
Lançada em novembro nos Estados Unidos, All Her Fault (2025) estreou no Brasil no dia 2 de janeiro e logo se tornou um fenômeno de audiência e de engajamento. Continua sendo a série mais vista no Amazon Prime Video e segue gerando posts nas redes sociais — sobretudo por causa de temas como a culpa materna e a sobrecarga das mulheres na vida familiar.
Aliás, a minissérie em oito episódios tem amplo protagonismo feminino. É baseada no romance homônimo da escritora Andrea Mara publicado em 2021 e ainda inédito no país; foi desenvolvida pela roteirista Megan Gallagher; traz a assinatura das diretoras Kate Dennis e Minkie Spiro; e três dos cinco papéis principais são encarnados pelas atrizes Sarah Snook (ganhadora do Emmy por Succession), Dakota Fanning e Sophia Lillis (de It: A Coisa).
O ponto de partida desta história ambientada na cidade de Chicago é intrigante e irresistível — isso, claro, se você curte sofrer junto com os personagens. Quando Marissa (Sarah Snook, merecidamente premiada no Critics Choice e indicada ao Globo de Ouro), uma bem-sucedida gestora de patrimônios que é casada com o corretor de commodities Peter Irvine (Jake Lacy, da primeira temporada de The White Lotus), vai buscar seu filho pequeno, Milo, na casa de um amiguinho, ela descobre que lhe deram um endereço errado. Muito errado.
A senhora que atende à porta nunca viu ou ouviu falar de Milo, de Marissa ou de Jacob, o outro guri, filho de Jenny Kaminski (Dakota Fanning), que trabalha na área de marketing de uma editora de best-sellers. Torna-se real o pesadelo de qualquer pai: o desaparecimento do filho. Não é spoiler dizer que a principal suspeita pelo sequestro é a babá de Jacob, a jovem Carrie Finch (Sophia Lillis). É ela quem o detetive Alcaras (Michael Peña) vai caçar.
À primeira vista, pode parecer que All Her Fault é apenas um suspense policial, com uma trama de mistério e investigação para ser consumida vorazmente. Negativo: a minissérie consegue convidar à reflexão e à identificação do público com os dramas vividos pelos personagens.

Ao abordar a maternidade e a divisão de tarefas na criação dos filhos, All Her Fault lança luz sobre "as estruturas silenciosas que esmagam mulheres sob o peso da responsabilidade", como escreveu a psicóloga Carol Camargo. "A série expõe a solidão de quem sempre dá conta, o descaso com o sofrimento feminino, a violência disfarçada de proteção e os pactos de omissão entre homens. É sobre culpa, sobre cansaço e sobre como, quando tudo desmorona, as mulheres seguem sendo as primeiras a serem questionadas."
Embora possam se dar ao luxo de contratar babás, Marissa e Jenny buscam conciliar seu papel de mãe com a dedicação à carreira. Acabam se cobrando ou sendo cobradas. Pior: seu esforço contínuo na lida doméstica é menosprezado ou invisibilizado pelo marido, como no caso do egoísta Richie Kaminski (Thomas Cocquerel).
"O seriado escancara uma verdade incômoda", afirmou a psicóloga Tatiana Hemesath: "a mãe não é vista apenas como alguém que cuida, ela é vista como o cuidado encarnado. Por isso, qualquer falha vira falha de caráter, não falha humana". Já o pai, não raro ocupa o lugar "de ajuda", de "presente quando pode". Se o pai participa, é elogiado; se está ausente, é explicado; se erra, relativiza-se. Mas a mãe, ah, se a mãe erra ela é condenada.
Não são só as personagens femininas que despertam empatia. Por meio de Brian, um irmão de Peter Irvine que sofreu uma grave lesão na coluna na infância — e que é interpretado por Daniel Monks, ator com hemiplegia do lado direito do corpo (seu braço está totalmente paralisado e sua perna funciona parcialmente) —, All Her Fault discute temas ligados a pessoas com deficiência física, como trauma, dor, preconceito, dependência e desejo de autonomia. Por meio do detetive Alcaras, a minissérie versa sobre parentalidade atípica: o filho dele, Sam, é neurodivergente e aguarda por vaga em uma escola mais adequada para o seu desenvolvimento.

A todo instante, praticamente todos os personagens vão se chocar uns contra os outros, descobrir mentiras ou encarar dilemas morais. Nem sempre estarão "certos" nos conflitos emocionais e na tomada de decisões, mas sua ambiguidade e sua vulnerabilidade os humanizam. Somos instados a nos colocar no lugar deles: será que faríamos mesmo diferente?
Por ser uma série que se enquadra no gênero do suspense policial, é natural que All Her Fault invista também em reviravoltas desconcertantes — ATENÇÃO: HAVERÁ SPOILERS a partir daqui. Mas por ser uma série que cuida tanto dos seus personagens, que parecem tão gente como a gente, a despeito do saldo bancário, há pelo menos uma virada na trama que provocou um ruído barulhento na minha sintonia com a protagonista.
REFORÇO O ALERTA DE SPOILER.
No final da trama, Marissa vê-se obrigada a fazer uma escolha terrível: se ela entregar Peter à polícia, terá de assumir que Milo, no fim das contas, não é seu filho, mas sim da personagem encarnada por Sophia Lillis. Se endossar a versão do marido, mantém consigo o menino que tanto ama.
Marissa não toma a decisão mais nobre, e tudo bem quanto a isso: afinal, quantas vezes por dia resolvemos algo pensando apenas no nosso próprio bem, atendendo apenas a nossa vontade?
Mas há um último plot twist em All Her Fault, e esse eu achei mais difícil de engolir. É verossímil — e até compreensível — que Marissa adote métodos nada ortodoxos para se desvencilhar de um casamento tóxico. Não bastasse ser mentiroso e manipulador, Peter já matou duas pessoas e já se mostrou agressivo com o filho. Mas, para mim, é rápida demais a transformação da honestíssima protagonista, que sempre foi uma bússola moral para o espectador e que vem de um trauma avassalador, em uma assassina fria, cruel e sarcástica.
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