
Chegou a hora de eleger os melhores filmes de 2025.
A regra é clara: só eram elegíveis títulos que estrearam comercialmente no Brasil ao longo de 2025. Por isso, entraram na lista produções que são de 2024 (ou até de 2023 e de 2022) nos seus países de origem e ficaram de fora longas-metragens nacionais ou estrangeiras que só foram exibidas em festivais (como Cinco Tipos de Medo, que ganhou quatro Kikitos em Gramado e certamente vai aparecer na minha seleção de 2026).
O critério de seleção foi totalmente subjetivo. Não importa se o filme ganhou Oscar ou se é favorito à premiação do próximo ano, se foi aclamado pela crítica ou se foi sucesso de bilheteria. Este top 20 (com tantos filmaços, não daria para resumir 2025 em 10) reúne só obras pelas quais eu me apaixonei e que veria de novo agora mesmo. Há diretores de nove países: Austrália, Brasil, Chile, Estados Unidos, França, Grécia, Irã, Itália e Letônia.
O mais difícil foi estabelecer uma ordem de preferência: isso pode variar muito de um dia para o outro, conforme o nosso estado de espírito ou por causa da lembrança de uma cena. No momento, o meu ranking afetivo é o seguinte (clique nos links se quiser saber mais):
20º) Flow: À Deriva (2024)

De Gints Zilbalodis. Ganhador do Oscar de melhor longa de animação, o filme da Letônia acompanha a luta por sobrevivência de um gato, um cachorro, uma capivara, um lêmure e uma ave de rapina durante uma enchente.
Podemos, portanto, encarar como uma fábula animal sobre tolerância, empatia e cooperação entre povos diferentes. Mas Flow recusa a habitual antropomorfização dos títulos da Disney ou da Pixar: sequer há diálogos. (Canal Filmelier+ do Amazon Prime Video)
19º) O Castigo (2022)

De Matías Bize. O filme do diretor chileno acompanha as discussões de um casal que, como castigo por um mau comportamento, deixou o filho de sete anos na beira da estrada, sozinho. O marido acha que o tempo transcorrido já foi suficiente e pede para voltarem, mas o guri não está mais no local onde os pais o deixaram. Sumiu.
A busca desesperada também revela sentimentos, ou melhor, ressentimentos que estavam submersos. Um dos principais temas de O Castigo é a maternidade: as expectativas e as cobranças, as diferentes perspectivas sobre conceber e criar uma criança que há se somos o pai ou a mãe. Uma decisão ruim torna uma mãe ruim? Podemos amar nossos filhos, mas odiar cuidar deles? (Foi exibido nos cinemas e ainda não tem previsão de estreia no streaming)
18º) Desconhecidos (2023)

De JT Mollner. A trama de Desconhecidos gira em torno de um homem (Kyle Gallner) e uma mulher (Willa Fitzgerald). O que era para ser um simples caso de uma noite se transforma em uma caçada sangrenta.
O diretor e roteirista confunde a percepção do espectador ao embaralhar a cronologia da trama. E desperta leituras muito antagônicas: há quem considere absolutamente inovador e surpreendente, há quem encare como mero e monótono exercício estético; há quem veja como misógino, há quem aponte viés feminista. (Telecine)
17º) O Reformatório Nickel (2024)

De RaMell Ross. O diretor oferece ao público a raríssima experiência de assistir a um filme inteiro pelos olhos de um personagem, com a câmera em primeira pessoa. Somos instados a nos colocarmos literalmente no lugar do outro, para talvez sentir na própria pele, mesmo que por apenas um par de horas, o peso do racismo.
A alternância entre o passado e o presente se justifica plenamente no impactante epílogo, e as escolhas aparentemente aleatórias ou desconexas da montagem ganham sentido e ressonância enquanto a trama de O Reformatório Nickel avança. (Amazon Prime Video)
16º) Bugonia (2025)

De Yorgos Lanthimos. Talvez seja a obra mais acessível de um cineasta célebre por provocar desconforto, choque ou perplexidade no público. Mas continua sendo um filme de Lanthimos: tem um olhar misantropo e um pé no bizarro, combina senso de humor com pessimismo, crueldade e violência, examina e ridiculariza as dinâmicas e as figuras de poder.
Na trama, Emma Stone interpreta a CEO de uma megacorporação farmacêutica que é sequestrada pelo apicultor Teddy (Jesse Plemons). Ele acredita que ela é uma alienígena disfarçada, vinda do planeta Andromeda para dizimar a vida na Terra. Bugonia reflete sobre o capitalismo e a polarização política e satiriza nossa tendência de nos escorarmos no chamado viés de confirmação. (Foi exibido nos cinemas e ainda não tem previsão de estreia no streaming)
15º) Homem com H (2025)

De Esmir Filho. É uma cinebiografia que foge ao convencional, sendo fiel ao espírito do artista retratado, o cantor Ney Matogrosso, 83 anos, encarnado pelo ator Jesuíta Barbosa.
Despudorado, sensível e arrebatador, Homem com H reafirma que Ney sempre foi um símbolo da luta contra a caretice e da defesa apaixonada de uma liberdade infinita, seja na vida artística, seja na vida pessoal. Mas também mostra como sua trajetória espelhou a do próprio Brasil, oprimido pela ditadura militar e por preconceitos sociais. (Netflix)
14º) A Natureza das Coisas Invisíveis (2025)

De Rafaela Camelo. Glória é uma garota de 10 anos que passa as férias de verão no hospital onde sua mãe trabalha como enfermeira, em Brasília. Lá, ela conhece Sofia, menina que chamou a ambulância por causa do acidente doméstico de sua bisavó, que tem Alzheimer em estado avançado e agora está internada.
Unidas pelo desejo de sair dali, as crianças encontram conforto na companhia uma da outra. Diante da iminência da morte da matriarca, as duas famílias viajam juntas para passar os últimos dias dela em um refúgio verde no interior de Goiás. A Natureza das Coisas Invisíveis defende o afeto, a delicadeza, a reconexão com o telúrico e o valor da espiritualidade. (Foi exibido nos cinemas e ainda não tem previsão de estreia no streaming)
13º) Sing Sing (2023)

De Greg Kwedar. O emocionante drama sobre um grupo de presidiários que faz teatro recebeu três indicações ao Oscar 2025: melhor ator (Colman Domingo), roteiro adaptado e canção original (Like a Bird). Sing Sing merecia ter concorrido em pelo menos mais duas categorias: melhor filme e ator coadjuvante (Clarence Maclin). Talvez também direção de fotografia.
Uma de suas principais locações foi uma penitenciária desativada no Estado de Nova York, a Downstate. Ao contrário do que se imagina, havia muitas janelas, que providenciavam bastante luz natural. Essa característica acrescentou um tom melancólico e até trágico à trama: além dos limites dos muros da prisão e do arame farpado, você pode ver árvores e florestas à distância; você pode ver o mundo lá fora, mas não pode realmente ir e tocá-lo. (Amazon Prime Video)
12º) Uma Bela Vida (2024)

De Costa-Gavras. Pode não parecer, tanto pelo título quanto pela trama, mas Uma Bela Vida é outro filme político do diretor de Z (1969), A Confissão (1970), Estado de Sítio (1972) e Desaparecido: Um Grande Mistério (1982).
A ditadura que Costa-Gavras retrata agora ataca à direita, à esquerda e ao centro e é ainda mais implacável: a morte chega para todos. A denúncia que Costa-Gavras faz agora é: os governos, a classe médica e a sociedade estão preparados para lidar com o envelhecimento em ritmo acelerado da população, o que, naturalmente, aumenta o contingente de pessoas próximas da morte? O que estamos fazendo para tornar essa despedida da vida a mais digna possível, com o mínimo de sofrimento? A guerra que Costa-Gavras examina agora é travada em um âmbito particular. O conflito é do indivíduo contra o inevitável, de planos e sonhos contra medos e certezas. Às vezes, o "inimigo" está nas trincheiras: a pessoa quer morrer, mas a família reluta. (Foi exibido nos cinemas e ainda não tem previsão de estreia no streaming)
11º) F1: O Filme (2025)

De Joseph Kosinski. Protagonizado por Brad Pitt, o filme sobre Fórmula 1 que homenageia Ayrton Senna e tem Lewis Hamilton como produtor retrata um tema mítico nos EUA: a segunda chance.
O diretor de F1: O Filme sabe a hora de acelerar, e não só nas cenas de ação, mas também na troca rápida de diálogos que ilustram ideais e temperamento dos personagens. E também sabe a hora de pisar no freio, para intensificar os momentos de impacto, em vez de anestesiar o espectador. (Apple TV+)
10º) Uma Batalha Após a Outra (2025)

De Paul Thomas Anderson. As duas horas e 40 minutos passam voando, porque o diretor fez uma mistura fascinante de comédia maluca, comentário político e filme de ação, com direito a uma sequência antológica de perseguição automobilística.
A viagem nunca para em Uma Batalha Após a Outra, e pela estrada a gente depara com personagens e cenários de nomes exóticos, como Perfidia Beverly Hills e as montanhas Chupacabra. Sean Penn rouba a cena na pele do capitão e depois coronel Lockjaw, um sujeito ao mesmo tempo ridículo e perigoso, reprimido e agressivo. (HBO Max)
9º) Vermiglio: A Noiva da Montanha (2024)

De Maura Delpero. Em 1944, a chegada de um soldado desertor da Segunda Guerra Mundial transforma a imensa família do professor de uma vila alpina na Itália. Cesare, o docente, exerce um tipo diferente de patriarcado: não é violento nem chega a ser abusivo, mas rotula os próprios filhos e determina seus destinos. Dino, o mais velho, é tratado pelo pai como uma decepção. Ada, a filha do meio, tem um "limite" na vida escolar.
Com olhar atento a cada um dos personagens, Vermiglio acompanha, sem atropelos, os dramas que se desenvolvem ao longo das quatro estações. Não por acaso, o homônimo concerto pra violino de Vivaldi pontua a trilha sonora. (Canal Filmelier+ do Amazon Prime Video)
8º) Oeste Outra Vez (2024)

De Erico Rassi. Filmado na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, é o faroeste dos homens tristes, dos homens patéticos, dos homens que não conseguem falar sobre seus sentimentos.
Na trama de Oeste Outra Vez, Totó (Ângelo Antônio), inconformado pelo fato de a mulher que ama estar agora com outro homem, contrata um velho pistoleiro para tentar matar Durval (Babu Santana). (Telecine)
7º) Misericórdia (2024)

De Alain Guiraudie. Jérémie regressa à cidadezinha natal para o funeral do antigo patrão, um padeiro. Lá, ele decide ficar uns dias hospedado na casa da viúva. Sua presença causa estranheza na comunidade. Aconteceu alguma coisa no passado? Por que o protagonista não vai embora?
Outro enigma a desvendar é sobre o próprio gênero do filme: Misericórdia é um policial? É sobre um romance proibido? É um drama sobre segredos de família? É uma comédia absurda? É uma reflexão sobre culpa e castigo? (Filmicca)
6º) Pecadores (2025)

De Ryan Coogler. Na sua quinta parceria com o ator Michael B. Jordan, o diretor resolveu misturar drama histórico, musical blues e terror com vampiros, sem deixar de lado a ação, a comédia e o romance. Pelo menos uma cena de Pecadores já entrou para a história do cinema.
É um plano-sequência na abertura do clube noturno dos gêmeos Fumaça e Fuligem, uma grande, contagiante e comovente celebração da música como meio de expressão das dores e das alegrias da comunidade negra, a música como veículo de acesso a suas origens e de prospecção por dias melhores, a música como um território de identidade, comunhão e liberdade. (HBO Max)
5º) A Semente do Fruto Sagrado (2024)

De Mohammad Rasoulof. O filme se desenrola no contexto dos protestos no Irã nascidos a partir das mortes de jovens que não usaram (ou usaram de forma considerada incorreta) o hijab, o véu que cobre a cabeça e o pescoço das muçulmanas. O personagem principal de A Semente do Fruto Sagrado, Iman, acaba de ser nomeado juiz de instrução no Tribunal Revolucionário de Teerã. O cargo significa um salário mais alto e um apartamento maior para a família: a esposa devota, a filha universitária e a caçula, uma adolescente.
Mas a promoção também significa romper com seus códigos morais e sua ética profissional: ele é orientado a assinar sentenças de morte sem sequer ler os relatórios dos casos. A agitação política nas ruas de Teerã inevitavelmente se reflete no lar de Iman. (Telecine)
4º) Faça Ela Voltar (2025)

De Danny Philippou e Michael Philippou. Os irmãos gêmeos australianos aprimoram todas as virtudes demonstradas no seu primeiro longa-metragem, Fale Comigo (2022). Estão lá, por exemplo, a atmosfera sinistra e o despudor para a violência gráfica (para a qual a sonoplastia é fundamental). O ritual macabro que vemos na sequência de abertura não é gratuito: deriva de uma dor emocional, é como uma súplica. E outra vez a dupla dá protagonismo a adolescentes solitários.
Em Faça Ela Voltar, dois irmãos, após a morte do pai, são enviados para um lar adotivo, o da excêntrica Laura (Sally Hawkins, digna de indicação ao Oscar), que também acolhe um menino mudo chamado Oliver (Jonah Wren Phillips, assombroso). Eis um filme absolutamente perturbador: prepare-se para se sentir mal. (HBO Max)
3º) O Agente Secreto (2025)

De Kleber Mendonça Filho.
2º) Foi Apenas um Acidente (2025)

De Jafar Panahi.
O filme brasileiro e o filme iraniano correm na mesma raia. Com um epílogo mais poderoso, Foi Apenas um Acidente fica um degrau acima de O Agente Secreto.
Os dois filmes podem ser definidos como um thriller político. Os dois retratam a vida sob um governo autoritário, sempre impregnada pelo medo. Os dois mostram como a memória e a verdade podem ser turvas ou até manipuladas. Os dois abordam a dificuldade de lidar com um trauma que é tanto pessoal quanto coletivo. Os dois têm personagens estranhos uns aos outros que se reúnem por uma causa comum. Os dois pontuam a tensão e a violência com momentos cômicos. Os dois começam na estrada, acompanhando a viagem de um carro, e os dois terminam com uma cena que convida a refletir sobre seu significado. (Ambos estão em cartaz no GNC Moinhos)
1º) Sorry, Baby (2025)

De Eva Victor. Este filmaço sobre trauma não revela logo de cara que aborda um tema muito sensível, embora equilibrando a contundência com a delicadeza, o otimismo e até o humor. Ao fim da jornada, em vez de estar arrasado o espectador pode ficar com o coração quentinho.
Além de dirigir, Eva Victor também assina o roteiro e interpreta a personagem principal, Agnes, 20 e tantos anos, uma professora de Literatura em uma universidade da zona rural da Nova Inglaterra, nos EUA. Quando o filme começa, ela está recebendo a visita da melhor amiga, Lydie (Naomi Ackie), que está grávida. As duas jantam com ex-colegas da faculdade. Esse reencontro deixa entrever que há coisas do passado da protagonista não resolvidas. Então, Sorry, Baby recua no tempo no segundo capítulo, chamado de O Ano da Coisa Ruim. É o ano em que Agnes, ainda uma brilhante estudante universitária, foi estuprada pelo professor que mais admirava.

Sorry, Baby evita a pornografia do trauma: seu foco está como as vítimas processam a violência sofrida e seu impacto emocional contínuo; e como a amizade e a empatia podem salvar vidas. Há um contraste constante que é um trunfo do filme: situações de drama, angústia e depressão coexistem com momentos dignos de uma comédia. "Qualquer pessoa que tenha passado por algo parecido sabe que o sarcasmo entra em jogo", justificou a diretora. "É algo muito humano continuar rindo."
Vale destacar também a estrutura não linear da narrativa. Ao ir e voltar no tempo, Sorry, Baby reflete como pode se sentir uma pessoa traumatizada: o passado está sempre à espreita, pronto para reabrir cicatrizes, e não raro essa pessoa gira em círculos, sem conseguir andar para frente. (Em cartaz na Sala Eduardo Hirtz, com sessões nos dias 2, 3, 4, 6 e 7 de janeiro, às 15h)
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