
A Netflix adiciona nesta terça-feira (20) ao seu menu um filme brasileiro que foi fenômeno de público durante sua temporada nos cinemas, contrariando quem diz que ninguém gosta das produções nacionais. Trata-se de O Último Azul (2025), que foi rodado na Amazônia pelo diretor pernambucano Gabriel Mascaro e é estrelado por Denise Weinberg, Rodrigo Santoro e Adanilo.
Em Porto Alegre, o título ficou 12 semanas em cartaz nas salas da Cinemateca Paulo Amorim. Igualou o recorde de Flow: À Deriva (2024), animação da Letônia que ganhou o Oscar da categoria, e terminou em segundo lugar no número de ingressos vendidos: foram 2,5 mil, contra os 3.225 espectadores de Flow.
A longa permanência é um fenômeno cada vez mais raro, quase exclusivo de algumas superproduções hollywoodianas, como Divertida Mente 2 (2024), visto nas telas porto-alegrenses durante quase cem dias, ou daqueles filmes que se alimentam muito da propaganda boca a boca, caso de O Último Azul.
Ganhador do Urso de Prata no Festival de Berlim

O Último Azul foi um dos três filmes colocaram o Brasil em evidência no cinema mundial ao conquistarem, em menos de nove meses, prêmios nos principais eventos do calendário.
Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles, ganhou o Oscar internacional, o Globo de Ouro de atriz em drama (Fernanda Torres) e a Osella de melhor roteiro no Festival de Veneza.
O Agente Secreto (2025) venceu duas categorias no Festival de Cannes: melhor direção, para Kleber Mendonça Filho, e melhor ator, para Wagner Moura.
O Último Azul (2025), de Gabriel Mascaro, trouxe do Festival de Berlim o segundo troféu mais importante, o Urso de Prata. O filme também levou os prêmios do Júri Ecumênico, destinado a produções que abordam questões sociais e espirituais, e do Júri de Leitores do jornal Berliner Morgenpost.
Qual é a trama de "O Último Azul"?

O Último Azul é o oitavo longa-metragem do diretor e roteirista pernambucano Gabriel Mascaro, autor de Boi Neon (2015) e Divino Amor (2019). Em sintonia com as discussões sobre o envelhecimento da população — uma tendência global — e sobre o etarismo (o preconceito, a discriminação ou a estereotipagem contra os mais velhos), a trama coincide com a do filme japonês Plano 75 (2022). Ambos podem ser considerados distópicos.
Nesse título dirigido por Chie Hayakawa, o governo do Japão incentiva quem tem 75 anos ou mais a participarem de um programa de eutanásia. No filme de Gabriel Mascaro, o governo do Brasil baixa de 80 para 75 anos a idade que obriga os cidadãos a se mudarem para uma colônia habitacional. A ideia da lei é liberar as famílias do "fardo" de cuidar de um idoso e dar aos mais jovens mais espaço no mercado de trabalho. É um exílio forçado que significa a morte na sociedade.
A personagem principal, Tereza, é interpretada por Denise Weinberg, atriz premiada no teatro, por peças como Oração para um Pé de Chinelo e Testamento de Maria, e no cinema — conquistou o Grande Otelo, da Academia Brasileira, de coadjuvante por Salve Geral (2009) —, além de ter sido indicada ao Emmy Internacional, em 2018, pela terceira temporada da série Psi.
No futuro próximo imaginado por Mascaro, a protagonista mora em em uma cidade industrializada da Amazônia, onde trabalha em um frigorífico de jacarés. Tereza já tem 77 anos, portanto, é convocada a abandonar seu emprego e rumar para a Colônia.
Mas Tereza se recusa a sair de cena. Ainda tem muito a viver, ainda tem sonhos a realizar. "Vão mandar no meu querer agora, é?", questiona.
Então, a protagonista embarca em uma jornada pelos rios e afluentes da região, onde vai conhecer coadjuvantes como o barqueiro Cadu, papel de Rodrigo Santoro, em atuação curta, mas marcante; o pintor Ludemir, vivido pelo ator manaura e indígena Adanilo; e Roberta, personagem da atriz cubana Miriam Socarrás que cria uma conexão instantânea com Tereza e a ajuda a se soltar de uma vida mais ordinária para explodir como uma enchente amazônica.
No caminho, Tereza também descobre as propriedades místicas dos caracóis e a ferocidade de peixinhos que travam uma luta mortal para o gáudio ou o desgosto dos apostadores de um bar fluvial.
Amparado pela direção de fotografia de Guillermo Garza, que evita o olhar exotizante, pela montagem sem pressa de Omar Guzmán e Sebastián Sepúlveda e pela hipnótica trilha sonora de Memo Guerra, Gabriel Mascaro faz de O Último Azul um "filme de estrada na água" — o road movie vira boat movie, na definição da própria equipe. Tanto o diretor quanto a sua protagonista estão menos interessados no destino do que na jornada — que tem mais de fábula melancólica do que de ficção científica ou aventura.
Nas palavras de Mascaro, O Último Azul mostra que "nunca é tarde pra encontrar um sentido na vida".
— É um filme sobre uma mulher idosa que deseja — disse o cineasta no Festival de Gramado, onde O Último Azul foi exibido fora de competição, na noite de abertura oficial. — No cinema, raramente os idosos são retratados com pulsão de vida. Ou o filme é sobre finitude, ou é sobre nostalgia. Enquanto o mundo esconde o envelhecimento, vem a Tereza e nos mostra como é bonito envelhecer.
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