturas vivas e velozes, movidas por uma fome insaciável e por uma fúria incontrolável despertadas por um vírus que estava sendo desenvolvido em laboratório. O filme influenciou obras como The Walking Dead, história em quadrinhos criada em 2003 por Robert Kirkman e Terry Moore que depois daria origem ao homônimo e popular seriado de TV, e Guerra Mundial Z, romance publicado em 2006 por Max Brooks que depois ganhou adaptação para o cinema com direção de Marc Forster e Brad Pitt no papel principal.

Em Extermínio: A Evolução, Danny Boyle e Alex Garland avançaram em um tema que havia surgido em Extermínio: a masculinidade tóxica, sobre a qual Garland, na dupla função de diretor e roteirista, debruçou-se no subestimado terror Men: Faces do Medo (2022).
No primeiro filme, as personagens vividas por Naomie Harris e Megan Burns são ameaçadas de estupro por militares que não veem problema em usar a violência para gerar filhos que garantam a sobrevivência humana. Em A Evolução, ainda que mulheres possam liderar, o mundo parece contaminado por uma hostilidade tipicamente masculina. Não à toa, a principal arma empregada contra os zumbis é uma flecha, um notório símbolo fálico. E o grande perigo é um zumbi chamado de Alfa, todo pelado, marombado, ultraviolento e com um pênis avantajado que fica balançando enquanto ele corre.

Alex Garland também escreveu o roteiro de O Templo dos Ossos, mas desta vez a direção coube a Nia DaCosta, realizadora de A Lenda de Candyman (2021), As Marvels (2023) e Hedda (2025). A trama igualmente retoma uma ideia do primeiro Extermínio: no caso de um apocalipse, o maior inimigo do homem será o próprio homem. Mas também expande e desenvolve a mitologia da franquia, apontando novos caminhos.
O filme começa exatamente onde parou Evolução, quando o menino Spike (papel de Alfie Williams) foi salvo dos zumbis pelo grupo liderado por Jimmy Crystal. Logo o guri descobre que o personagem não é um dos mocinhos da história, mas outro vilão deliciosamente encarnado por Jack O'Connell, depois do vampiro Remmick de Pecadores (2025).

O bando cita diretamente o Teletubbies (1997-2001) — Jimmy, vale lembrar, é o garoto que estava assistindo ao célebre programa infantil quando, no início de A Evolução, eclode a praga zumbi. Mas o nome, o seu visual e de seus asseclas — que usam agasalhos esportivos e perucas loiras — e o comportamento do vilão são inspirados em Jimmy Savile (1926-2011). Trata-se de um dos mais famosos apresentadores de TV e de rádio do Reino Unido, além de ter virado Sir, a mais alta honraria da Coroa — mas também foi um predador sexual em série. Só que ele jamais foi preso — aliás, só depois da morte foi devidamente investigado. Jimmy abusou sexualmente de centenas de crianças, adolescentes e jovens, muitos deles em hospitais, escolas e instituições de caridade aos quais tinha acesso graças à notória filantropia.
Como Jimmy Savile aproveitava sua imagem pública para cometer seus crimes, Jimmy Crystal usa uma espécie de religião para exercer o poder e cometer barbaridades. Na verdade, o personagem de O Templo dos Ossos é um satanista que diz a seus seguidores — todos rebatizados com seu nome, como Jimmy Ink (vivida por Erin Kellyman) — ser filho direto do Diabo, aqui chamado de Velho Nick.

Se Jimmy Crystal, em nome de seu "deus", prega a brutalidade sangrenta e exige sacrifícios humanos, o médico Ian Kelson é um ateu que usa os conhecimentos científicos para dar um senso de ordem no caos. Mais do que isso: tenta estabelecer uma ponte com os infectados, quem sabe um diálogo. Graças a seus dardos tranquilizantes, o personagem permite-se aproximar do zumbi Alfa encarnado por Chi Lewis-Parry. Se Jimmy é o ódio e a punição, Kelson é a esperança e a fraternidade.
Surgido em Extermínio: A Evolução, Kelson é interpretado por Ralph Fiennes, ator que concorreu ao Oscar por A Lista de Schindler (1993, como coadjuvante), O Paciente Inglês (1996) e Conclave (2024) e que empresta dignidade a qualquer personagem, por mais exótico ou ridículo que seja. Em O Templo dos Ossos, além de exibir o corpo todo banhado em iodo, canta e dança sucessos de uma banda pop dos anos 1980, o Duran Duran. E, mais adiante, protagoniza uma cena absolutamente memorável ao som de The Number of the Beast (1982), clássico do grupo de heavy metal Iron Maiden.

A trilha sonora, que inclui Everything in Its Right Place (2000), do Radiohead, e composições da islandesa Hildur Guðnadóttir, oscarizada por Coringa (2019), é um trunfo do filme para surpreender e arrebatar o espectador. Mas de nada adiantariam a música, a direção de fotografia de Sean Bobbitt, que utiliza bastante iluminação natural mesmo nas cenas noturnas, a montagem de Jake Roberts, que cria uma atmosfera singular ao alternar momentos de pavor com sequências bucólicas, e os cenários macabros se no centro de tudo não houvesse personagens com os quais se conectar e se importar.
O roteirista Alex Garland, a diretora Nia DaCosta e o elenco alcançaram uma façanha rara, independentemente do gênero cinematográfico. Extermínio: O Templo dos Ossos oferece pelo menos cinco — eu disse CINCO — personagens com os quais a gente se envolve. E todos nos brindam com o que o cineasta Martin Scorsese chama de risco emocional, ou seja, o perigo genuíno e a incerteza sobre o que vem pela frente.
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