
Indicado ao Oscar de melhor documentário em curta-metragem, Quartos Vazios (All the Empty Rooms, 2025) é tão lindo quanto triste. Com 35 minutos de duração, o filme acompanha o jornalista de TV Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp enquanto eles visitam os quartos de crianças e adolescentes que foram assassinados nos inúmeros tiroteios em escolas dos Estados Unidos.
A ideia do filme remete à de uma reportagem especial produzida pela repórter Kamila Almeida e pelo fotógrafo Ricardo Chaves, o Kadão (1951-2025), Vidas Ausentes, que foi publicada por Zero Hora em novembro de 2010 e depois se tornou uma exposição. Nesse trabalho, Kamila e Kadão foram às casas de sete famílias gaúchas em luto: tinham em comum a dor de enterrar um filho por causa de acidente em ruas e estradas.
"Congelar o quarto não era uma decisão", escreveu Kamila em um texto sobre a reportagem. "Faltava era coragem para mover qualquer objeto. O único gesto que os pais carimbados pela tragédia do trânsito arriscavam era o de levar fotos, perfumes, brinquedos e travesseiros até o peito para não deixar a lembrança do filho que partiu se apagar. Primeiro o choque, depois a paralisia. Ficavam atordoados ao ver a lógica da vida invertida." Kadão comentou: "Fomos testemunhas tão próximas da dor que, tantas vezes, não tivemos alternativa a não ser chorar junto".

As famílias estadunidenses visitadas por Hartman e Bopp ao longo de sete anos também preservaram os quartos dos seus filhos do jeito que estavam. Os pais de Jackie Cazares, por exemplo, nunca apagaram as luzinhas coloridas que vigiavam o sono da menina de nove anos, uma das 19 vítimas da chacina na Robb Elementary School, em Uvalde, no Texas, em 2022.
Na casa de Dominic Blackwell, morto quando tinha 14 anos, o quarto segue intacto desde o último dia em que o adolescente fã de Bob Esponja foi para a Saugus High School, em Santa Clarita (Califórnia), em 2019. Para não perder o cheiro do filho, até o cesto de roupa suja continua lá — embora a mãe, com certo bom humor, revele que lavou as cuecas e as meias.
Em Nashville, um dos irmãos mais velhos de Hallie Scruggs não consegue segurar o choro quando vai falar sobre a mana que morreu aos nove anos, em março de 2023, durante o massacre perpetrado na Covenant School.

Delicado e respeitoso, o filme é dirigido por Joshua Seftel. Ele já havia sido indicado ao Oscar de melhor documentário em curta-metragem por Stranger at the Gate (2022), sobre um fuzileiro naval que, após servir no Iraque e no Afeganistão, teve transtorno de estresse pós-traumático, desenvolveu islamofobia e planejou bombardear uma mesquita em uma pequena cidade do Estado de Indiana.
Na abertura de Quartos Vazios, um letreiro informa que Steve Hartman foi designado para cobrir pela primeira vez um tiroteio em escola em 1997. Desde então, os ataques a mão armada em colégios "pularam de 17 por ano para 132 por ano".
Hartman acusa a normalização da tragédia, pela sociedade, e a espetacularização da violência, pela imprensa:
— Percebi que os americanos estavam superando cada vez mais rápido um tiroteio em escola. Eu usava as mesmas frases nas reportagens. A mídia tem culpa: falamos demais sobre os atiradores. Precisamos falar sobre quem não está mais aqui.
Um desafio particular para o jornalista foi se despir da sua figura pública: Steve Hartman era o repórter das notícias que dão um quentinho no coração, que buscam restaurar a fé das pessoas na humanidade.
— O que eu vinha fazendo era só maquiar a coisa toda. Em muitos casos, esse era o meu trabalho: no fim da semana, contar a história de um herói ou de uma heroína e lembrar a todos que a vida ainda vale a pena. Mas não vou mais tentar encontrar um ângulo positivo em um tiroteio escolar. Nunca mais.

O jornalista acha que se todos os estadunidenses pudessem visitar um desses quartos, mesmo que por apenas alguns minutos, seu país seria diferente. Ele não diz com todas as letras, aliás, o documentário não segue a linha investigativa/provocativa do cineasta Michael Moore no oscarizado e já clássico Tiros em Columbine (2002): Quartos Vazios jamais se refere ao culto fervoroso dos Estados Unidos por armas de fogo — intrinsecamente ligadas à história da nação, é verdade, desde a chegada dos pioneiros europeus, no século 17 — e à leniência da legislação sobre acesso e porte de pistolas, revólveres, espingardas e rifles. Mas entende-se que Steve Hartman e o filme propõem uma espécie de revolução cultural.
A sociedade dos EUA precisa mudar sua relação com os armamentos. Precisa compreender o óbvio: mais cedo ou mais tarde, armas vão provocar morte, dor, tristeza. Depois de reconhecer que estava se tornando imperturbável diante dos tiroteios, Hartman quer sensibilizar as pessoas, mostrando a vida, o amor e a alegria que foram prematuramente interrompidos.

Antes de entrar em cada quarto para fotografar, Lou Bopp tira os sapatos. É um sinal de respeito a um espaço que se tornou sagrado. E o gesto talvez permita a Bopp sentir mais o terreno onde está pisando, quem sabe se colocar no lugar do filho ausente e dos pais para enxergar com o olhar deles, apreender o ambiente e observar os detalhes que constituem uma existência: o cabelo em uma escova, a tampa aberta de uma pasta de dente, a coleção de conchinhas, o porta-retrato com o registro de um jogo dos Dodgers, o cabide com a roupa separada para usar na escola no dia seguinte, o tênis com marcas de sujeira na borda da sola — marcas de uma vida vivida a pleno.

Todo quarto de uma criança ou de uma adolescente assassinada no colégio, como Gracie Muehlberger, 15 anos, outra vítima do ataque na Saugus, tem um passado feliz e um futuro roubado. O pai diz que ainda vê as cambalhotas na cama e escuta a risada alta dela. A mãe conta que o quarto de Gracie era como um palco:
— Todos iam lá para ver ela se apresentar. Ela entregava convites e dizia a hora que a gente tinha de estar lá.
Em uma caixinha que deram de presente para a filha, os pais de Gracie encontraram cartas que a garota escreveu para ela mesma, como em uma cápsula do tempo. Quando o pai começa a ler uma dessas cartas endereçadas para a Gracie do futuro — bem, é como Kadão comentou: nos tornamos testemunhas tão próximas da dor que não temos alternativa a não ser chorar junto.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano






