
Os Enforcados (2024), que estreou na sexta-feira (28) no Telecine (acesso via Amazon Prime Video, com 30 dias de teste grátis, ou Globoplay), começa citando uma passagem do livro The Ritual Theory of Myth (em português, a teoria ritual do mito), publicado em 1966 pelo estadunidense Joseph Fontenrose (1903-1986), um estudioso da literatura clássica e da mitologia:
"Durante a Sakaia babilônica, quando mestres e servos trocavam de lugar na folia saturnal, um criminoso condenado era vestido com as roupas do rei, sentado no trono e recebia o título de Zoganês; durante cinco dias comia e bebia à vontade, desfrutava das concubinas do rei e dava as ordens que lhe apetecia; no quinto dia era despido, açoitado e enforcado".
A Babilônia da era antes de Cristo se conecta à Escócia do século 11 e ao Rio de Janeiro dos anos 2020 no filme escrito e dirigido por Fernando Coimbra.
Este é o segundo longa-metragem rodado no Brasil por Coimbra, que repete em Os Enforcados a parceria com a atriz Leandra Leal, protagonista do premiadíssimo O Lobo Atrás da Porta (2013) — o cineasta chegou a competir ao troféu de estreante no DGA, do Sindicato dos Diretores dos EUA.
Entre um título e outro, ele assinou a série nacional O Homem da sua Vida (2017), fez em Hollywood o filme sobre a guerra no Iraque Castelo de Areia (2017), estrelado por Nicholas Hoult, Logan Marshall-Green, Henry Cavill e Glen Powell, e dirigiu episódios dos seriados Narcos e Perry Mason.

Como O Lobo Atrás da Porta, que girava em torno do sequestro de uma criança e de um triângulo amoroso, Os Enforcados é outro ótimo suspense urbano com crime e paixão. De novo no Rio de Janeiro, Fernando Coimbra conta a história do casal Regina (personagem de Leandra Leal) e Valério (Irandhir Santos, ator das novelas Amor de Mãe, Pantanal e Guerreiros do Sol e protagonista da série e do filme que estão sendo feitos sobre a torcida Coligay, do Grêmio).
Os dois são dados a jogos eróticos de violência, submissão e escárnio. Na cena de abertura, Valério finge ser um ladrão que invade a casa onde moram, na Zona Oeste do Rio, e "obriga" Regina a fazer sexo. Depois da transa, a esposa se olha no espelho e reclama do marido, soltando uma frase que fala muito sobre nossas contradições e hipocrisias:
— De faca eu gosto, de marca não.
No café da manhã, a conversa é sobre a reforma que estão fazendo na mansão. Pisando em ovos, Valério alerta Regina que o dinheiro está minguando, vem saindo mais do que entrando.
— Eu tô quebrado — revela.
— Como assim? — espanta-se a esposa. — Não tô entendendo como você pode tá falido se o Brasil tá em crise. O teu negócio vive de crise, Valério. Onde é que caça-níquel mora? Mora em bar, porque a pessoa que tá desesperada, ela reza, ela bebe e ela joga.
Eis a origem da riqueza de Valério: o jogo do bicho e as máquinas caça-níqueis, um mundo clandestino — mas já "legitimado" no país — onde seu pai, já falecido, e o seu tio, Linduarte (Stepan Nercessian), construíram um império. O marido diz que tem um plano para resolver a situação: quer vender sua parte para o tio e, enfim, levar uma vida limpa. Mas Regina — cujo nome, não parece coincidência, em latim quer dizer rainha — tem outro plano, mais ambicioso, mais perigoso.

É aí que Os Enforcados e o Rio contemporâneo se cruzam com Macbeth e a Escócia medieval. Como a Lady Macbeth da célebre peça de William Shakespeare (1564-1616), Regina vai incentivar o marido a matar Linduarte para assumir o trono. Se na tragédia do teatro há a profecia das três bruxas, no filme ela consulta as cartas de tarô lidas por sua mãe — essa personagem é vivida com verve por Irene Ravache: uma de suas máximas é "Todo dinheiro é sujo".
Seguindo os passos de Shakespeare, Fernando Coimbra pontua com imprevistos, reviravoltas e traições a trama povoada por coadjuvantes como Jadson (Thiago Thomé), o braço-direito de Valério, o delegado Torres (Pepê Rapazote), os bicheiros Capitão Rodrigues (Ernani Moraes) e Abelardo (Ricardo Bittencourt) e o advogado tributarista Batista (Augusto Madeira), responsável pelo "reposicionamento financeiro" — um eufemismo para lavagem de dinheiro do crime e da contravenção. Aliás, o senso de humor ácido é um dos trunfos do filme.
A exemplo de Macbeth, Os Enforcados retrata a ambição humana, a corrupção do poder, a natureza do mal e o peso da culpa. O barulho constante das obras na mansão e das máquinas no cenário das docas reflete a jornada caótica em que o casal se meteu e a turbulência do estado de espírito dos personagens. Da mesma forma, a obsessão de Regina com uma suposta mancha na parede parece ilustrar a sua consciência pesada. Vale reparar também em objetos de cena: além dos mais óbvios (como a corda de um varal), um colar, um fio de luz e o chuveirinho da banheira ajudam a reforçar a ideia do título e a mostrar como o casal vai sendo sufocado pela cobiça, pela mentira e pelo sangue.
"Cada passo dos personagens é um tombo"

Na época da estreia de Os Enforcados no cinema, o diretor e roteirista Fernando Coimbra concedeu entrevista para a coluna. Confira:
Como surgiu a inspiração para fazer Os Enforcados? De que maneira Macbeth, uma lenda da Babilônia e a elite dos bicheiros do Rio se cruzaram na sua cabeça?
É uma mistura de coisas mesmo. Várias coisas me impulsionaram, mas eu falo sempre que Os Enforcados é um filhote d'O Lobo Atrás da Porta. A ideia foi surgindo quando eu estava filmando O Lobo. Eu ia para algumas locações no subúrbio do Rio, passava pela Zona Oeste, pela Barra da Tijuca, e comecei a olhar para aquele universo ali, para aquele lugar que a gente não mostra tanto no cinema. Quem são essas pessoas? O que elas fazem? Como vivem? E aí foi vindo essa vontade também de falar sobre o jogo do bicho, sobre milícia, sobre pessoas que ascenderam ali, que tem muito dinheiro, mas obtido de uma forma criminosa, de uma forma corrupta. Quis retratar uma elite corrupta e criminosa da nossa sociedade. A gente fala do crime muito na base da pirâmide, pessoas que estão numa situação de pobreza e, sem opção, aderem ao crime. Mas se tem tanta gente sem dinheiro, quem é que tem o dinheiro? O jogo do bicho simbolizava bem essa questão, porque é uma contravenção aceita socialmente. Os bicheiros apareciam na TV, eram personalidades. Agora as pessoas estão tomando cada vez mais consciência do grau de violência e e como corrompe o sistema. Por fim, Macbeth é muito propício para esse universo, porque é a história do pacto de um crime, de um casal com ambição, com uma ganância.
A trama do filme é cheia de desdobramentos, reviravoltas, imprevistos, traições. Gostaria que você falasse um pouco sobre o processo de construção do roteiro.
O Lobo tinha essa coisa do thriller. Não era um thriller no sentido mais clássico, mas tinha elementos na sua estrutura: onde foi parar a criança, quem está falando a verdade, quem está falando a mentira. Tinha um jogo. Peguei gosto, porque é um negócio que bota o espectador num lugar muito ativo, de tentar entender o que está acontecendo, tentar decifrar, experimentar junto com os personagens essa situação de se estar sendo enganado, de descobrir que nada é o que parece ser. Em Os Enforcados, cada passo dos personagens é um tombo.
Pode ser que eu esteja exagerando, vendo coisas onde não havia a intenção, mas me pareceu que alguns detalhes ajudam a reforçar a ideia do título e a mostrar como os dois personagens principais vão sendo sufocados por suas ambições, sua corrupção, suas mentiras e sua propensão à violência. Além da corda dos jogos eróticos, tem um colar aqui, um fio de luz ali, o chuveirinho da banheira... São objetos propositais ou coincidência?
O título veio do jogo de tarô. Quando olhei a carta do enforcado, achei muito forte, muito instigante. Daí veio a corda no jogo sexual e a maneira como a Regina e o Valério pensam em matar o tio. E tem a simbologia: os personagens do filme vão aos poucos se enforcando. Alguns objetos são propositais para reforçar essa ideia, outros que você citou nunca pensei, mas é isso: uma vez que você abre essa porta, o filme já não é mais mais seu.
"Regina não tem preparo emocional para aquilo"

Vista em O Homem que Copiava (2003), Leandra Leal colecionou prêmios e indicações por filmes como Cazuza: O Tempo Não Para (2004), Nome Próprio (2007), Estamos Juntos (2011), O Lobo Atrás da Porta (2013) e Bingo: O Rei das Manhãs (2017). A atriz também falou com a coluna para divulgar a estreia de Os Enforcados no cinema:
Sua personagem em Os Enforcados, a Regina, contrasta a doçura da sua voz e uma delicadeza e até uma certa fragilidade da sua figura com um pragmatismo e uma perversidade. De cara a gente percebe que ela é mais do que parece, quando pega a marreta para tentar derrubar uma escultura carnavalesca durante a reforma da mansão. Gostaria que você falasse sobre a construção da personagem.
A construção partiu realmente do roteiro, das referências do Fernando, do processo de ensaio. A gente teve três semanas de ensaio, e eu acho que tem duas relações muito fundamentais para construir a Regina, que era a relação com a mãe e a relação com o Valério. O encontro com esses atores (Irene Ravache e Irandhir Santos) também foi muito importante. Precisávamos saber quem era essa pessoa para ela ir se desconstruindo no filme. O Fernando não faz um julgamento dos personagens que ele cria. Eu lembro que em O Lobo Atrás da Porta eu dizia (da Rosa, a protagonista encarnada por Leandra Leal): ela é psicopata. E ele falava não, ela não é psicopata. Agora de novo, sem nenhum julgamento, sem nenhum distanciamento, a gente foi construindo essa mulher que é capaz de fazer coisas absurdas.
O diretor Fernando Coimbra não julga Regina, mas ela sim, não? A obsessão da Regina com um cheiro e com uma suposta mancha na parede ilustram o peso da consciência, o peso da culpa?
Acho que ela enxerga o que vai fazer como algo muito simples. Acha que o crime que eles vão cometer é muito simples e que o Linduarte é um cara que todo mundo quer que morto, então por que não matar? Mas quando ela comete isso, o pacto com o Valério vai se rompendo, e ela sente o abandono. A Regina não sabe o que fazer com esse sentimento também, com essa solidão. Ela fica sem parceria, fica sem cúmplice. Ela não estava preparada para fazer o que fez nem para ser sozinha. A Regina é uma pessoa que foi criada pra casar. Ela existe a partir disso, ela é quem ela é com o marido. Então, a Regina se sente muito traída. Ela não tem preparo emocional para lidar com isso.
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