
Finalmente apareceu no streaming um dos filmes mais inacreditáveis que eu já assisti: Butt Boy (2019), de Tyler Cornack. O título está disponível para aluguel digital no Apple TV.
Lançado no Fantastic Fest, festival de Austin, no Texas, dedicado aos gêneros da ação, da fantasia, da ficção científica e do terror, Butt Boy não arrecadou um centavo nos cinemas — sua estreia no circuito comercial foi cancelada por causa da pandemia de covid-19.
Também não ganhou nenhum prêmio na sua trajetória, mas conquistou o coração do veterano John Waters, cineasta celebrizado por títulos transgressivos, como Pink Flamingos (1972), Hairspray: E Éramos Todos Jovens (1988), Cry-Baby (1990) e Cecil Bem Demente (2000). Convidado pelo jornal The New York Times a votar na eleição dos 100 melhores filmes do século 21, Waters incluiu Butt Boy na lista dos seus 10 preferidos.
Eu vi Butt Boy na edição de 2020 do Fantaspoa, o Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, que foi totalmente online por causa da pandemia. Aliás, o Fantaspoa é famoso por proporcionar ao público filmes do tipo um em um milhão, como Rabo de Cavalo (2021), dos indianos Manoj Leonel Jason e Shyam Sunder, Mesa Maldita (2022), do espanhol Caye Casas, e Sanduíche Quente (2024), do uruguaio Manuel Facal.
Os diretores e roteiristas destacados pelo festival fogem muito do convencional, do formulaico, da embalagem pronta para consumo universal. Portanto, é importante dizer que Butt Boy, definitivamente, não é para todos os gostos. Mas que coisa boa foi ter sido exposto a um filme assim.

Dirigido e coescrito por Tyler Cornack, o filme tem como personagem principal um sujeito com esposa, filho e trabalho, Chip Gutchel (interpretado pelo próprio realizador). Esse cara descobre prazer e alívio para suas angústias ao engolir, pelo ânus, coisas como um controle remoto ou um cachorrinho. Sim, isso mesmo, até um cachorrinho. E quando falo em engolir, é isso mesmo também: essas coisas somem.
Mais não conto para não estragar a surpresa. Só digo que, apesar da premissa escatológica, você vai encontrar bastante sensibilidade neste estudo sobre compulsão e solidão, e que também mistura um pouco de comédia com um pouco de policial a partir da entrada em cena de um detetive, Russell Fox (Tyler Rice), que passa a frequentar as mesmas reuniões de A.A. em que Chip escamoteia seu vício.
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