
Este texto começa com um alerta duplo, de spoiler e de gatilho, porque Sorry, Baby (2025) não revela logo de cara que aborda um tema muito sensível, embora equilibrando a contundência com delicadeza, otimismo e até humor — ao fim da jornada, em vez de estar arrasado o espectador pode ficar com o coração quentinho.
E este texto começa com um lamento duplo: lançado no Brasil na quinta-feira (11), o filmaço sobre trauma escrito, dirigido e protagonizado por Eva Victor só está em cartaz em um endereço de Porto Alegre, a Cinemateca Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana, e com apenas uma sessão por dia. Como não haverá exibição nesta terça-feira (16), o negócio é garantir lugar na de quarta (17), às 19h15min, ou se programar para ir a partir de quinta (18), quando o horário passa a ser o das 15h, na Sala Eduardo Hirtz.
Sorry, Baby é o primeiro longa-metragem assinado por Eva Victor, estadunidense de 31 anos nascida em Paris que se identifica como não binária. Ela interpretou a personagem Rian no seriado Billions (2020-2023) e realizou, para o canal Comedy Central, a série em quatro episódios Eva vs. Anxiety (2019-2020).
O filme fez sua estreia mundial no Festival de Sundance, nos EUA, onde ganhou o prêmio de melhor roteiro e foi adquirido pela produtora e distribuidora A24, a mesma dos vencedores do Oscar Moonlight (2016) e Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022). A National Board of Review, uma associação de críticos estadunidenses fundada em 1909, elegeu Victor como a melhor diretora estreante de 2025. No Globo de Ouro, ela concorre ao troféu de melhor atriz em filme de drama. Sorry, Baby não vem aparecendo nas apostas para o Oscar, mas entrou nas listas dos melhores filmes do ano da rede BBC — como segundo colocado, abaixo apenas de Hamnet, de Chloé Zhao — e da revista Sight and Sound (em sétimo), ambas do Reino Unido.
Eva Victor inspirou-se nas suas próprias experiências para escrever Sorry, Baby, que é dividido em cinco capítulos. Sua personagem, Agnes, de 20 e tantos anos, é uma professora de Literatura em uma universidade da zona rural da Nova Inglaterra, nos EUA. Quando o filme começa, ela está recebendo a visita de sua melhor amiga, Lydie (interpretada por Naomi Ackie, de Pisque Duas Vezes), que está grávida. As duas jantam com ex-colegas da faculdade. Esse reencontro deixa entrever que há coisas do passado da protagonista não resolvidas: é como se ela estivesse presa na areia movediça, enquanto a vida dos outros ao seu redor continua.

Então, Sorry, Baby recua no tempo no segundo capítulo, chamado The Year with the Bad Thing (O Ano da Coisa Ruim). Como o título entrega, voltamos ao ano em que Agnes, ainda uma estudante universitária que morava com Lydie, viveu um episódio devastador. (Reforço o alerta de spoiler e de gatilho.)
Aluna brilhante, Agnes foi estuprada pelo professor que mais admirava, Preston Decker (papel de Louis Cancelmi). Um típico caso em que o docente usa de sua superioridade hierárquica e de sua condição de figura adorada para coagir em nome de seu desejo.
A violência sexual não é mostrada: ocorre a portas fechadas, na casa de Decker, filmada do lado de fora, com câmera estática. Pequenos cortes marcam a passagem do tempo: a luz do dia se encolhe, a noite engole a tarde. Uma janela iluminada nos força a imaginar o que está acontecendo naquele quarto.
A diretora evita a pornografia do trauma, para poupar espectadoras que já vivenciaram um caso de abuso, mas convém avisar que é bastante explícito o monólogo de Agnes quando ela conta para Lydie sobre o estupro. Essa cena entre as duas personagens ilustra duas questões centrais em Sorry, Baby: como as vítimas processam a violência sofrida e seu impacto emocional contínuo; e como a amizade e a empatia podem salvar vidas.

Lydie ataca ferozmente a falta de sensibilidade do médico que examina Agnes e, a certa altura, manifesta preocupação com a possibilidade de a amiga se matar. Em outro momento, um dono de lanchonete encarnado por John Carroll Lynch oferece à protagonista alívio durante um ataque de pânico — além de um sanduíche gostoso. Aliás, esse é o título de um dos capítulos na tradução brasileira, O Ano do Sanduíche Gostoso.
Há um contraste constante em Sorry, Baby que se torna um trunfo do filme: situações de drama, angústia e depressão coexistem com momentos dignos de uma comédia. Em entrevista à jornalista Alexandra English, da Elle australiana, Eva Victor comentou:
— Já me perguntaram por que fiz um filme sobre isso com humor. Bem, qualquer pessoa que tenha passado por algo parecido sabe que o sarcasmo entra em jogo. É uma forma de seguir adiante, de apontar o absurdo do que aconteceu. Acho que é algo muito humano continuar rindo.
Em outra entrevista, para o site Deadline, dos EUA, Eva Victor falou sobre a estrutura não linear da narrativa. Ao ir e voltar no tempo, Sorry, Baby reflete como pode se sentir uma pessoa traumatizada: o passado está sempre à espreita, pronto para reabrir cicatrizes, e não raro ela gira em círculos, sem conseguir andar para frente.
— Grande parte da vida, após um trauma, envolve o processo de cura, que é algo para a vida toda — disse a cineasta e atriz. — Não existe um destino final. Existem marcos, mas não é como se você chegasse a determinado ponto e, em seguida, esquecesse o que foi feito com você.
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