
Vem aí um show imperdível para quem adorava (ou adora) dançar nas festas das décadas de 1980 e 1990. No dia 21 de janeiro, sobe ao palco do Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, Andy Bell, a voz do vibrante duo britânico Erasure, um dos nomes definitivos na história do pop eletrônico — e que, em 2025, completou 40 anos de carreira.
A apresentação está marcada para as 21h, com abertura dos portões às 19h30min. A classificação indicativa é 16 anos, e os ingressos custam entre R$ 330 e R$ 590 no Lote 1 e entre R$ 390 e R$ 690 no Lote 2, mas com as opções da Inteira Solidária (que dá cerca de 50% de desconto mediante a doação de 1 kg de alimento não perecível) e da meia-entrada para idosos, jovens pertencentes a famílias de baixa renda, pessoas com deficiência, doadores regulares de sangue, sócios do Clube do Assinante e clientes Banrisul. Os bilhetes estão à venda pelo site sympla.com.br/araujovianna, na bilheteria do Araújo Vianna e na loja Planeta Surf do shopping Bourbon Wallig.
Será a terceira vez de Andy Bell, 61 anos, em Porto Alegre. A estreia foi em 1990, no Gigantinho, e depois ele voltou em 2011, para cantar no Pepsi On Stage. Em ambas, estava acompanhado pelo tecladista e compositor Vince Clarke, que hoje tem 65 anos e com quem Bell formou o Erasure em Londres, em 1985. Antes, Clarke havia ajudado a criar a banda Depeche Mode e feito dupla com a cantora Alison Moyet no Yazoo. Pilotando sintetizadores Roland, foi um dos caras que moldaram o som dançante dos anos 1980.

Bell, por sua vez, foi um dos primeiros artistas da cena musical que assumiram ser gay. Vide os versos da canção Hideaway, do disco Circus (1987): "Um dia o menino decidiu / Contar a eles como se sentia por dentro / Ele não pôde mais esconder / Sua mãe desmoronou e chorou". Ou os de A Little Respect (1988): "Que religião ou razão / Poderia fazer um homem abandonar seu amor?".
Já Oh L'Amour (1986), embora não trate explicitamente de um relacionamento homossexual, acabou se tornando um hino para a comunidade LGBTQ+, por expressar experiências de desilusão amorosa — vale contextualizar: naqueles tempos, gays ainda enfrentavam muito estigma, sobretudo por causa da aids, restrições e isolamento.
A propósito, em 2004 Andy Bell revelou que, em 1998, havia sido diagnosticado com o vírus HIV. Em 2011, antes do show do Erasure em Porto Alegre, ele falou em entrevista por telefone para mim sobre seu pioneirismo ao "sair do armário":
— Houve algumas reações homofóbicas em alguns shows. Mas tenho muito orgulho porque sempre fomos muito abertos e honestos sobre o que sentimos. Em meados dos anos 1980, no Reino Unido, havia uma banda chamada The Communards, com (o vocalista) Jimmy Somerville. Ele era como um herói para mim, porque sempre expôs o que ele era. Tivemos sorte porque havia outras pessoas apoiando isso, como o Boy George e o Frankie Goes to Hollywood. Foi como uma onda, mas ao mesmo tempo foi uma luta. Acho que não tivemos a exposição massiva que muitos outros tiveram. Por outro lado, isso nos fez mais fortes.
Mas o Erasure conquistou fãs de todas as bandeiras, como pode comprovar qualquer festa oitentista tipo a Balonê, que já ocorre há mais de 20 anos no Bar Ocidente, em Porto Alegre. Contribuíram para a popularidade da dupla britânica a magia de Vince Clarke ao conjurar pegajosos riffs de teclado e o casamento perfeito das suas melodias, sejam as radiantes ou as mais melancólicas, com a voz de Andy Bell, uma das mais bonitas do pop. Bell carrega de emoção cada verso e brilha tanto nos agudos quanto nos graves — às vezes na mesma canção, como em You Surround Me (1989).
No auge, Andy Bell não poupava energia em cima do palco. Seu pique e sua dança tresloucada eram realçados no contraste com a simplicidade de produção e cenário e a discrição de Vince Clarke. Na mesma entrevista concedida em 2011, o vocalista contou:
— Outro dia, eu caí do palco. Fiquei muito empolgado, e até minha calça se rasgou. Obviamente, estou mais confiante do que há 20 anos. Minha voz está mais forte, sou mais eu mesmo no palco. Claro que ainda sou um pouco dramático, mas acho que tenho menos a provar, não preciso parecer uma diva no palco.

Como estarão a animação e o requebrado de Andy Bell no Araújo Vianna? Qual deve ser o repertório do show? Será que teremos uma sequência matadora de sucessos e um final apoteótico?
Bem, o show está sendo chamado de Erasure com Andy Bell, mas faz parte da turnê na qual o cantor divulga seu terceiro disco solo, Ten Crowns, lançado em maio de 2025.
No site Rock and Roll Globe, o crítico estadunidense Jim Sullivan, autor da trilogia de livros Backstage & Beyond, comentou a apresentação que Bell fez em Boston no dia 1º de novembro. O cantor subiu ao palco do Wilbur Theater com o DJ, tecladista e produtor Dave Audé, o guitarrista Jerry Fuentes, a baterista Sarah Tomek e a vocalista Chelsea King-Blank.
"Bell, que passou por cirurgia de substituição de ambos os quadris, talvez não estivesse tão ágil quanto antes, mas ainda demonstrava bastante energia em seus passos de dança", escreveu Sullivan. Por outro lado, o crítico sentiu uma "monotonia persistente na batida e nos sintetizadores", "uma notável falta de conflito ou tensão" na parte musical das canções.
O show começou com Breaking Through the Interstellar, uma das faixas de Ten Crowns, e foi um momento "majestoso", com a "voz poderosa" de Bell conduzindo a alegria: "Seremos estrelas para sempre!". Em outra canção do disco solo, Don't Cha Know, Sullivan afirmou que "a euforia ganha um toque de amargor" na letra: "O destino me chama / Você vai me pegar quando eu estiver caindo? / Porque estou estragando tudo aqui embaixo / Agora sou um sonhador sem esperança / Um preguiçoso inútil / E tudo é tão comum".
Como era de se esperar, a plateia reagiu com entusiasmo moderado às novas canções de Andy Bell. O público estava lá para ouvir a música do Erasure.
A julgar pelo set list de Boston e de Cleveland, onde Andy Bell se apresentou em 4 de novembro, teremos seis faixas de Ten Crowns, incluindo Heart's a Liar, na qual Chelsea King-Blank faz as vezes da veterana Debbie Harry, que gravou um dueto com Bell no disco; uma versão cover de Xanadu (1980), sucesso da Electric Light Orchestra (ELO) interpretada por Olivia Newton-John; e 11 hits do Erasure.
Se a seleção e a ordem forem mantidas, ouviremos e dançaremos Blue Savannah (1989), Sometimes (1987), Drama! (1989), Chains of Love (1988), Love to Hate You (1991), Breathe (2005), Always (1994), Victim of Love (1987), Chorus (1991), Oh L'Amour (1986) e, claro, A Little Respect (1988). Trocaria Breathe por Hey Now (Think I Got a Feeling), de 2022, Rain ou Reach Out, ambas do disco Cowboy (1997). Queria muito Star (1989) e sinto falta de Stop! (1989), cujos versos traduziriam tanto o clima nostálgico do show quanto o o tempão que passa entre cada apresentação em Porto Alegre ("Estaremos juntos de novo / Eu esperei isso por muito tempo"). Ainda assim, essa lista é capaz de fazer a gente dançar como se o mundo fosse acabar no dia seguinte. Pelo menos na intenção, já que a idade de alguns fãs pode jogar contra, vamos rachar o assoalho do Araújo Vianna!
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