
Há duas plataformas de streaming que sempre recomendo para quem gosta mais de séries do que de filmes. Uma é a HBO Max, casa com o selo de qualidade da HBO, que produz seriados e minisséries desde 1997 e que costuma ser a campeã de conquistas no prêmio Emmy.
O outro serviço que indico é o Apple TV, que é bem mais novinho — surgiu em 2019 —, mas já tem uma coleção de vitórias na principal premiação da TV e do streaming nos Estados Unidos. Vide, por exemplo, os três recordes batidos pela comédia O Estúdio em 2025. Ted Lasso já soma 13 troféus, e Ruptura, 10.
O menu da plataforma é uma perdição. Aliás, estou me devendo assistir a títulos como For All Mankind, Fundação e The Morning Show. Falta tempo.
Pensando em quem tem o mesmo obstáculo, fiz uma lista com sete séries do Apple TV que podem ser maratonadas em um dia — mas se você estiver com a agenda bem livre, aproveite para ver os 30 episódios já lançados de Slow Horses, uma das minhas preferidas. Não selecionei apenas minisséries: inclui a primeira temporada de seriados que foram renovados, mas ainda não estrearam seu segundo ano.
A ordem é apenas alfabética. Clique nos links se quiser saber mais.
1) Acima de Qualquer Suspeita (2024)

Jake Gyllenhaal interpreta o promotor Rusty Sabich, casado e pai de dois adolescentes, designado para assumir o caso de um assassinato chocante: o de Carolyn Polhemus (Renate Reinsve), sua colega de trabalho e, não é spoiler, sua amante. O elenco inclui Ruth Negga (como a esposa de Rusty), Bill Camp (como o chefe do promotor) e Peter Sarsgaard (como seu rival no escritório).
Há muitas reviravoltas e duelos verbais que, afiadamente, desnudam a personalidade nada exemplar dos personagens. É uma grande história sobre o poder da narrativa em detrimento daquilo que entendemos como certo ou verdade, e sobre como as idealizações e as hipocrisias da sociedade podem ser nocivas, tóxicas. (8 episódios; terá uma segunda temporada, mas com outro elenco)
2) Seus Amigos e Vizinhos (2025)

Jon Hamm, o eterno Don Draper de Mad Men (2007-2015), faz o personagem principal, Andrew Cooper, o Coop. Trata-se de um gestor de fundos de investimento que ainda está lidando com seu divórcio recente — o que inclui despesas vultuosas com a educação dos dois filhos — quando acaba perdendo o emprego. À beira da ruína, ele passa a assaltar as casas de seus vizinhos na extremamente abastada comunidade de Westmont Village. Dessas residências, o protagonista também leva segredos.
Misturando drama, suspense e comédia, Seus Amigos e Vizinhos aborda com cinismo o mundo dos privilegiados: trata de status e fachada, do vazio — moral, emocional, espiritual, intelectual — que pode estar associado àqueles que têm tudo. Coop encara seus furtos como um novo trabalho, ao qual vai se dedicar com afinco — afinal, é o dinheiro da venda clandestina de joias, relógios e afins que pode garantir seu lugar à mesa da alta sociedade. Hamm está excelente, combinando charme, desespero, sarcasmo e ambiguidade. Mas é preciso destacar também a atuação de Amanda Peet na pele de sua ex-esposa, Mel. Vale prestar atenção na gama de sentimentos que a atriz consegue exprimir sem dizer uma palavra. (9 episódios; terá uma segunda temporada, com estreia prevista para abril)
3) Black Bird (2022)

Taron Egerton encarna James Keene, o Jimmy, um filho de policial (o último papel de Ray Liotta) e um promissor jogador de futebol americano que enveredou para o tráfico de drogas. Dono de um pequeno império em Chicago, ele acaba preso em uma operação do FBI. Enquanto isso, o detetive vivido por Greg Kinnear investiga o desaparecimento — e provável assassinato — de jovens mulheres.
O principal suspeito é Larry Hall, um tipo excêntrico que adora participar de reencenações da Guerra Civil e é encarnado por Paul Walter Hauser. A combinação de seu físico roliço com a voz estridente e as costeletas suíças do personagem transformam Larry em um sujeito ora bizarro, ora patético, ora perigoso — merecidamente, por Black Bird Hauser venceu o Emmy, o Globo de Ouro e o Critics' Choice de melhor ator coadjuvante. (6 episódios)
4) Cortina de Fumaça (2025)

As perguntas suscitadas por esta minissérie policial despertam mais curiosidade do que o habitual: quais são as motivações dos incendiários? Qual é o seu modus operandi? O que o fogo traz de recompensa? O que a fumaça pode estar encobrindo?
Em Cortina de Fumaça, Taron Egerton interpreta Dave Gudsen, um investigador de incêndios criminosos que tem pretensões literárias. A contragosto, Gudsen terá de formar uma dupla com a detetive Michelle Calderone (Jurnee Smollett), uma policial que carrega um pesadíssimo trauma familiar relacionado justamente a fogo. O objetivo é deter não apenas um, mas dois incendiários que vêm agindo na região, ora causando apenas danos materiais e prejuízos financeiros, ora provocando mortos e feridos. Não vou dar spoiler, mas preciso dizer: o final é antológico. (9 episódios)
5) Disclaimer (2024)

"Disclaimer" é o nome dado às declarações de isenção de responsabilidade, uma proteção contra possíveis problemas legais, como aqueles avisos, nas primeiras páginas de um livro de ficção, de que "qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência". A protagonista vivida por Cate Blanchett é a documentarista Catherine Ravenscroft, que construiu sua reputação ao trazer à tona os erros e as transgressões de governos, empresas e pessoas proeminentes. Agora, ela se vê às voltas com um livro (enviado pelo personagem do espantoso Kevin Kline) que expõe um episódio nefasto de quando era mais jovem.
A trama é perfeita para quem curte segredos de família, mistérios mórbidos a desvendar e um vaivém entre o presente e o passado. A forma também seduz: Disclaimer intercala três pontos de vista, talvez nenhum deles absolutamente confiável, como a ilustrar o quão podem ser fabricadas, ou seja, não exatamente reais, as histórias que contamos sobre nós mesmos e aqueles que amamos. (7 episódios)
6) O Estúdio (2025)

Grande campeã do Emmy de 2025 entre as séries de comédia, esta sátira sobre Hollywood acompanha as desventuras de Matt Remick (papel de Seth Rogen). Trata-se de um produtor cinematográfico que, logo no primeiro capítulo, é alçado ao cargo de chefe do fictício Continental Studios. Ele ainda acredita na integridade artística em uma indústria cada vez mais superficial e ancorada em propriedade intelectual (leia-se: franquias, continuações, prólogos etc), mas acaba incumbido de desenvolver uma superprodução com o Jarrão do Kool Aid, a marca de suco em pó conhecida no Brasil como Ki-Suco.
As tramas de O Estúdio contam com um timaço de cineastas e estrelas fazendo participações especiais: de Martin Scorsese a Charlize Theron, de Ron Howard a Zöe Kravitz, de Sarah Polley a Zac Efron. O segundo episódio, feito em plano-sequência, é impagável. (10 episódios de meia hora; terá uma segunda temporada, com estreia no final de 2026, provavelmente)
7) Pluribus (2025)

Sensação do final de 2025, é a nova série de Vince Gilligan, criador de Breaking Bad (2008-2013) e Better Call Saul (2015-2022). A protagonista é uma romancista de sucesso mas rabugenta, Carol Sturka, papel de Rhea Seehorn, desde já uma favorita ao Emmy de melhor atriz em 2026. Moradora de Albuquerque, no Novo México, ela é uma das raríssimas pessoas no mundo imunes aos efeitos da "União" (em inglês, Joining). Trata-se de um vírus extraterrestre que transformou a população humana em uma mente coletiva pacífica e satisfeita — o título do seriado foi extraído do lema em latim E pluribus unum, gravado na moeda dos EUA, que significa "de muitos, um". Não há mais guerras, e o estado de felicidade permanente é o novo normal. O conhecimento é compartilhado por todos — ricos e pobres, crianças e adultos — e qualquer um é capaz de pilotar aviões, operar cérebros e falar mandarim.
Pluribus pode até parecer, na largada, um episódio de Além da Imaginação ou de Black Mirror, mas se mostra muito diferente de tudo o que estamos acostumados a ver nas séries. Até o seu ritmo pode causar estranheza. É uma obra que "dá comida para o pensamento", conforme escreveu a colunista Cláudia Laitano em GZH, ao permitir leituras sofisticadas e transcendentes.
Um dos subtextos mais evidentes, como disse a colunista, é o do impacto da inteligência artificial e do algoritmo sobre a nossa subjetividade. "Mas a série talvez vá um pouco além, ultrapassando a questão imediata da tecnologia para cutucar um dos dilemas mais antigos da humanidade: a escolha entre liberdade e segurança (ou satisfação garantida)", apontou Laitano. Também colunista de GZH, Rafael Parente comparou Pluribus ao "sonho cansado de qualquer sociedade exausta". Para ele, as perguntas que a série lança são inquietantes: e se o um não significar união, mas dissolução? E se a harmonia exigir, como pedágio, a renúncia daquilo que nos torna singulares? Quem se oporia a um mundo sem sofrimento? (9 episódios; terá uma segunda temporada, mas sem previsão de estreia)
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