
A Netflix adicionou nesta terça-feira (27) ao seu menu A Natureza das Coisas Invisíveis (2025), que recebeu três Kikitos no Festival de Gramado do ano passado: o de melhor atriz coadjuvante, para Aline Marta Maia, o de trilha musical, para o chileno Alekos Vuskovic, e o Prêmio Especial do Júri.
Trata-se do primeiro longa-metragem dirigido pela brasiliense Rafaela Camelo, coautora, com Emanuel Lavor, do curta As Miçangas (2023). Ela também assina como roteirista, produtora e uma das editoras de A Natureza das Coisas Invisíveis. O título teve sua primeira exibição mundial no Festival de Berlim de 2025, na mostra Generation Kplus, dedicada ao universo infantojuvenil.
Ao apresentar o filme no Palácio dos Festivais, em Gramado, a cineasta emocionou-se ao defini-lo como "um pequeno manifesto aos que partiram". Essa definição, mais a ambientação, na segunda parte, em uma chácara e o abraço ao místico ligam A Natureza das Coisas Invisíveis a Cidade; Campo (2024), longa premiado no Festival de Gramado do ano passado e dirigido por Juliana Rojas — que prestou consultoria ao roteiro de Rafaela.

Se a diretora chorou no palco, suas duas atrizes mirins esbanjaram risos. E conquistaram a plateia com palavras de carinho e agradecimento.
— Uma honra participar deste festival e passar um pouco deste friozinho — disse Serena, então com 12 anos.
— Gente, todo mundo aqui é maravilhoso. Os gaúchos são muito educados — elogiou Laura Brandão, 11 anos. — Queria agradecer à minha mãe e ao meu pai, que apoiaram desde o início a minha carreira de atriz.

No filme, Laura interpreta Glória, uma garota de 10 anos que passa as férias de verão no hospital onde sua mãe, Antônia (Larissa Mauro), trabalha como enfermeira. Lá, ela conhece a personagem de Serena, Sofia, menina que chamou a ambulância por causa do acidente doméstico de sua bisavó (Aline Marta Maia), que tem Alzheimer em estado avançado e agora está internada. Camila Márdila encarna a mãe de Sofia, Simone, que logo desenvolve amizade com Antônia. (Como os nomes do elenco indicam, os raríssimos homens são apenas coadjuvantes na trama.)
Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. Diante da iminência da morte da bisavó, as duas famílias viajam juntas para passar os últimos dias dela em um refúgio verde no interior de Goiás.

Tudo resplandece em A Natureza das Coisas Invisíveis. Laura Brandão e Serena enchem a tela cada vez que aparecem. Apesar de haver um ou outro diálogo mais formal, suas personagens falam — e agem — com a naturalidade, a curiosidade, o caráter lúdico e o espanto das crianças. Não à toa, a bisa aconselha as duas mães:
— Brinquem muito com suas filhas, porque são essas coisas que valem a pena.
O roteiro faz reverberar lá adiante elementos estranhos, como a presença de um porco em um banheiro de colégio, e objetos cênicos, como uma fotografia rasgada. Assim, vai introduzindo temas e abrindo o filme a novas leituras, mas sem jamais perder o foco narrativo e a coerência artística. Rafaela Camelo defende o afeto, a delicadeza, a reconexão com o telúrico e o valor da espiritualidade.
A direção de fotografia assinada por Francisca Sáez Agurto demonstra sensibilidade e talento para a poesia visual, virtudes realçadas pela edição serena de Marina Kosa e Rafaela Camelo. A cereja deste bolo de sabor bem caseiro é a trilha sonora, tanto a música composta por Alekos Vuskovic, que contribui muito para o clima mágico de certas cenas, quanto as pérolas resgatadas do cancioneiro brasileiro dos anos 1970 e 1980, como Fazenda, de Milton Nascimento, Eu Queria Dizer que te Amo numa Canção, de Fernando Mendes, e Quero Ser Locomotiva, de Jorge Mautner.
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