
O filme mais visto na Netflix nos últimos dias pode reavivar um trauma recente da população gaúcha: a enchente de maio de 2024, que provocou perdas humanas, sociais e econômicas significativas em 92,4% dos municípios do RS. É que, como diz o título — por si só um alerta de gatilho —, A Grande Inundação (Daehongsu, 2025) começa com um gigantesco desastre ambiental: após um asteroide atingir a Terra e derreter o gelo da Antártica, a água passou a engolir cidades inteiras.
Ninguém está protegido. Conforme descobrem a personagem principal, a jovem mãe An-na (interpretada por Kim Da-mi), e seu filho de seis anos, Ja-In (papel de Kwon Eun-sung), até arranha-céus de Seul podem ser inundados pelos tsunamis formados por esse evento cataclísmico.
Escrito e dirigido pelo sul-coreano Byung-woo Kim, cineasta de Zona Desmilitarizada (2018), A Grande Inundação insinua ser mais uma narrativa de sobrevivência ao apocalipse, um subgênero cinematográfico que ganha força no atual cenário global. Por um lado, as mudanças climáticas agravaram as tragédias ambientais. Por outro, existem guerras que já duram anos (Rússia versus Ucrânia, Israel versus Hamas), a iminência de uma intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela e a constante ameaça nuclear de países como a Coreia do Norte.
Mas logo o filme sul-coreano acrescenta outro tema absolutamente contemporâneo e preocupante: a inteligência artificial (IA).

Atenção: HAVERÁ SPOILERS a partir daqui, incluindo um tanto de FINAL EXPLICADO.
An-na não é uma simples mãe. Trata-se de uma cientista que trabalha para o Darwin Center, onde desenvolve um projeto de IA crucial para o futuro da humanidade, mas não necessariamente como a conhecemos.
E Ja-In não é um simples menino. Trata-se de um ser gerado por inteligência artificial no laboratório do Darwin Center. A tecnologia é capaz de imprimir corpos humanos, mas não consegue reproduzir emoções humanas.

É aí que entra An-na: ela é a especialista no chamado Gerador de Emoções. Educou seu "filho" como se fosse uma criança real, para que Ja-In desenvolvesse reações e absorvesse sentimentos por meio da convivência, do afeto e da experiência cotidiana.
Dada a importância da dupla, um agente especial encarnado por Park Hae-soo — indicado ao Emmy de ator coadjuvante pela primeira temporada de Round 6 (2021-2025) — é enviado para resgatar An-na e Ja-In e conduzi-los ao topo do edifício, onde um helicóptero vai levá-los para um refúgio. Mas An-na é importante de corpo inteiro; de Ja-In, o que interessa são apenas suas memórias.
Vale repetir o ALERTA DE SPOILERS.

Dá-se uma brutal separação entre mãe e filho, e aí A Grande Inundação promove outra virada na trama.
A bordo de uma nave espacial, An-na é gravemente ferida quando o veículo é atingido por meteoritos. Antes de morrer, ela pede para que sua consciência seja a cobaia de um novo experimento, o Projeto Newman-78.
A protagonista entende que o Darwin Center foi bem-sucedido na criação de um filho sintético; falta desenvolver uma mãe feita por IA que tenha características básicas, como empatia, capacidade de sacrifício e amor incondicional. Sem essas virtudes, os "novos humanos" seriam apenas robôs insensíveis e incapazes de firmar as conexões emocionais que foram fundamentais para a evolução e a sobrevivência da humanidade.
An-na, então, passa a viver uma espécie de Dia da Marmota: como o personagem do ator Bill Murray na clássica comédia Feitiço do Tempo (1993), a protagonista de A Grande Inundação vai acordar repetidamente em uma simulação digital baseada nas suas lembranças do que ocorreu durante a enchente em Seul.
Sua missão é implícita: não abandonar Ja-In. Mas haverá muitos obstáculos, que incluem os pedidos de socorro de uma menina presa no elevador e as ações de saqueadores no prédio.
A cada ciclo, a versão IA de An-na vai se aprimorando emocionalmente. Ajuda gente desconhecida que antes havia deixado para trás, passa a valorizar mais o vínculo humano, aprende que nem tudo na vida real é tão racional.
O processo não é nada fácil: os números estampados na camiseta da personagem revelam que foram necessárias mais de 21 mil repetições até que a alma de An-na estivesse treinada e apta para, quem sabe, garantir o futuro da vida na Terra.
Como as cenas finais de A Grande Inundação mostram, partes da África continuam verdes, sugerindo que o planeta está se recuperando e pronto para ser repovoado. Casulos que caem do céu são naves trazendo os novos seres humanos sintéticos, agora devidamente equipados com emoções, impulsos e comportamento altruísta que os habilitam a reconstruir a civilização.
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