
Sem alarde, a Netflix adicionou na virada do ano ao seu menu um daqueles filmes que costumam figurar nas listas dos melhores de todos os tempos: Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962).
Dirigido por David Lean (1908-1991), este épico com três horas e 47 minutos de duração ganhou o Oscar em sete categorias: melhor filme, direção, fotografia em cores (Freddie Young), edição (Anne V. Coates), direção de arte em cores (John Box, John Stoll e Dario Simoni), som (John Cox) e música original (Maurice Jarre).
Também concorreu aos prêmios de melhor ator, com Peter O'Toole (1932-2013), na primeira de suas oito indicações, ator coadjuvante, com Omar Sharif (1932-2015), e roteiro adaptado, por Robert Bolt e Michael Wilson.

Lawrence da Arábia conta a história real do arqueólogo e militar britânico T.E. Lawrence (1888-1935), que uniu tribos árabes para combater o Império Otomano na Primeira Guerra Mundial. Peter O'Toole faz o papel do protagonista, e Omar Sharif encarna Sherif Ali, guerreiro nômade que se torna seu braço-direito.
O filme ajuda a entender por que os movimentos políticos e geográficos ocorridos naquela ocasião têm desdobramentos até hoje. Não à toa, à época de um de seus relançamentos, com cópias restauradas, em maio de 1990, o lendário crítico Goida escreveu em Zero Hora: "Lawrence da Arábia elevou o gênero do superespetáculo a um nível de cinema superior, distante daquele estilo meio carnavalesco e vazio da maioria dos épicos de Hollywood". Para Goida, David Lean fez também "uma profunda análise do homem tentando ser o agente da História" e, apesar de ser britânico, "mostra-se um crítico ferrenho da política colonialista e racista de seu país".
A narrativa começa pelo fim da vida de Lawrence. Temos, então, um longo flashback, no qual o protagonista vê-se obrigado a resistir bravamente ao deserto e aos inimigos e a praticar proezas, como a tomada de Aqaba, na Jordânia, ou a busca por um de seus homens na imensidão arenosa.
Diretor de muitos clássicos, como Desencanto (1946), A Ponte do Rio Kwai (1957), Doutor Jivago (1965) e Passagem para a Índia (1984), David Lean também era um esteta do cinema. Em Lawrence da Arábia, na companhia de sua equipe, o cineasta concebeu um dos exemplos mais icônicos de elipse temporal e espacial e de metáfora visual.
É a cena da transição de um fósforo aceso para o nascer do sol no deserto. O corte transporta o espectador de um ambiente interno e confinado para a vastidão do Oriente Médio. A chama e o sol, por sua vez, remetem às emoções interiores de Lawrence, que vão se intensificar em proporções geométricas. E o gesto do personagem ao apagar o fogo pode tanto ilustrar sua tentativa de controlar o próprio destino quanto prenunciar sua capacidade de suportar o sofrimento físico e mental na jornada que está por vir.
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