
No dia 1º de dezembro de 1995, estreou nos cinemas dos Estados Unidos o filme que mostrou a única forma de existir racismo reverso. Infelizmente, o 30º aniversário de A Cor da Fúria (White Man's Burden), nesta segunda-feira (1º), não poderá ser celebrado do jeito apropriado, pois o título segue fora de catálogo no streaming — sequer está disponível nas plataformas de aluguel digital. Aliás, é o mesmo caso de A Hora do Show (2000), obra de Spike Lee que escancarou o racismo de Hollywood.
Antes de falar sobre o filme em si, vale reproduzir o texto de um vídeo do professor Loham Santos da Silva publicado no perfil do Instagram do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais. Loham começa com uma pergunta: se uma pessoa branca foi chamada de "palmito" ou "branquela azeda", isso é racismo? Existe racismo reverso?
— Para sabermos se existe ou não, é necessário entender as diferenças entre preconceito, discriminação e racismo — responde o professor. — O preconceito é uma forma de julgar sem conhecer. Existe quando se tem um julgamento negativo prévio sobre alguém ou algum grupo, sem base ou experiência ou conhecimento real. Exemplo: achar que uma pessoa negra é menos competente apenas pela sua cor da pele. Já a discriminação está no campo da ação. É quando tratamos pessoas de forma desigual e injusta por conta do preconceito. Exemplo: não contratar uma pessoa negra para um cargo por acreditar que ela é menos capaz. O racismo é um sistema estrutural que articula o preconceito e a discriminação, sustentando desigualdades históricas, sociais, políticas, econômicas e culturais.
Conforme Loham, "só é considerado racismo quando há um grupo que foi historicamente explorado e discriminado pela raça. E não se resume somente a uma ofensa, uma atitude isolada, pois é um sistema histórico estrutural que produz e mantém desigualdades. Exemplo: pessoas negras ganharem em média menos do que brancas, terem mais dificuldade de acesso à educação de qualidade e serem alvo preferencial da violência policial".
Portanto, não existe racismo reverso, "pois não existe uma estrutura social que oprima sistematicamente pessoas brancas por causa da sua cor de pele. Não há um sistema histórico, político e econômico que marginalize pessoas brancas. Uma pessoa branca pode sofrer uma piada ofensiva, mas não deixa de ser contratada em uma empresa por ser branca".
Qual é a trama de "A Cor da Fúria"?

A Cor da Fúria foi escrito e dirigido por Desmond Nakano, um estadunidense de ascendência japonesa que depois só realizou mais um filme, Uma Família Americana (2007). A história se passa em uma realidade alternativa, tipo um episódio estendido do clássico seriado Além da Imaginação (The Twilight Zone).
Pois é: o racismo reverso só pode existir em um mundo além da imaginação. Um mundo onde, ora, as coisas estão invertidas. Um mundo como o da piada do comediante muçulmano Aamer Rahman sobre a máquina do tempo que mudaria a mão na chamada civilização:
— Eu poderia ser um racista reverso, se eu quisesse. Tudo o que eu precisaria seria uma máquina do tempo para voltar ao período anterior à colonização do mundo pela Europa. Então, eu convenceria líderes da África, da Ásia, do Oriente Médio e da América do Sul a invadir e colonizar a Europa, ocupar, roubar sua terra e recursos naturais, estabelecer algum tipo de, sei lá, comércio de escravos, explorar mão de obra branca em gigantescas plantações de arroz na China, arruinar a Europa por um par de séculos, até que todos os seus descendentes teriam de migrar para lugares de onde pardos e negros vêm. É claro que, com o tempo, eu me asseguraria de criar sistemas para privilegiar negros e pardos em toda oportunidade social, política e econômica imaginável, e os brancos não teriam nenhuma esperança verdadeira de autonomia. E a cada 20 anos eu inventaria alguma guerra falsa como uma desculpa para bombardeá-los de volta à idade da pedra, e diria que é para o bem deles, porque sua cultura é inferior. E só pela diversão, submeteria os brancos aos padrões negros de beleza, até que odiassem a cor da sua pele, olhos e cabelos. Se, após séculos, séculos e séculos disso, eu subisse em um palco e dissesse "Ei, qual é o problema com os brancos? Por que eles não conseguem dançar?", isso seria racismo reverso.

Na ficção imaginada por Desmond Nakano, a sociedade ocidental não escravizou durante séculos os africanos, e são os negros que formam a classe privilegiada. Cabe aos brancos, em minoria e marginalizados, lidarem com o subemprego e com o preconceito, com a miséria e com a desconfiança. É o fardo do homem branco, como diz o título original, White Man's Burden — que, por sua vez, é o nome de um poema publicado em 1899 pelo britânico Rudyard Kipling que justificava o imperialismo como uma necessidade para levar a "civilização" aos lugares "mais atrasados" do planeta, tomados por "selvagens" e "tristes povos, metade criança, metade demônio".
Em A Cor da Fúria, John Travolta interpreta Louis Pinnock, operário branco de uma fábrica de chocolate que está apto a conseguir uma promoção. Um dia, ele vai à casa do seu patrão, Thaddeus Thomas (papel de Harry Belafonte), para entregar uma encomenda, mas um mal-entendido provoca sua demissão — e aí o personagem ingressa em uma espiral de desespero que explica o nome dado ao filme no Brasil.
Travolta tinha acabado de concorrer ao Oscar de melhor ator por Pulp Fiction (1994), de Quentin Tarantino, quando A Cor da Fúria foi lançado. Isso contribuiu para dar algum cartaz ao longa-metragem do estreante Nakano. Mas o filme naufragou nas bilheterias (custou US$ 7 milhões e arrecadou apenas US$ 3,7 milhões) e foi espinafrado pela crítica — no site agregador Rotten Tomatoes, tem somente 24% de avaliações positivas.
Só que os tempos eram outros em 1995. Em 30 anos, muita água rolou na questão da representatividade e do combate à desigualdade racial.
A crítica estadunidense que reprovou A Cor da Fúria segue sendo majoritariamente branca, mas hoje existem a African-American Film Critics Association (AAFCA), criada em 2003, e o Black Film Critics Circle (BFCC), fundado em 2010.
Em 1995, nenhuma artista negra havia vencido o Oscar de melhor atriz — Halle Berry, que ganhou em 2002, por A Última Ceia, continua sendo a única. Mas é inegável que a Academia de Hollywood passou a reconhecer mais o talento de artistas afro-americanos. Até 1995, na 67ª edição do prêmio, somando as quatro categorias de interpretação, houve 32 indicações, com seis vitórias. Nas 30 cerimônias realizadas de lá para cá, foram 66 indicações, e em 18 oportunidades atores e atrizes negros saíram do palco com a estatueta dourada nas mãos.
Entre os diretores, até 1995 apenas John Singleton, por Os Donos da Rua, já havia concorrido. Depois, somaram-se a ele Les Daniels (Preciosa), Steve McQueen (12 Anos de Escravidão), Barry Jenkins (Moonlight), Jordan Peele (Corra!) e Spike Lee (Infiltrado na Klan). Por duas vezes, uma produção dirigida por um negro e com elenco predominantemente negro venceu o Oscar de melhor filme: 12 Anos de Escravidão, em 2014, e Moonlight, em 2017.
Os avanços não foram somente na esfera cinematográfica, nem ficaram restritos aos Estados Unidos.
Em 1995, era um sonho distante um homem negro ocupar a Casa Branca — Barack Obama só foi eleito o 44º presidente dos Estados Unidos em 2008. E quem, em 1995, imaginava que o primeiro piloto negro da Fórmula-1, um esporte elitista por excelência, acabaria se tornando o recordista de títulos — Lewis Hamilton é heptacampeão, como Michael Schumacher —, de vitórias, de pódios e de poles positions?
No Brasil de 1995, ainda não existia a política de cotas raciais nas universidades federais — a pioneira foi a Universidade de Brasília, em 2004. Era coisa de ficção científica uma telenovela das nove com protagonista negra — Taís Araújo quebrou esse tabu em Viver a Vida (2009). Sete anos antes, Heraldo Pereira tornara-se o primeiro jornalista negro a assumir a bancada do Jornal Nacional. E somente em 2020 a Feira do Livro de Porto Alegre escolheu um escritor negro, Jeferson Tenório, como patrono.
Diante desse contexto de conquistas significativas, mas ainda insuficientes para falarmos de equidade, não é loucura supor que, hoje, a recepção a A Cor da Fúria seria outra. Talvez mais positiva, com certeza mais barulhenta — naquela época, vale lembrar, também não havia as redes sociais, e a própria internet, que ajudou a amplificar a voz dos excluídos, ainda era incipiente.
É bem possível que mais gente se interessasse por um filme que convida a população branca a fazer o básico: colocar-se no lugar dos negros. Sentir o que é ser alvo de olhares escrutinadores e da violência policial. Entender como a cor pode ser decisiva no mercado de trabalho e como isso, às vezes, pode levar à criminalidade de sobrevivência. Nós, os brancos, precisamos compreender que somos privilegiados e que essa condição é intrínseca ao chamado racismo estrutural. Fica a dica para as plataformas de streaming e os canais de TV: resgatem A Cor da Fúria.
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