
Seis vezes ganhador do Oscar, o diretor e roteirista Billy Wilder (1906-2002) é um dos maiores gênios que já passaram por Hollywood, mas acabará esquecido se depender das principais plataformas de streaming — Netflix, Amazon Prime Video, Disney+ e HBO Max. O irônico é que um de seus clássicos trata justamente do esquecimento na indústria cinematográfica: Crepúsculo dos Deuses (1950). Oscarizado na categoria de melhor roteiro, este drama sombrio e sarcástico conta a história de uma veterana estrela do cinema mudo, Norma Desmond, que contrata um jovem roteirista para ajudá-la a reconquistar o reinado.
Ao garimpar o menu das quatro gigantes do streaming, só encontramos dois dos 26 longas-metragens que Wilder dirigiu entre 1934 e 1981. O Pecado Mora ao Lado (1955) está disponível no Disney+, e o Amazon Prime Video oferece Quanto Mais Quente Melhor (1959) — nessa plataforma, há alguns outros títulos, mas mediante aluguel ou assinatura adicional.
Menos mal que existem serviços como o Belas Artes à La Carte, onde podem ser vistos nove filmes de Wilder, incluindo os clássicos Pacto de Sangue (1944), Crepúsculo dos Deuses e A Montanha dos Sete Abutres (1951), além de Farrapo Humano (1945), pelo qual ele conquistou suas duas primeiras estatuetas na premiação da Academia de Hollywood, nas categorias de melhor direção e melhor roteiro (assinado junto com Charles Brackett).
A MUBI (que também pode ser acessada via Amazon Prime Video, com sete dias de teste grátis) acrescentou na sexta-feira (12) ao seu catálogo três filmes dirigidos por Billy Wilder: Semente do Mal (Mauvaise Graine, 1934) e as maravilhosas comédias Quanto Mais Quente Melhor e Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960).
Semente do Mal é sua estreia na direção. Feito em parceria com Alexander Esway, acompanha um bando de rapazes que rouba carros.

Ninguém é perfeito, como diz o personagem de Joe E. Brown no célebre final de Quanto Mais Quente Melhor, mas um filme pode ser. É o caso desta comédia de erros em que Tony Curtis e Jack Lemmon interpretam dois músicos de Chicago que, para fugir de mafiosos durante a Lei Seca, se disfarçam de mulheres e se juntam a uma banda de jazz feminino em turnê para a Flórida. No trem, vão conhecer Sugar Kane Kowalczyk, a sensual cantora encarnada por Marilyn Monroe, em um de seus últimos trabalhos antes de morrer, em 1962, com apenas 36 anos.
Por Quanto Mais Quente Melhor, Billy Wilder disputou o Oscar de melhor diretor e o de melhor roteiro adaptado (com I.A.L. Diamond). Na premiação seguinte da Academia de Hollywood, faturou três categorias: a de melhor filme, como produtor de Se Meu Apartamento Falasse, a de direção e a de roteiro original. O título também recebeu os troféus de edição (Daniel Mandell) e direção de arte em preto e branco (Alexandre Trauner e Edward G. Boyle).

Esta comédia dramática retrata, com sensibilidade ímpar, a solidão urbana. Indicado ao Oscar de melhor ator, Jack Lemmon interpreta um corretor de seguros de Nova York que descobre uma maneira inusitada de subir na vida: emprestar o apartamento aos seus superiores para noites de amor proibidas. O problema é que ele se apaixona pela ascensorista (Shirley MacLaine, concorrente o Oscar de melhor atriz) que tem encontros com o chefe do seu escritório (Fred MacMurray). Depois de Se Meu Apartamento Falasse, Lemmon e MacLaine reprisaram sua parceria em Irma La Douce (1963), agora em Paris, onde um policial careta envolve-se com prostituta.
As lições de Billy Wilder

Nascido em uma família judia da Áustria, Billy Wilder trocou a Europa pela América quando Adolf Hitler tomou o poder na Alemanha, onde o futuro cineasta já trabalhava como roteirista.
Wilder era um apaixonado pela palavra, pelos diálogos rápidos, pelo duplo sentido. Em Hollywood, antes de ser um habituê do Oscar com seus próprios filmes, disputou por três vezes o prêmio de melhor script, como coautor de Ninotchka (1939), A Porta de Ouro e Bola de Fogo (ambos de 1941). Frasista contumaz, defendia assim o modo de alicerçar suas tramas muito mais no texto do que na imagem:
— Por que filmar uma cena do ponto de vista de uma ave voando ou de um inseto? Isso tudo só serve para desbundar a burguesia, para maravilhar os críticos de classe média.
Ao mesmo tempo, sabia que não podia entregar tudo de mão beijada para o espectador. Com o diretor alemão Ernst Lubitsch, de Ninotchka, aprendeu uma máxima que propagou: "Deixe o público somar dois mais dois. Vão amá-lo para sempre".
Uma lição do próprio Billy Wilder entrou na lista das 40 coisas que o cineasta gaúcho Jorge Furtado aprendeu em 40 anos de carreira: "Trate as cenas como as festas: chegue tarde e saia cedo". Segundo o diretor de O Homem que Copiava (2003) e Saneamento Básico, o Filme (2007), o roteirista muitas vezes perde tempo apresentando o personagem antes que comece a trama. É uma praxe de novatos, que elaboram situações que permitam explorar quem são as figuras de sua história. "Todos os filmes de estudantes começam com alguém na cama", sintetiza Furtado.

Testemunha do boom do technicolor, Wilder preferia rodar em preto e branco: achava que filmes coloridos ficavam com "cara de sorveteria", tirando o foco do que os atores diziam — um baita problema para as piadas de suas comédias, gênero ao qual ficou associado o nome de Billy Wilder, com seu cinismo e seu senso de humor algo amargo, algo ácido. A propósito, o cineasta zombava de si mesmo. Na biografia E o Resto É Loucura, disse ao jornalista alemão Hellmuth Karasek que a única coisa da qual se orgulhava era de seu nome ter aparecido nas palavras cruzadas do jornal The New York Times: "Uma vez no 17 horizontal. Outra no 21 vertical".
Mas o humor não foi sua única praia. Como Stanley Kubrick (1928-1999), mas sem o prestígio e, talvez, sem a ambição artística do diretor do épico Spartacus, da comédia Dr. Fantástico, da ficção científica 2001: Uma Odisseia no Espaço e do terror O Iluminado, Wilder conseguiu cunhar clássicos em gêneros distintos — do policial noir (Pacto de Sangue) ao filme de tribunal (Testemunha de Acusação), passando pela aventura de guerra (Inferno Nº 17) e pelo drama com crítica social (A Montanha dos Sete Abutres).
Seus personagens eram mundanos e ambíguos, às vezes cansados das rotinas (profissionais, domésticas etc) ou até moralmente torpes — gente como a gente. Lidavam com temas cotidianos que costumavam ficar escondidos sob a hipocrisia da sociedade, como adultério e incerteza sexual. Não por acaso, a farsa e o disfarce sempre estavam presentes em suas obras, ora explicitamente, ora de maneira mais sutil.
Billy Wilder gostava de criaturas que representam, como se a existência fosse um eterno teatro. Como se todos nós fossemos um pouco Norma Desmond: meio perdidos, meio devaneando, atuando para não sermos esquecidos, esperando pela redenção, esperando que alguém dê um close na nossa vidinha como naquela última cena de Crepúsculo dos Deuses.
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