
Josh Safdie chegou chegando no Oscar. Estreante na premiação da Academia de Hollywood, o cineasta nova-iorquino de 41 anos já virou um dos recordistas de indicações por um mesmo título. Por Marty Supreme (2025), ele concorre em quatro categorias: melhor filme, como um dos produtores, melhor direção, melhor roteiro original, assinado com Ronald Bronstein, e melhor edição, também dividida com Bronstein.
Em cartaz nos cinemas do Brasil desde quinta-feira (22), Marty Supreme recebeu outras cinco indicações: melhor ator (Timothée Chalamet), fotografia (Darius Khondji), design de produção (Jack Fisk e Adam Willis), figurino (Miyako Bellizzi) e elenco (Jennifer Venditti). Ou seja, é rival de O Agente Secreto em três categorias: melhor filme, ator e elenco.
Safdie entrou para um seleto grupo do Oscar ao igualar a marca de quatro cineastas. Warren Beatty recebeu quatro indicações pelo mesmo trabalho duas vezes: por O Céu Pode Esperar (1978) e por Reds (1981), disputou os troféus de melhor filme, direção, ator e roteiro (adaptado no primeiro caso e original no segundo). Ganhou o de diretor, por Reds.
Por Roma (2018), o mexicano Alfonso Cuáron competiu nas categorias de melhor filme, direção, roteiro original e fotografia. Venceu em direção e em fotografia, e Roma também conquistou o Oscar de longa internacional — mas esse troféu fica com o país da produção.
Nomadland (2020) valeu à chinesa Chloé Zhao indicações ao Oscar de melhor filme, direção, roteiro adaptado e edição. Ela foi premiada nas duas primeiras categorias.
No ano passado, Sean Baker tornou-se a primeira pessoa a ganhar quatro estatuetas douradas pelo mesmo filme. Levou o principal Oscar, como um dos produtores de Anora (2024), o de melhor direção, o de melhor roteiro original e o de melhor edição.
Walt Disney (1901-1966) também recebeu quatro prêmios na mesma edição, em 1954, mas foi por quatro títulos diferentes. E o sul-coreano Bong Joon-ho também subiu quatro vezes ao palco, quando Parasita (2019) conquistou as categorias de melhor filme, direção, roteiro original e longa internacional, mas, repetindo, este último Oscar vai para o país ganhador.
Qual é a trama do filme "Marty Supreme"?

Marty Supreme é o primeiro longa-metragem solo de Josh Safdie desde O Prazer de Ser Roubado (2008). Entre um e outro, ele manteve uma bem-sucedida parceria com seu irmão caçula, Benny Safdie, 39 anos. Juntos, fizeram filmes como Amor, Drogas e Nova York (2014), Bom Comportamento (2017) e Joias Brutas (2019).
Benny também lançou-se a um projeto individual em 2025, Coração de Lutador: The Smashing Machine, que mereceu o Leão de Prata de melhor direção no Festival de Veneza e concorreu ao Globo de Ouro de ator em drama (Dwayne Johnson) e de atriz coadjuvante (Emily Blunt). No Oscar, disputa apenas a categoria de maquiagem e cabelos.
Se em Coração de Lutador Benny, além de sair de Nova York, adotou um tom contido na direção e foi convencional na narrativa, em Marty Supreme Josh mantém os pés na sua cidade natal e exibe o estilo vibrante e a história caótica característicos das obras anteriores dos irmãos Safdie.

Com duas horas e meia de duração, esta alucinada comédia dramática é ambientada no início da década de 1950 — mas a trilha sonora inclui bandas dos anos 1980, como New Order e Tears for Fears. A trama é livremente inspirada na trajetória de Marty Reisman (1930-2012), um campeão do tênis de mesa. Timothée Chalamet, que aprendeu a cantar e a tocar violão e gaita para encarnar Bob Dylan em Um Completo Desconhecido (2024) — papel pelo qual também foi indicado ao Oscar de melhor ator —, agora diz ter treinado pingue-pongue por cerca de seis a sete anos. Consta que ele praticava até nos intervalos de outras filmagens, como as de Wonka (2023) e Duna: Parte Dois (2024).
O charme natural de Chalamet provoca um contraste bem-vindo com os traços psicológicos de seu desprezível personagem, chamado de Marty Mauser no filme: ele é egoísta, narcisista, ambicioso, inescrupuloso, inconsequente, trapaceiro. Não tem pudores para mentir, roubar, trair ou proferir piadas sobre a tragédia nos campos de concentração nazistas — "Eu sou judeu, posso falar", defende-se sem corar diante dos atônitos interlocutores.
O filmaço começa em 1952. Marty trabalha como vendedor de sapatos na loja do seu tio Murray enquanto também compete profissionalmente como jogador de tênis de mesa. O sonho do protagonista é o sonho americano: tornar-se o número 1 — porque a alternativa é ser um fracasso na vida. Para tanto, como a História já mostrou e como o atual presidente dos EUA, Donald Trump, vem mostrando, vale tudo.
Por exemplo: Marty assalta o cofre da sapataria do tio e chega a ameaçar um colega com uma arma para financiar sua viagem a um torneio em Londres. Lá, ele pretende derrotar o campeão Béla Kletzki, personagem baseado no jogador polonês Alojzy Ehrlich (1914-1992), um sobrevivente do Holocausto, e interpretado pelo ator húngaro Géza Röhrig, protagonista do oscarizado O Filho de Saul (2015). Em Marty Supreme, Röhrig estrela uma das cenas mais impactantes dos últimos tempos, por conjugar o horror, o inesperado, o bizarro e o belo.

Em Londres, Marty também vai conhecer Kay Stone (apropriadamente vivida por Gwyneth Paltrow), uma ex-estrela de Hollywood que busca retomar o prestígio artístico após se casar com um empresário milionário, Milton Rockwell (Kevin O'Leary, responsável por diálogos tão cortantes quanto engraçados). Lá, surge ainda um craque japonês que é surdo, Koto Endo, papel de Koto Kawaguchi, ele próprio um mesatenista com deficiência auditiva.
Aliás, a galeria de coadjuvantes é um dos trunfos de Marty Supreme. Vale destacar Odessa A'zion, na pele de Rachel Mizler, uma mulher casada que tem um caso com Marty, o rapper Tyler, the Creator, que faz o taxista Wally, e o veterano cineasta nova-iorquino Abel Ferrara, que encarna o gângster Ezra Mishkin. Os caminhos de todos podem se cruzar em uma montanha-russa cheia de acidentes, desvios e becos sem saída que Josh Safdie pilota com maestria. Eis um diretor que sabe organizar o caos.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano



