
Adicionado ao menu da Netflix na sexta-feira (5), It: Capítulo Dois (It: Chapter Two, 2019) rapidamente se tornou um dos títulos mais vistos na plataforma — na noite deste domingo (7), era o quarto colocado no top 10 de filmes. Além do costumeiro apelo das adaptações de obras do escritor Stephen King, certamente há o interesse do público que vem assistindo à série It: Bem-vindo a Derry (2025), produção da HBO Max sobre as origens do sinistro palhaço Pennywise.
Ou seja: parece o primeiro caso de sinergia desde o anúncio, também na sexta, da compra da Warner Bros. Discovery, que é dona do estúdio que produziu os filmes It e é dona da HBO Max, pela Netflix.
Como o título explicita, It: Capítulo Dois é a segunda parte de It: A Coisa (2017), o filme de terror com a maior bilheteria da história — US$ 702,7 milhões. Ambientado na fictícia cidadezinha de Derry, no Maine, Estados Unidos, esse primeiro longa-metragem se passa em 1989. Os personagens criados por Stephen King e retratados pelo diretor Andy Muschietti formam um elenco de arquétipos marginalizados e vítimas de bullying — não à toa, batizam a si próprios de Losers' Club, o Clube dos Otários.
Temos Bill, o menino gago; Mike, o órfão negro; Bev, a garota abusada pelo pai; Stanley, o judeu; Eddie, o doente (ou assim sua mãe o faz acreditar); Ben, o gordinho; Richie, que esconde sob a fachada do humor agressivo suas inseguranças.

Todos vivem em um mundo praticamente sem adultos. Os raros que aparecem representam ameaças. Ou seja, a gurizada está por conta própria. Quando o irmão caçula de Bill, Georgie, é raptado por Pennywise (interpretado por Bill Skarsgård), eles precisam se unir para enfrentar o palhaço macabro — que toma formas diferentes e emprega discursos distintos de acordo com os medos de cada um. A turma, ao fim, consegue derrotar a criatura e firma um pacto: se Pennywise reaparecer, eles também devem se reunir.
Em It: Capítulo Dois, 27 anos se passaram, e Pennywise está de volta, pois o contexto é propício para a fabricação do medo que serve de alimento para o palhaço de voz assustadoramente oscilante (Skarsgård vai do agudo ao grave, do suave ao ameaçador na mesma frase). A violenta sequência de abertura mostra um ataque homofóbico em um parque de diversões — cena que já existia no livro de King, inspirado em um caso real de 1984, no mesmo Estado do Maine, e que continua tristemente atual. Mike (interpretado na vida adulta por Isaiah Mustafa), o único dos Otários a permanecer em Derry, onde trabalha como um bibliotecário — é o guardião da memória —, entende que é hora de convocar os velhos e agora distantes amigos.

Em uma narrativa que alterna presente e passado para relembrar e revelar, vemos como eles cresceram, como lidaram com seus traumas, como aquele setembro de 1989 influenciou suas trajetórias. Todos são aparentemente bem-sucedidos no campo profissional, mas pagam um alto preço emocional.
Bev (Jessica Chastain), por exemplo, tem um marido abusivo e agressivo — podemos dizer que casou com seu pai, assim como Eddie (James Ransone) casou com sua mãe: sua esposa, obesa e superprotetora, é interpretada pela mesma atriz que desempenha o papel materno, Molly Atkinson. Richie (Bill Hader) tornou-se comediante — fez do seu mecanismo de defesa um ofício remunerado. Bill (James McAvoy) virou um escritor de horror best-seller incapaz de escrever finais felizes, impossíveis diante da culpa que carrega pelo desaparecimento de Georgie.
Cada um reage de uma maneira ao chamado de Mike. Para Bev, é uma rota de fuga. Para Ben (Jay Ryan), a chance de reencontrar Bev. Eddie e Richie, a dupla responsável pelo alívio cômico no filme, ficam nervosos: o primeiro, hoje um especialista em gestão de riscos, bate o carro, e o segundo vomita antes de um show e esquece suas piadas. Para Stanley (Andy Bean), o telefonema é ainda mais abalador. O quanto somos comprometidos com os amigos e com os juramentos que fazemos?
Em meio à pirotecnia e à excessiva duração (duas horas e 49 minutos), em meio a aranhas gigantes de computação gráfica e estátuas que ganham vida, em meio a psicopatas fugidos do hospício que firmam parceria com zumbis, em meio a portais para outras dimensões e a lendas do misticismo indígena, em meio a jorros de sangue e banhos de gosma escura, em meio a aparições do próprio Stephen King e de um personagem icônico do escritor, em meio a tudo isso há elementos que tornam It: Capítulo Dois uma obra, a um só tempo, contemporânea e perene.
Pennywise trabalha como alguns líderes políticos da atualidade (o próprio Andy Muschietti o comparou a Donald Trump, então no seu primeiro mandato como presidente dos EUA). Faz intrigas e instila o revanchismo. Usa a tática de dividir para conquistar. Individualmente, os Otários ficam vulneráveis ao confrontar seus fantasmas. Estão mais propensos a sentirem medo.
Com medo, acreditamos em monstros, em mentiras, em fake news — a promessa de flutuar para longe dos problemas, feita perversamente pelo palhaço, mostra-se mais tentadora. O antídoto é a união. É o compartilhamento de experiências e de forças. É colocar diferenças de lado em nome de um bem comum. Bill, Bev e companhia precisam agir como um grupo — uma sociedade.
Na outra ponta, temos a água. Bastante frequente ao longo de todo o filme, desde o rio à beira do qual Pennywise ressurge, a água funciona como uma potente metáfora visual da memória.
A água é fluida, assim como a memória não é estanque. Ela pode ser turva, nos impedindo de ver com clareza o mal ou o bem que nos fizeram quando éramos crianças e adolescentes. Ela pode vir em ondas, nos revigorando, ou estar nos subterrâneos, quase inacessíveis. Ela pode trazer à tona "os sussurros que queremos silenciar e os segredos que queremos esconder", como cita Mike. Ela pode nos afogar, como um trauma do qual nunca nos libertamos, ou pode nos purificar, como um momento em que passado e presente se fundem, na evocação de doces recordações e na produção de novas lembranças positivas; aqueles momentos em que nos olhamos no espelho e vemos quem fomos e quem somos, uma imagem que nunca reflete apenas uma pessoa, mas todas aquelas que estiveram e estão lá para nos estender a mão.
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