
No cenário do futebol, a relação entre Brasil e Argentina pode ser de rivalidade raivosa. Mas o público brasileiro tem um carinho enorme pelo cinema argentino — aliás, quando alguém quer malhar um filme nacional, não raro afirma que nossos diretores e roteiristas "precisam aprender" com os do país vizinho.
Pois bem.
Lançado no domingo (18) pela plataforma Disney+, a comédia Homo Argentum (2025) é o filme "perfeito" para quem acha que o cinema argentino é sempre bom.
Suas credenciais eram promissoras. Homo Argentum é dirigido por Gastón Duprat e Mariano Cohn, a mesma dupla dos filmes O Homem ao Lado (2011), O Cidadão Ilustre (2016), Minha Obra-Prima (2018, assinado só por Duprat) e Concorrência Oficial (2021) e das séries Meu Querido Zelador (2022-2024) e O Faz Nada (2023).
O protagonista é Guillermo Francella, ator premiado por O Segredo dos seus Olhos (2009) e O Clã (2015), astro da comédia Granizo (2022) e parceiro de Cohn e Duprat em Meu Querido Zelador. Em Homo Argentum, Francella interpreta 16 personagens, com 16 personalidades diferentes e 16 caracterizações distintas.
E Homo Argentum foi um campeão de bilheteria na Argentina no período pós-pandemia. Lá, o filme atraiu mais de 1,7 milhão de espectadores.

O longa-metragem reúne 16 histórias, algumas com apenas um minuto (parecem vinhetas), outras mais longas (com 10 ou 12 minutos). Cada uma é independente, mas a ideia do filme é pintar um retrato multifacetado do homem argentino, fazendo uma reflexão cômica sobre os dilemas, as contradições e as mazelas da sociedade argentina.
Se Homo Argentum fosse uma prova, as equipes de maquiagem, cabelos e figurino passariam com louvor, mas Cohn, Duprat e Francella rodariam feio: acertam em somente três das 16 histórias.

Como comédia, Homo Argentum oferece piadas requentadas e telegrafadas, quando não são de humor duvidoso ou ancoradas na profusão de palavrões.
Como crítica social, até faz apontamentos incisivos, mas que ficam perdidos e se tornam inertes no conjunto da obra. Faltou foco, faltou desenvolvimento de ideias. Talvez o filme fosse melhor se reduzisse o número de histórias, mesmo que assim pudesse suscitar comparações maiores com outro sucesso argentino que também é episódico — Relatos Selvagens (2014), de Damián Szifron.

Os três segmentos que valem são o primeiro, Nada Aconteceu Aqui, o décimo-primeiro, A Namorada do Papai, e o penúltimo, Um Filme Necessário.
Na história de abertura, Mariano Cohn e Gastón Duprat são mórbidos ao retratar a elite encastelada e insensível. A Namorada do Papai gira em torno da divisão de uma herança (na verdade, o patrimônio) entre os três filhos do personagem principal — bem que a trama poderia evoluir para um filme próprio. Por fim, Guillermo Francella encarna um diretor de cinema que está filmando uma obra sobre um povo indígena. Com precisão que chega a ser contundente, Homo Argentum ironiza a apropriação e a exploração de causas humanitárias e sociais.
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