
Há pelo menos duas maneiras de encarar Assassinato em Mônaco (Murder in Monaco, 2025), um dos mais recentes documentários do gênero true crime lançados pela Netflix.
O filme pergunta: como pode um dos homens mais ricos do mundo morrer em um dos lugares mais seguros do mundo?
O diretor estreante Hodges Usry reconstitui as circunstâncias da morte do banqueiro Edmond Safra (1932-1999), nascido no Líbano e naturalizado brasileiro, e da enfermeira filipina Vivian Torrente. Em decorrência de um incêndio criminoso iniciado em um cesto de lixo, eles morreram por asfixia e inalação de fumaça após se refugiarem em um quarto do pânico da luxuosa cobertura do banqueiro no edifício Belle Époque, em Monte Carlo, na madrugada do dia 3 de dezembro de 1999.

Quem foi o culpado? Na época, suspeitou-se da máfia russa, porque Safra havia entregue ao FBI, a polícia federal dos EUA, documentos que comprovavam um esquema de lavagem de dinheiro.
Também houve quem acreditasse no envolvimento da própria esposa do banqueiro, a porto-alegrense Lily Safra (1934-2022).
Uns podem considerar Assassinato em Mônaco irresponsável: o diretor dá protagonismo justamente ao homem que foi condenado a 10 anos de prisão pelo caso, o estadunidense Ted Maher, então um dos enfermeiros de Safra, que no documentário defende a tese de ser o homem errado no lugar errado.
Usry também abre mão do rigor jornalístico e da apuração minuciosa para privilegiar teorias conspiratórias e entrevistas com personagens excêntricos (como uma socialite britânica e um criminoso italiano) e imprime um tom leve, quase de humor, em uma história trágica.

Mas se visto como obra de entretenimento — o fundamento de qualquer produção true crime, a despeito de objetivos nobres ou de problemas éticos —, Assassinato em Mônaco é simplesmente irresistível.
Hodges Usry sabe explorar os muitos ingredientes intrigantes, realçar os dados biográficos convenientes e organizar a narrativa de um modo que impacta e engaja o espectador. Seu documentário tem mistério, suspense e até reviravoltas. Aliás, uma dessas viradas na "trama" pode apresentar ares de ficção cinematográfica, mas acaba se mostrando uma rendição do diretor aos fatos.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano




