
Estreou na quinta-feira (4) nos cinemas de Porto Alegre um dos principais candidatos ao Oscar de melhor filme internacional — portanto, um dos grandes rivais na campanha de O Agente Secreto (2025) pelo bicampeonato do Brasil na premiação da Academia de Hollywood. Aliás, Foi Apenas um Acidente (Yek Tasadef Sadeh, 2025), do diretor e roteirista iraniano Jafar Panahi, que tem sessões no Cinesystem Bourbon Country, no GNC Iguatemi, no GNC Moinhos e na Sala Paulo Amorim, e o representante brasileiro correm na mesma raia.
Ambos podem ser definidos como um thriller político; ambos retratam a vida sob um governo autoritário, sempre impregnada pelo medo; ambos mostram como a memória e a verdade podem ser turvas ou até manipuladas; ambos abordam a dificuldade de lidar com um trauma que é tanto pessoal quanto coletivo; ambos têm personagens estranhos uns aos outros que se reúnem por uma causa comum; ambos pontuam a tensão e a violência com momentos cômicos; ambos terminam com um convite para o espectador refletir sobre o significado da última cena. Curiosamente, ambos começam na estrada, acompanhando a viagem de um carro. E ambos foram premiados no Festival de Cannes: Foi Apenas um Acidente levou a Palma de Ouro, e O Agente Secreto ganhou os troféus de melhor direção (Kleber Mendonça Filho), melhor ator (Wagner Moura) e melhor filme pela Federação Internacional dos Críticos de Cinema (Fipresci).
Os dois filmes vão ser rivais em duas categorias do Globo de Ouro, que anunciou nesta segunda-feira (8) os indicados à premiação de 11 de janeiro. Foi Apenas um Acidente e O Agente Secreto competem pelos troféus de melhor filme/drama e melhor filme internacional. Wagner Moura concorre como melhor ator em drama, e Jafar Panahi disputa os prêmios de melhor direção e melhor roteiro.
Foi Apenas um Acidente já arrebatou três categorias no Gotham Awards, que abre a temporada de premiações. No dia 1º de dezembro, recebeu os troféus de melhor filme internacional, melhor direção e melhor roteiro. Na quarta-feira (3), a National Board of Review, associação de críticos estadunidenses fundada em 1909, elegeu o título de Panahi como o melhor longa estrangeiro. Em compensação, na votação do New York Film Critics Circle Awards (NYFCC) deu O Agente Secreto, com Wagner Moura laureado como ator. O iraniano foi escolhido o melhor diretor do ano. E os críticos de Los Angeles também preferiram o filme brasileiro.
Diretor já foi preso duas vezes no Irã

Ao vencer a Palma de Ouro em maio, Jafar Panahi, hoje com 65 anos, se tornou um dos raríssimos cineastas que conquistaram o prêmio máximo nos três principais festivais do mundo. O iraniano já tinha recebido um Urso de Ouro em Berlim, por Taxi Teerã (2015), e um Leão de Ouro em Veneza, por O Círculo (2000). Seu currículo inclui outras três vitórias em Cannes: o Caméra d'Or, de diretor estreante, por O Balão Branco (1995), o Prêmio do Júri na mostra Um Certo Olhar, por Ouro Carmim (2003), e o de melhor roteiro, por 3 Faces (2018). Em Berlim, também levou o Urso de Prata por Fora do Jogo (2006) e o troféu de roteiro na Berlinale, por Cortinas Fechadas (2013); em Veneza, o Prêmio Especial do Júri, por Sem Ursos (2022).
No Oscar, Foi Apenas um Acidente representa a França, a exemplo do que aconteceu com outro filme do Irã, A Semente do Fruto Sagrado (2024), de Mohammad Rasoulof, que competiu pela Alemanha na disputa que consagrou Ainda Estou Aqui (2024). A Academia Francesa fez essa escolha amparada em questões artísticas, burocráticas e políticas.
Além de ser um filmaço e de ter vencido Cannes, o que dá muita visibilidade junto aos eleitores do Oscar — vide os casos recentes de Parasita (2019), Triângulo da Tristeza (2022), Anatomia de uma Queda (2023) e Anora (2024) —, Foi Apenas um Acidente é majoritariamente financiado pela França, onde teve realizada toda sua pós-produção. E os franceses querem se mostrar acolhedores para cineastas impedidos de trabalhar em seus próprios países: Jafar Panahi é um notório dissidente do regime teocrático iraniano. Por isso, jamais um título seu havia sido inscrito na premiação da Academia de Hollywood.
Panahi foi detido pela polícia em 2003 e em 2009 e preso em 2010 e em 2022. Na primeira prisão, ocorrida no contexto da controversa reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad em 2009, foi condenado por "reunião e conluio com a intenção de cometer crimes contra a segurança nacional do país e propaganda contra a República Islâmica". Ele chegou a ser proibido, durante 20 anos, de escrever ou dirigir filmes, dar entrevistas ou deixar o Irã. Acabou progredindo para prisão domiciliar em 2011.
No dia 11 de julho de 2022, Panahi foi preso por ir à promotoria de Teerã para se informar sobre a situação dos cineastas Mohammad Rasoulof e Mostafa Aleahmad. Em 1º de fevereiro de 2023, o diretor começou uma greve de fome que acabou provocando sua libertação, 48 horas depois.
Na última segunda-feira (1º), o advogado de Jafar Panahi, Mostafa Nili, informou à imprensa que o Irã havia condenado o diretor mais uma vez, agora a um ano de prisão, por "atividades de propaganda contra a nação".

Os conflitos entre o diretor e o governo começaram há 25 anos, com O Círculo, obra que descumpriu os limites da censura ao falar sobre tabus: mulheres encarceradas, desigualdade social, prostituição. Em Ouro Carmim, um entregador de pizza que testemunha a corrupção e a disparidade econômica em sua cidade é levado ao crime. Em Fora de Jogo, Panahi mostrou a absurda situação de uma jovem que adora futebol mas não pode entrar num estádio, vetado ao público feminino. Em Isto Não É um Filme (2011), ele, trancafiado no seu apartamento, fez uma amarga reflexão sobre a política iraniana.

Em Taxi Teerã, rodado aos moldes de Dez (2002), do seu mestre Abbas Kiarostami (1940-2016), o cineasta instalou pequenas câmeras em um táxi no qual ele mesmo foi o motorista para registrar conversas com os passageiros enquanto o carro percorria a capital do Irã. Os bate-papos são sobre temas banais, mas, como escreveu o crítico Daniel Feix em Zero Hora, "dizem muito sobre as particularidades de uma sociedade que censura seus artistas e que, revelam algumas sequências, mantém apego a certas tradições e uma assustadora naturalidade na abordagem de assuntos espinhosos como a pena de morte, inclusive como punição para os crimes mais comezinhos".
Qual é a trama de "Foi Apenas um Acidente"?

Foi Apenas um Acidente foi filmado clandestinamente, como Jafar Panahi vem fazendo desde Isto Não É um Filme. Aliás, em mais um ato de oposição do diretor, as atrizes do filme nem sempre usam o hijab, o véu que é obrigatório para as mulheres no Irã.
Panahi armou um esquema de guerrilha: filmou com uma equipe enxuta e ágil, para evitar fiscalização e policiais, e fazia backups digitais constantemente, para o caso de ser preso de novo.
Para escrever o roteiro, o cineasta se inspirou na experiência de passar quase sete meses na cadeia, quando era submetido a interrogatórios constantes, e nos relatos de outros presos. "Se alguém tem o direito de fazer uma fantasia de vingança, esse alguém é Jafar Panahi", disse a crítica Janice Page no Washington Post. "No entanto, este filme não é isso. Panahi não dirige filmes que fazem declarações; ele faz filmes que questionam, que são concebidos para instigar a reflexão e o debate."
De fato, Foi Apenas um Acidente é um filme que indaga: toda ferida pode ser curada? A vingança resolve? Quais são os nossos limites morais?
Essas perguntas são entabuladas de modo direto em Foi Apenas um Acidente, um filme formalmente mais clássico do que os anteriores de Panahi, nos quais o próprio diretor era personagem, misturando vivência e invenção e operando "um movimento pendular entre o ficcional e o não ficcional que testa os limites do cinema", como escreveu o jornalista Pedro Garcia, de Zero Hora, em texto sobre Sem Ursos.

Tudo começa na noite em que um homem (papel de Ebrahim Azizi) está dirigindo de volta para casa com sua esposa (Afssaneh Najmabadi), grávida, e sua filha pequena (Delmaz Najafi). O clima é alegre, mas um comentário da menina acende o alerta no espectador: "Ninguém nos visita". Seu pai deve ser um sujeito com algo a esconder, com uma vida oculta.
De repente, ouve-se um barulho naquela escuridão. Fortuitamente, o carro atropelou um animal, provavelmente um cachorro. A guria fica triste, a mãe reclama de Deus e da falta de iluminação pública, mas minimiza o episódio: "Foi apenas um acidente".
O problema é que, por causa do acidente, logo adiante o carro para de funcionar. Um motoqueiro oferece ajuda ao motorista, que vai parar na oficina de Vahid (interpretado por Vahid Mobasseri), o protagonista da trama. Seus olhos jamais se cruzam, mas Vahid parece ter reconhecido o sujeito pela voz. Para disfarçar a sua e evitar que o homem possa identificá-la, coloca o mindinho na boca ao falar com ele, de longe.
A confirmação vem pelo rangido da perna protética: o pai de família é alguém que fez muito mal a Vahid. Vendado, o mecânico nunca viu o rosto do seu algoz quando era um preso político. Mas nunca se esqueceu daqueles ruídos que prenunciavam mais uma sessão de tortura.
Vahid apanhou tanto que ainda hoje sente muitas dores nos rins. Por levar constantemente a mão ao órgão machucado, foi apelidado de Jarra com Alça. Eghbal, o torturador, também tem um apelido: Perna de Pau. Esse é cara que, nas palavras de Vahid, tirou sua dignidade, sua esposa e seu emprego.

Não é spoiler o que vem a seguir, mas fica o alerta para o espectador mais refratário a informações sobre a trama: Vahid sequestra o sujeito e está decidido a se vingar. Prestes a ser enterrado vivo, o homem nega ser seu verdugo, diz que sua prótese é coisa recente e pede que o mecânico examine as cicatrizes de sua perna.
Vahid é tomado de assalto pela dúvida — ou talvez pela consciência. Resolve, então, procurar outros ex-presos políticos, outras vítimas do Perna de Pau. Nessa jornada, conhece personagens como Shiva (Mariam Ashfari), uma fotógrafa de casamento, e o raivoso Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr).
A incerteza sobre a identidade do sequestrado alude ao anonimato do terrorismo de Estado praticado pelas ditaduras. Todos os personagens agrupados por Vahid têm em comum o passado traumático, mas cada um tem o seu jeito de encarar a situação do presente. O livreiro Salar (George Hashemzadeh), por exemplo, desaprova a revanche violenta:
— Não somos assassinos, não somos como eles. Não precisamos cavar sepulturas, porque eles próprios já fizeram isso. Você só estaria enterrando seus valores.

O grupo trava discussões acaloradas que refletem os diferentes sentimentos humanos diante da violência e do sofrimento e as contradições de sociedades atravessadas pela repressão. Onde termina a justiça e começa a vingança? A impunidade institucional autoriza a retaliação pessoal e emocional?
A tensão de cada cena é realçada pela estética do filme, que tem direção de fotografia de Amin Jafari e edição de Amir Etminan. Jafar Panahi aposta bastante em planos longos, ou seja, estica a corda até o ponto em que parece que ela vai arrebentar. Em outros momentos, a luz vermelha dos faróis traseiros da van de Vahid parece tanto desenhar o inferno na Terra quanto descarnar os personagens até suas emoções mais primitivas.
Não bastassem todas essas virtudes, Foi Apenas um Acidente ainda oferece um final assombroso. É desses que ficam para sempre na memória. Quase como um trauma.
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