
É a notícia do dia no mundo dos filmes e das séries: a Netflix comprará o estúdio de cinema e televisão Warner Bros Discovery (WBD) por US$ 82,7 bilhões (aproximadamente R$ 439 bilhões, na cotação atual), conforme anúncio conjunto das duas empresas divulgado nesta sexta-feira (5).
Trata-se da maior aquisição no setor de entretenimento desde que a Disney comprou a Fox por US$ 71 bilhões, em 2019. De acordo com o comunicado, a conclusão da transação está prevista para depois da separação da divisão Global Networks da WBD, a Discovery Global, prevista para o terceiro trimestre de 2026. Com a operação, a Netflix ficará com um imenso catálogo de filmes e o serviço de streaming HBO Max.
O meganegócio abre margem para muitas perguntas, muitas dúvidas, muitas especulações. No site The Film Stage, o crítico Jordan Raup foi fatalista: "É um dia sombrio e devastador para a experiência cinematográfica".

Raup disse que a Warner teve um ano excepcional nos cinemas. Foi o primeiro estúdio a ultrapassar a marca de US$ 4 bilhões nas bilheterias, ainda em setembro, impulsionada por títulos como Um Filme Minecraft, F1: O Filme e Superman. Dois de seus filmes, Uma Batalha Após a Outra e Pecadores, podem se tornar os recordistas de indicações ao Oscar — e também foram bem comercialmente, tanto que ganharam relançamentos em cópias IMAX 70mm.
Para Raup, "essa aquisição representa uma mudança radical para a indústria, de maneiras ainda não totalmente compreendidas, mas imaginamos que muitos cineastas que prezam a experiência cinematográfica migrarão para outros estúdios, assim como Christopher Nolan fez após trocar a Warner Bros. pela Universal no pós-pandemia". O ponto-chave na argumentação do crítico é que a Netflix prioriza o streaming. Esporadicamente, lança filmes nos cinemas, mas por tempo muito limitado (em geral, duas semanas), apenas para atender aos critérios de elegibilidade do Oscar.
Segundo o comunicado desta sexta-feira, a Netflix pretende manter a estratégica de estreias nos cinemas para os longas-metragens produzidos pela Warner, pela New Line e pela DC Studios (casa dos super-heróis Batman, Superman e Mulher-Maravilha), entre outros estúdios que fazem parte do conglomerado. Mas qual será a janela de tempo entre a exibição nas salas de cinema e a chegada ao streaming?
Uma outra pergunta que surge é sobre como a Netflix vai gerir a HBO Max, plataforma reconhecida tanto pela excelência das séries — costumeiramente, é a campeã de conquistas no Emmy, o grande prêmio da TV e do streaming nos Estados Unidos — quanto pelo formato clássico de distribuição de suas principais produções: um episódio por semana.
Já a Netflix adota a cultura fast-food: quase sempre, lança de uma vez só todos os episódios de uma série. Essa prática induz ao consumo imediato.
A voracidade prejudica a digestão: não refletimos sobre o que estamos vendo. A sensação de saciedade acaba rapidamente também: daqui a alguns dias já nem lembramos mais do prato, ao contrário do que acontece com os seriados exibidos à moda antiga — o cardápio renovado a cada semana atiça nosso apetite.
Ao lançar um capítulo por semana, a HBO Max dá mais vida útil à série: cada episódio é capaz de gerar repercussão e de engajar a conversa com os amigos. A plataforma de streaming convida o espectador a lidar com a frustração — o que é sempre saudável. Estimula o público a especular, a exercitar a fricção entre raciocínio e sentimento.
E proporciona o prazer da expectativa: que gostoso passarmos sete dias saboreando os ingredientes misteriosos ou picantes que foram servidos, que delícia ficar uma semana inteira imaginando o que vai sair, na próxima vez, daquela panela cozinhada em fogo altíssimo ao final de cada capítulo.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano






