
Volta a cartaz nesta quinta-feira (29) em Porto Alegre o filme que se tornou o novo recordista de indicações ao Oscar: Pecadores (Sinners, 2025), dirigido por Ryan Coogler e estrelado por Michael B. Jordan. As sessões serão sempre às 13h20min, no Cinépolis do shopping Bourbon Carlos Gomes, o primeiro cinema 100% VIP da Capital.
São quatro salas, cada uma com 62 poltronas maiores do que o habitual e reclináveis, projetores a laser, sistema de som imersivo e atendimento por garçons. Os ingressos custam entre R$ 58 e R$ 62 nas segundas, terças e quartas e entre R$ 68 e R$ 72 nas quintas e sextas e nos sábados, domingos e feriados.
Pecadores recebeu da Academia de Hollywood 16 indicações, superando a marca de 14 estabelecida por A Malvada (1950), Titanic (1997) e La La Land (2016). Na premiação do dia 15 de março, concorre aos prêmios de:
- melhor filme
- direção (Ryan Coogler)
- ator (Michael B. Jordan)
- ator coadjuvante (Delroy Lindo)
- atriz coadjuvante (Wunmi Mosaku)
- roteiro original (do próprio diretor)
- fotografia (Autumn Durald Arkapaw)
- edição (Michael P. Shawyer)
- design de produção (Hannah Beachler e Monique Champagne)
- figurinos (Ruth E. Carter)
- maquiagem e cabelos (Ken Diaz, Michael Fontaine e Shunika Terry)
- som
- efeitos visuais
- música original (Ludwig Göransson)
- canção original (I Lied to You, de Göransson e Raphael Saadiq)
- elenco (Francine Maisler)
O Cinépolis também relança nesta quinta-feira Uma Batalha Após a Outra (2025), que soma 13 indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, direção (Paul Thomas Anderson), ator (Leonardo DiCaprio), ator coadjuvante (com Benicio Del Toro e Sean Penn) e atriz coadjuvante (Teyana Taylor). As sessões são às 16h30min.
Qual é a trama de "Pecadores"?

O diretor e roteirista Ryan Coogler, 39 anos, demonstra ter uma virtude escassa em Hollywood: audácia. Em Pecadores, o cineasta criou uma trama original ao misturar drama histórico sobre o racismo nos EUA, musical blues e terror com vampiros — sem deixar de lado a ação, a comédia e o romance.
O resultado dessa mescla de gêneros vai depender muito do estado de espírito do espectador. Alguns momentos do filme são sublimes em seu frescor criativo e no seu abraço ao risco, e pelo menos uma sequência é digna de rostos lacrimejados e de aplausos durante a projeção. É a cena mais maravilhosa de 2025.
Mas outras cenas podem fazer sentir vergonha alheia, por causa do investimento no chamado terrir. (Por falar em humor, vale avisar aos mais pudicos: os personagens fazem piadas bem descritivas sobre sexo oral.)
Sucesso de bilheteria — custou cerca de US$ 100 milhões e já arrecadou quase US$ 370 milhões —, Pecadores é a quinta parceria do diretor Ryan Coogler com o ator Michael B. Jordan. Eles fizeram juntos Fruitvale Station: A Última Parada (2013), Creed: Nascido para Lutar (2015), Pantera Negra (2018) e Pantera Negra: Wakanda para Sempre (2022).
A equipe técnica reúne vários nomes vistos nos créditos desses filmes, como a diretora de fotografia Autumn Durald Arkapaw, o editor Michael P. Shawyer, a designer de produção Hannah Beachler (ganhadora do Oscar por Pantera Negra), a figurinista Ruth E. Carter (duplamente oscarizada pelas aventuras do super-herói da Marvel) e o compositor sueco Ludwig Göransson (laureado na premiação da Academia de Hollywood pelas trilhas de Pantera Negra e de Oppenheimer).

Já o elenco está cheio de rostos novos nos trabalhos da dupla, como o estreante Miles Caton, o veterano Delroy Lindo e o multiartista Saul Williams. O time feminino inclui Wunmi Mosaku (das séries Lovecraft Country, A Cidade É Nossa e Loki), Jayme Lawson (a jovem Michelle Obama da minissérie The First Lady e a Bella Réal do Batman dirigido por Matt Reeves), Hailee Steinfeld (indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por Bravura Indômita e protagonista da série Dickinson) e a chinesa Li Jun Li (a cantora andrógina de Babilônia).
A trama de Pecadores começa em um dia qualquer de 1932, no Estado do Mississippi, onde, naquela época, ainda vigoravam as Leis de Jim Crow, que impunham a segregação racial.
O cenário é Clarksdale, pequena cidade importante tanto na luta dos direitos civis dos afroamericanos quanto na história do blues — gênero musical nascido da confluência de ritmos africanos e cantos religiosos desenvolvida por negros escravizados enquanto trabalhavam nas plantações de algodão do sul dos Estados Unidos.
Aliás, a música é onipresente no filme. Neste caso, se justifica: ela tanto serve para estabelecer e variar o clima — ora hipnótico, ora eletrizante, ora tétrico, ora sensual, ora epifânico — quanto é o próprio tema.
Não à toa, Ryan Coogler abre Pecadores com uma narração em off sobre seu caráter místico — seria capaz de "desfazer o véu entre a vida e a morte". Também cita os griôs, os indivíduos que na África Ocidental preservavam e transmitiam as canções, as histórias, os conhecimentos e os mitos de seu povo.

O primeiro personagem a surgir em cena, durante uma manhã ensolarada, é Sammie (Miles Caton), o Pastorzinho. Com o rosto bastante lanhado, mancando de uma perna e segurando apenas o cabo de um violão, ele irrompe na igrejinha onde seu pai, o pastor Jedidiah (Saul Williams), está conduzindo uma missa.
Bem que ele alertara o filho, um aspirante a blueseiro: "Se você continuar dançando com o Diabo, um dia ele vai te acompanhar até em casa" — frase que remete à lenda em torno do cantor e guitarrista Robert Johnson (1911-1938).
Aí, a narrativa retrocede ao início do dia anterior, quando então vamos conhecer os gêmeos interpretados por Michael B. Jordan. São os irmãos Fumaça e Fuligem, que regressaram de Chicago, onde eram gângsteres, para abrir um juke joint — nome dado aos clubes noturnos de música, dança, comida, bebida e jogos de azar que eram administrados e frequentados por negros.
Fumaça e Fuligem lidam com obstáculos, reencontros com mulheres de seu passado — as personagens de Wunmi Mosaku e Hailee Steinfeld — e preparativos para a noite de inauguração, o que inclui encomendar cartazes para uma comerciante chinesa, Grace Chow (Li Jun Li), contratar um velho músico, Delta Slim (Delroy Lindo, sempre magnetizador), e recrutar um leão-de-chácara, o Broa de Milho (Omar Benson Miller, uma versão rejuvenescida de Forest Whitaker).
Por que o vilão é um vampiro?

Enquanto Fumaça e Fuligem se preparam para inaugurar seu clube noturno, um homem com parte do corpo queimado, Remmick (Jack O'Connell, de Extermínio: O Templo dos Ossos), bate à porta de um casal branco de fazendeiros. Logo em seguida, indígenas Choctaw aparecem no mesmo endereço, à procura do mesmo sujeito. Quando a noite cai, eles rapidamente vão embora.
Logo fica claro que Remmick é um vampiro. A presença desse monstro sagrado do terror não é nada aleatória em Pecadores: permite a Ryan Coogler fazer um incisivo comentário social. Se "os brancos gostam muito de blues, só não gostam das pessoas que tocam o blues", como diz Delta Slim, o vilão da história serve como uma alegoria de como a sociedade majoritariamente branca dos EUA vampiriza e se apropria da cultura produzida pela minoria negra.
E, às vezes, esses vampiros são "convidados" a entrar para corromper, como lembrou o professor de História, Filosofia e Sociologia Gusthavo Fuks em um texto brilhante publicado recentemente no Facebook, no qual escreveu: "Vampirismo aqui não é só uma maldição, mas uma ideologia, que troca cultura por capital, espiritualidade por status, comunhão por ambição" e que "transforma vítimas em predadores".

Também é bem interessante um cineasta negro tomar para si um subgênero tradicionalmente dominado por artistas brancos, com algumas notáveis exceções, como Blácula: O Vampiro Negro (1972) ou a trilogia Blade (1998-2004), protagonizada por Wesley Snipes.
Mas Coogler, em nome do entretenimento popular, ocupa demasiado tempo das duas horas e 17 minutos com cenas de ataques sanguinolentos que são temperados por piadas verbais ou visuais. Por vezes, um filme com uma atmosfera trágica se assemelha a uma aventura do tipo Rambo ou uma comédia pastelão.
A cena mágica de "Pecadores"

Ainda assim, Pecadores deve entrar para a história do cinema, graças a um momento mágico na noite de abertura do clube noturno de Fumaça e Fuligem.
ALERTA DE SPOILERS.
É um plano-sequência que nos coloca dentro do vibrante juke joint enquanto Sammie canta e toca, inebriando a plateia. Estamos todos — os personagens, os atores, os figurantes e os espectadores — em uma espécie de transe. Que vira uma epifania: enquanto a narração em off conta que a música pode não só romper a barreira entre os vivos e os mortos, mas também as fronteiras entre o passado, o presente e o futuro, aparecem em cena um homem com trajes folclóricos africanos e um instrumento ancestral do violão, um sujeito com uma guitarra elétrica, um DJ fazendo scratch em seu toca-discos...
É uma grande, contagiante e comovente celebração da música como meio de expressão das dores e das alegrias da comunidade negra, a música como veículo de acesso a suas origens e de prospecção por dias melhores, a música como um território de identidade, comunhão e liberdade.
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