
A HBO Max lança nesta quinta-feira (8) o primeiro episódio da segunda temporada de The Pitt, a série médica que foi a grande surpresa na edição de 2025 do Emmy, o principal prêmio da TV e do streaming nos Estados Unidos.
Mesmo que merecidas, as vitórias nas categorias de melhor seriado de drama, ator (com Noah Wyle) e atriz coadjuvante (Katherine LaNasa) causaram certo espanto. Afinal, a primeira temporada de The Pitt tinha entre os rivais títulos badaladíssimos, como The Last of Us, Ruptura e The White Lotus.
Wyle, em sua primeira indicação ao Emmy, derrotou Sterling K. Brown, de Paradise, Gary Oldman, de Slow Horses, Pedro Pascal, de The Last of Us, e Adam Scott, de Ruptura. Também estreante na premiação, LaNasa superou Julianne Nicholson (Paradise) e quatro atrizes de The White Lotus: Aimee Lou Wood, Parker Posey (ambas consideradas favoritas), Carrie Coon e Natasha Rothwell.
No Emmy, houve mais dois troféus: melhor elenco e ator convidado, para Shawn Hatosy. No Globo de Ouro, que será entregue neste domingo (11) pela Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood, The Pitt concorre na categoria de série dramática, e Noah Wyle está indicado como melhor ator em drama.
Qual é a trama da série "The Pitt"?

A série The Pitt (2025) mistura dois clássicos da TV estadunidense.
Por um lado, remete a Plantão Médico, o nome dado no Brasil a ER (1994-2009). Além de ser ambientada na emergência de um hospital, traz no elenco um ator daquele seriado, Noah Wyle, e foi criada por um de seus produtores e roteiristas, R. Scott Gemmill, também conhecido por trabalhar em NCIS: Los Angeles (2009-2023).
Por outro, alude a 24 Horas (2001-2010), por causa do formato. Como acontecia nas aventuras do agente Jack Bauer, os 15 episódios cobrem em tempo real 15 horas da tensa rotina de um pronto-socorro em Pittsburgh — muitas cenas podem deixar o espectador com o coração na mão. Lá, um grupo de estudantes de Medicina dá seus primeiros passos na profissão, acompanhados de perto pelo personagem de Wyle, o doutor Michael Robinavitch, carinhosamente chamado de Robby.
Na primeira temporada, a ação começa às 7h do dia em que se completam quatro anos da morte do mentor de Robby, o doutor Adamson, por causa da pandemia de covid-19. Aliás, uma das inspirações para a série foi o profundo impacto físico e emocional do coronavírus nos profissionais de saúde. "Eu recebia muitas cartas de socorristas contando suas experiências, e isso me fez perceber que havia outra história a ser contada", comentou Wyle.
O protagonista de The Pitt ficou traumatizado por essa perda, sente-se culpado. E tem de encarar também as cobranças de Gloria Underwood (Michael Hyatt), a gerente do hospital, preocupada em evitar gastos e em elevar os índices de satisfação dos pacientes — que podem ter de esperar horas e horas por atendimento.

Robby não tem tempo para sofrer, porque há muitas vidas para salvar. Pode ser até de um colega, Jack Abbot (papel de Shawn Hatosy), flagrado na beira do telhado, talvez ensaiando uma tentativa de suicídio.
Depois disso, Robby é apresentado pela enfermeira-chefe, a simpática e empática Dana (Katherina LaNasa), aos novos residentes e alunos de Medicina: Victoria Javadi (Shabana Azeez), 20 anos e filha de uma renomada cirurgiã, que desmaia no seu primeiro caso; Dennis Whitaker (Gerran Howell), que logo vai correr o risco de perder seu primeiro paciente; Melissa King (Taylor Dearden), que é socialmente desajeitada, mas tecnicamente qualificada; e Trinity Santos (Isa Briones), a personagem que, como a própria atriz que a interpreta admitiu, o público vai amar odiar.
O recurso narrativo do "olhar virgem" é usual, mas eficiente. Possibilita a The Pitt explicar ao espectador termos como tamponamento, periocardiocentese, toracotomia e neurocisticercose e apresentar com fluidez os demais coadjuvantes. A doutora Heather Collins (Tracy Ifeachor) tem alguma rusga não resolvida com Robby, e o residente sênior Frank Langdon (Patrick Ball) é o braço-direito do protagonista. Cassie McKay (Fiona Dourif), uma residente de 42 anos, exala doçura, mas também tem alguma turbulência na vida pessoal. Samira Mohan (Supriya Ganesh) é uma médica que, na avaliação de seu chefe, gasta tempo demais com os pacientes, enquanto a cirurgiã Yolanda Garcia (Alexandra Metz) não pode ser mais fria e arrogante.

Esse exército vai se dividir, ou melhor, se multiplicar para tratar de casos como o de um homem que, sem capacete, sofreu um terrível acidente de scooter; uma mãe que apareceu com uma estranha queimadura no braço; um menino de quatro anos que ingeriu as balas de maconha do pai; uma mulher que foi empurrada da plataforma do metrô e não fala inglês; um adolescente com morte cerebral; e um idoso cujo casal de filhos está em conflito: um quer respeitar a ordem de não ressuscitar do pai, a outra quer prolongar sua vida, mesmo que isso signifique uma morte mais lenta e dolorosa.
Para os leigos, os procedimentos médicos parecem autênticos (consta que houve meses de treinamento intensivo para o elenco, que aprendeu a fazer intubação e reanimação cardiopulmonar, por exemplo). Há, porém, alguns clichês das séries de hospital, como o sarcasmo e as piadinhas na sala de cirurgia. E a subtrama sobre o furto de uma ambulância é um alívio cômico forçado que ocupa um tempo demasiado.
A estrutura em tempo real dá uma tremenda agilidade a The Pitt: a ação nunca para. Simultaneamente, amplia a tensão — inerente a um cenário claustrofóbico (não se vê janelas, e os personagens raramente saem para a rua) onde a morte está sempre à espreita — e o suspense: os casos não são resolvidos imediatamente, um paciente que surgiu em um episódio pode só reaparecer dois ou três capítulos depois. Por outro lado, o desenvolvimento dramático dos personagens pode parecer apressado: o intervalo entre um episódio e outro é de uma semana aos olhos do espectador, mas dentro da história cada capítulo corresponde a apenas uma hora.
Outro grande trunfo de The Pitt é a ausência de uma trilha sonora que busque manipular as emoções do espectador. Além de emprestar mais realismo, a crueza do som ambiente intensifica o drama. E abre espaço para que os diálogos tenham peso, como quando o doutor Robinavitch comenta sobre o fantasma de todo médico, todo enfermeiro, todo trabalhador de um hospital: a morte de um paciente. Pior ainda se for uma criança — "Vai assombrar vocês para sempre", diz Robby, sem rodeios.
À sensação de impotência e de fracasso, soma-se o embaraço de comunicar aos parentes, sempre esperançosos de que a vida prevalecerá. Com apenas quatro palavras, Robby resume o sentimento de quem sabe que, não importa o quão bom seja no que faz, o final pode não ser feliz:
— Nunca fica mais fácil.
Em outro momento retumbante da primeira temporada, o protagonista de novo joga luz sobre a sombra constante que acompanha médicos e enfermeiros:
— Eu não sei quantas pessoas salvei hoje, mas sei exatamente quais morreram.
As crises, contudo, coexistem com a distribuição de sabedoria e a valorização da empatia. Com o tom de voz que é ao mesmo tempo íntimo, agradável e solene do ator Noah Wyle, Robby ensina sobre as quatro coisas simples que precisamos dizer a um ente querido que está morrendo e que podem ajudar a aliviar os estágios iniciais do luto:
— Eu te amo. Obrigado. Eu te perdoo. Por favor, me perdoa.
Como será a segunda temporada de "The Pitt"?

Atenção: o texto a seguir terá SPOILERS DA PRIMEIRA TEMPORADA, mas não da segunda — só informações que já foram divulgadas pela HBO Max e comentadas pelo criador da série.
Com outros 15 episódios que se passam em tempo real, a nova temporada de The Pitt começa 10 meses depois da primeira e está ambientada no 4 de Julho, o feriado do Dia da Independência dos Estados Unidos. Também é o primeiro dia do retorno do doutor Langdon (Patrick Ball) ao trabalho após ter entrado em um programa de reabilitação por causa do vício em remédios.
Se Langdon está de volta, um nome importante não faz mais parte da equipe do hospital: a médica Heather Collins (papel de Tracy Ifeachor), que sofreu um aborto espontâneo durante a primeira temporada. Houve rumores de que a atriz havia sido demitida por causa de "controvérsias religiosas", mas oficialmente dizem que foi apenas uma "decisão da equipe criativa".

Por outro lado, novos personagens foram acrescentados. Sepideh Moafi, das séries The Deuce, The L World: Geração Q e Black Bird, interpreta Baran Al-Hashimi. Trata-se de uma médica designada para cobrir um período sabático do doutor Robby (Noah Wyle) — que enfim reconhece a necessidade de cuidar da sua saúde mental. Os dois se conhecem no último plantão dele antes da parada, e o santo de um não bate com o da outra.
Por falar em santo, o criador de The Pitt, R. Scott Gemmill, disse em entrevista ao site Gold Derby que a equipe de roteiristas se divertiu escrevendo as cenas da doutora Santos (Isa Briones) com o doutor Whitaker (Gerran Howell). Depois de fazer bullying com ele durante boa parte da primeira temporada, no episódio final ela convidou o colega para morar no quarto vago que havia em seu apartamento.
Entre outras novidades no elenco, Charles Baker, o Skinny Pete de Breaking Bad, encarna Troy, um homem em situação de rua que é paciente do pronto-socorro. Irene Choi é Joy, uma estudante de Medicina "com limites bem definidos e um vasto conhecimento que tende ao macabro", de acordo com o site Deadline. Laëtitia Hollard faz o papel de Emma, uma enfermeira recém-formada. E Lawrence Robinson interpreta Brian Hancock, um sujeito charmoso que aproveita sua lesão no futebol para paquerar uma médica.

No episódio de estreia da segunda temporada, o caso mais inusitado é o aparecimento de um bebê abandonado no centro de traumatologia. Mais adiante, deve haver um ataque cibernético ao hospital — o trailer sugere que médicos e enfermeiros terão de "voltar ao analógico" depois da pane em seus sistemas operacionais. O que mais pode dar errado em outro plantão caótico de 15 horas?
Bem, R. Scott Gemmill já afirmou que The Pitt não quer se repetir, então não deve haver uma situação parecida com o tiroteio em massa em um festival de música, o PittFest, que levou mais de cem pacientes ao hospital.
— Parte do nosso trabalho é descobrir que tipo de coisas podem afetar um pronto-socorro movimentado — comentou Gemmill ao Gold Derby.
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