
Dois diretores paulistas assinam um dos melhores filmes já feitos em Porto Alegre — aliás, também é um dos melhores filmes falados em porto-alegrês. Trata-se de Cão Sem Dono (2006), a adaptação des Beto Brant e Renato Ciasca para o livro Até o Dia em que o Cão Morreu, de Daniel Galera.
Disponível no canal Filmelier+ do Amazon Prime Video, com sete dias de teste grátis, e em plataformas de aluguel digital, Cão Sem Dono ganhou os troféus Calunga de melhor filme e melhor atriz (para Tainá Müller) no Festival Cine PE, em Recife, além de ter recebido o prêmio da crítica.
O longa-metragem narra a história de um rapaz de 20 e poucos anos, tradutor desempregado por pura falta de ânimo, que é forçado a sair do isolamento físico e emocional quando um vira-latas e uma modelo entram em sua vida.

Na tela, o protagonista ganhou nome — Ciro — e a cara do ator Júlio Andrade, que havia sido coadjuvante em O Homem que Copiava (2003), de Jorge Furtado, e Sal de Prata (2005), de Carlos Gerbase, e que mais adiante se tornou astro das séries 1 Contra Todos (2016-2020) e Sob Pressão (2017-2022). A então estreante Tainá Müller faz a modelo Marcela — mais tarde, ela seria a protagonista do seriado Bom Dia, Verônica (2020-2024). Um cão adotado por Júlio em um canil público interpreta Churras.
Uma das virtudes de Cão Sem Dono é a espontaneidade das cenas, que não é fruto exclusivo da improvisação dos atores. Pode parecer contraditório, mas o tom naturalista deste filme falado em porto-alegrês é também resultado de um intenso trabalho de preparação, que Beto Brant e Renato Ciasca definiram como um "processo de imersão" — a começar com o da própria dupla em Porto Alegre.
— Tenho carinho pela cidade. Já tinha vindo várias vezes, mas só de raspão. O livro foi um pretexto para essa viagem maior — disse Brant em entrevista para mim, na época da estreia.
Em 2005, o diretor de Ação Entre Amigos (1998), O Invasor (2001) e Crime Delicado (2005) conheceu a capital gaúcha pelos olhos de Daniel Galera, escritor paulistano radicado em Porto Alegre. No início de 2006, com roteiro pronto e orçamento de R$ 2 milhões, os diretores retornaram e se associaram a uma produtora local, a Clube Silêncio. Durante quatro meses, a dupla viveu entre a Cidade Baixa, onde ficava a sede da produtora, e o Centro, principal cenário do filme.
— Quase não andei de carro — afirmou Brant.
O desejo de impregnar de intimismo o filme norteou a escalação e o trabalho dos atores, que reconstruíram diálogos nos ensaios. Tainá, por exemplo, era modelo e namorava Galera. O personagem Elomar, porteiro do prédio onde mora Ciro e artista plástico nas horas vagas, é vivido por Luis Carlos V. Coelho, um pintor abstrato descoberto pelos diretores nas paredes do restaurante Atelier de Massas.

Um mês antes das filmagens, Júlio Andrade mergulhou na apatia de Ciro: afastou-se de amigos e familiares e mudou-se para o apartamento do protagonista, na esquina da Borges de Medeiros com a Demétrio Ribeiro. Na hora de filmar, a primeira cena foi justo a de abertura: o frio café da manhã do introspectivo Ciro com a solar Marcela na cozinha, após uma quente noite de sexo.
É como se, horas antes, esses mesmos personagens não estivessem desfrutando de total intimidade, e é quase como se as duas sequências não guardassem relação uma com a outra. Eis outro acerto da versão de Beto Brant e Renato Ciasca para o livro de Daniel Galera: a narrativa episódica traduz a falta de progressão na vida do protagonista.
O escurecimento e a iluminação da tela na passagem das cenas, por sua vez, remetem à letargia de Ciro. Para os realizadores, contudo, esse efeito dá continuidade à trama: "As cenas não terminam, não têm corte", disse Brant.
A quase ausência de música — inesperada em um filme urbano e jovem — só reforça o clima triste, cujo alívio cômico vem dos personagens do porteiro pintor Elomar e do motoboy Lárcio (papel de Marcos Contreras).

Na comparação com o livro, o filme é bastante fiel, mas o Ciro do cinema foi humanizado — graças também à tocante atuação de Júlio Andrade, a quem estávamos acostumados a ver em papéis engraçados. Ele não é mais um narcisista disfarçado, que, do alto de seu apartamento, se considera mesmo superior aos outros, nem olha com tanto distanciamento para o amor. Em Cão Sem Dono, Ciro sofre, esperneia, tem um treco com o sumiço de Marcela — e, também toma um caminho diferente daquele descrito no romance.
Há ainda uma série de acréscimos à trama, alguns interessantes, como um monólogo do pai de Ciro (vivido por Roberto Oliveira), outros gratuitos, como a citação de um conto do próprio Galera. O mais significativo é a homenagem ao escritor gaúcho Sergio Faraco.
Ciro é um tradutor de russo que só conheceu a dor de ser humano em Dostoiévski. Em um momento pós-crise, o protagonista aparece lendo Lágrimas na Chuva, memória do período em que Faraco foi internado em regime de reclusão na então União Soviética, na década de 1960. É como se ali Ciro estivesse ele mesmo recordando do exílio sentimental que era sua vida até o dia em que o cão e Marcela apareceram.
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