
A morte de Brigitte Bardot reacendeu um eterno debate: é possível separar a obra do artista?
Sim, a atriz francesa que morreu neste domingo (28), aos 91 anos, tornou-se um ícone do cinema mesmo com uma trajetória curta, graças a filmes como E Deus Criou a Mulher (1956), de Roger Vadim, e O Desprezo (1963), de Jean-Luc Godard. Por conta do caráter desinibido de Bardot à frente da câmera e também fora das telas, ela chegou a ser considerada uma "revolucionária", uma "locomotiva da história das mulheres", como definiu a filósofa feminista Simone de Beauvoir (1908-1986) no ensaio Síndrome de Lolita (1959).
E sim, Brigitte Bardot deixou um legado de ativismo pela causa animal. Aliás, em entrevista ela contou que a gota d'água para o abandono da carreira, em 1973, foi descobrir que a cabra de uma figurante do filme L'Histoire très bonne et très joyeuse de Colinot Trousse-Chemise estava condenada a virar carne de churrasco.
— Fiquei horrorizada! E comprei a cabra imediatamente. Levei-a para o meu hotel quatro estrelas. Ela dormiu no meu quarto, e até na minha cama com meu cachorrinho. Esse foi o ponto de virada. Adeus ao cinema — disse Bardot, que a partir dali se empenhou contra, por exemplo, a caça de focas no Canadá, as touradas na Espanha, o consumo de carne de cavalo e o uso de animais em testes laboratoriais.
Mas Brigitte Bardot também teve muitas atitudes desabonadoras. A atriz foi condenada seis vezes por incitação ao ódio racial devido a ataques à comunidade muçulmana na França. No livro Um Grito no Silêncio (2003), por exemplo, Bardot apresenta os seguidores do islamismo como "invasores bárbaros e cruéis", "terroristas" e com intenção de exterminar o povo e destruir o país.
Nesse mesmo livro, Bardot criticou a miscigenação e fez afirmações homofóbicas e transfóbicas: "...tudo degenerou em bichas de classe baixa, travestis de todos os tipos, espetáculos de horrores, estimulados nesta decadência pela revogação de proibições que coibiam excessos extremos". Nos últimos anos de vida, aproximou-se de figuras e discursos da extrema-direita na França.
Assim, a biografia de Brigitte Bardot remete a um livro que foi publicado em 2023 nos Estados Unidos e lançado em 2025 no Brasil: Monstros: O Dilema do Fã, da crítica e ensaísta cultural estadunidense Claire Dederer (editora Amarcord, tradução de Joca Reiners Terron, 384 páginas, R$ 74,90).

Dederer reflete sobre se é possível separar a obra do artista. O que fazer com a arte incrível de homens horríveis? Podemos amar os filmes, os livros, as músicas, os quadros e odiar seus diretores, seus escritores, seus cantores, seus pintores?
Como, por exemplo, continuar assistindo aos filmes de Roman Polanski, que drogou e estuprou uma garota de 13 anos e sobre quem pesam outras acusações de violência sexual contra adolescentes?
Como admirar uma pintura de Pablo Picasso (1881-1973) sem ser assaltado por sua biografia de homem tóxico?
Como ouvir uma ópera de Richard Wagner (1813-1883) diante do zumbido gritante do seu antissemitismo, que foi expressado em palavras no ensaio "O Judaísmo na Música" (1850), e do entrelaçamento de suas ideias e composições ao nazismo?
Como seguir acreditando na existência de "um lugar onde os forasteiros eram aceitos e onde o amor triunfava sobre o mal" depois que J.K. Rowling, com veemência, passou a atacar as pessoas trans? "Se você for uma pessoa trans, ou amar uma pessoa trans, ou simplesmente discordar da fala de Rowling, o que fazer com aquela parte de sua infância que se interligou com Harry Potter?"
São questões em sintonia com a era da produção explosiva de imagens e do consumo maciço de fotos e vídeos em redes sociais como Instagram e TikTok. Se a aparência se tornou infinitamente mais importante, a reputação também passou a ser alvo de uma vigilância maior.
As novas gerações não relativizam tanto o que no passado poderia ser minimizado como "deslize moral", e as redes abriram espaço para visões e vozes que antes eram ignoradas, marginalizadas, silenciadas. A revolta contra o patriarcado e contra a normalização do racismo e de preconceitos sexuais alimenta a chamada cultura do cancelamento.
O ato de cancelar um artista denota um ideal de ética e de pureza por quem o pratica, seja o público, a imprensa ou a indústria. Às vezes, os réus desse tribunal digital merecem mesmo ser condenados; em outras, parece um exagero ou uma hipocrisia transformar um ídolo e um monstro.
Mas quando é uma coisa e quando é a outra?
"Gostaria que alguém inventasse uma calculadora online — o usuário digitaria o nome de um artista, e a calculadora avaliaria a hediondez do crime versus a grandiosidade da arte e emitira um veredito: você poderia ou não consumir a obra de tal artista", escreve Claire Dederer em Monstros: O Dilema do Fã, que traz na epígrafe uma frase do livro A Hora da Estrela (1977), de Clarice Lispector (1920-1977): "Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?".
Dederer, 58 anos, não tem respostas para todos os casos analisados no livro. Na verdade, volta e meia uma pergunta abre um leque de novas interrogações. A autora não apenas compartilha os seus próprios dilemas: ela convida o leitor a refletir junto ou por conta própria, de acordo com os pesos e as medidas que usamos, conforme nosso estômago ou nosso coração.
Os casos de Roman Polanski e Woody Allen

Os primeiros personagens do livro de Claire Dederer são dois cineastas consagrados: Roman Polanski e Woody Allen.
Polanski, 92 anos, ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de melhor direção por O Pianista (2002) e concorreu na mesma categoria por Chinatown (1974) e Tess (1980). No Festival de Berlim, recebeu o Urso de Ouro por Armadilha do Destino (1966) e o Urso de Prata por O Escritor Fantasma (2010). Em Veneza, seu penúltimo longa-metragem, O Oficial e o Espião (2019), conquistou o Grande Prêmio do Júri e o troféu da crítica.
"Não existe nenhuma outra figura contemporânea que equilibre estas duas forças de forma tão homogênea: o absoluto da monstruosidade e o absoluto da genialidade. Polanski fez Chinatown, quase sempre considerado um dos melhores filmes de todos os tempos. Polanski drogou e estuprou analmente Samantha Gailey, de 13 anos. Esses são os fatos, irreconciliáveis. Como eu me sustentaria entre essas contradições?", indaga Dederer, adicionando um complicador: o próprio Polanski "foi uma vítima, pois sua mãe foi assassinada em Auschwitz, seu pai foi preso em campos de concentração, sua esposa e seu filho ainda não nascido foram assassinados pela família Manson".
Allen, 90 anos, já foi homenageado com um prêmio pela carreira nos festivais de Veneza, em 1995, e Cannes, em 2002, e obteve quatro vitórias no Oscar: melhor direção e melhor roteiro original por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977) e melhor roteiro original por Hannah e suas Irmãs (1986) e Meia-Noite em Paris (2011). Teve mais 20 indicações, a última delas, pelo script de Blue Jasmine (2013), em 2014, justamente o ano em que Dylan Farrow, sua filha adotiva com a atriz Mia Farrow, trouxe de volta à tona a acusação de abuso sexual que teria sofrido em 1992, quando ela tinha sete anos.
"Não sabemos a história real e talvez nunca saibamos", diz Claire Dederer. "O que sabemos com certeza é que Woody Allen dormiu com Soon-Yi Previn, filha de sua companheira Mia Farrow. Soon-Yi estava no Ensino Médio, ou caloura na faculdade, na primeira vez que ele dormiu com ela. (...) Dormir com a filha de sua companheira — isso requer um tipo especial de bizarrice."
Também por motivos pessoais, Dederer afirma que a história com Soon-Yi "perturbou e reorganizou" sua visão dos filmes de Allen. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa permaneceu intacto como "o maior filme cômico do século 20". Mas em Manhattan (1979), a autora enfim percebeu que "as mulheres têm permissão para ser belos objetos ou são frustradas, impotentes, ridículas — em suma, caricaturas". Claro que, ao tornar públicas suas objeções ao filme, Dederer virou alvo de homens que vinham com um discurso surrado e conveniente: "Você deve julgar Manhattan com base em sua estética!".
Vale transcrever as reflexões das páginas 54 e 55, que resumem um dos pontos centrais do livro — a "autoridade cultural" quase sempre é uma figura masculina que "fica do lado do criador homem":
"Qual de nós estava vendo com mais clareza? Aquele que tinha a capacidade — alguns podiam dizer privilégio — de não se incomodar com as atitudes do cineasta em relação às mulheres e seu histórico com garotas? Ou aquele que não podia deixar de notar — talvez não pudesse deixar de sentir — as antipatias e os impulsos que pareciam inspirar o projeto? Será que esses espectadores orgulhosamente objetivos estavam mesmo sendo tão objetivos quanto pensavam? O gênio habitual de Woody Allen é a autoindagação, e em Manhattan ele tropeça em um obstáculo crucial da autoindagação, e também come uma adolescente, e esse é o filme que é chamado de obra-prima? O que exatamente esses caras estão defendendo? É o filme? Ou outra coisa?".
Michael Jackson e o conceito de mácula

Há muitas outras passagens marcantes no livro. Ao citar Michael Jackson (1958-2009), Claire Dederer discorre sobre o conceito de mácula. Ela conta de suas emoções antagônicas ao ouvir I Want You Back (1969), dos Jackson 5, em uma lanchonete: a alegria pela música foi logo arruinada pela lembrança dos relatos de pedofilia e abuso sexual registrados no documentário Deixando Neverland (2019).
A "contaminação da obra" depende pouco de uma "decisão filosófica". A mácula "é simplesmente algo que acontece", não é uma escolha. "Quando alguém diz que devemos separar a arte do artista, está dizendo: remova a mácula. Deixe que a obra seja imaculada. Mas não é assim que funciona. Observamos o copo cair no chão; não podemos decidir se o vinho se espalhará pelo carpete".
Para Dederer, boicotar a obra, além de igualar a fruição da arte ao mero consumo, é, em essência, um gesto ético inútil — o homem horrível vai continuar ganhando dinheiro para fazer sua arte incrível mas também suas coisas horríveis. "O que fica é o amor. Nosso amor pela arte, um amor que ilumina e amplia nosso mundo. Nós amamos, quer queiramos ou não, assim como a mácula acontece, quer queiramos ou não".
Os críticos, por sua vez, não deveriam ter reações do tipo "E aí, vai jogar no lixo a obra de X?", que os tornam "servos do capital, desviando o foco do agressor e dos sistemas que o apoiam para o consumidor individual. (...) O liberalismo quer que você desvie o olhar do sistema e se concentre na importância das suas escolhas".
Hemingway, Picasso e a definição de gênio

Um dos capítulos mais longos de Monstros: O Dilema do Fã é centrado em dois ícones da arte e da literatura do século 20: Pablo Picasso (1881-1973) e Ernest Hemingway (1899-1961). Segundo Dederer, eles moldaram a ideia contemporânea do gênio artístico com características que, depois, passaram a ser associadas aos astros do rock: "robusto, sem limitações, mulherengo, viril, cruel, sexual".
Esse gênio é ao mesmo tempo mestre e servo. Domina a sua arte e o público, mas também é refém de uma força maior, um desejo, um vício, algo que o faz perder completamente o controle sobre si mesmo.
A impulsividade que separa o artista do artesão é uma faca de dois gumes. "Se você é bem recompensado por ceder a alguns de seus impulsos, não começa a parecer que todos os seus impulsos devem ser honrados? Sobretudo porque é difícil distinguir o bom do ruim. Por que você anularia um impulso, por mais selvagem ou destrutivo que seja, quando ele pode ser a mesma coisa que o impulso que lhe permite fazer essa coisa misteriosa e livre que todos dizem ser genial? O que se segue logicamente daí é a ideia de que o artista deve ser livre em todas as suas ações. Caso contrário, se ele se restringir, poderá desativar a energia. Poderia, de alguma maneira destrambelhada, sentar-se sobre a musa e esmagá-la até a morte."
A genialidade confere carta branca para a monstruosidade? A loucura é inerente a um grande artista? Ou toda a liberdade dada por nós acaba deixando um gênio louco? E por que os canalhas nos fascinam?
Dederer vai além: "Talvez tenhamos criado a ideia de gênio para servir à nossa atração pela canalhice. Talvez tenhamos solicitado a esses artistas que vivam nossas fantasias mais sombrias — e, se dermos a eles o rótulo de gênio, não precisaremos nos sentir culpados por desfrutar do espetáculo. Podemos nos divertir com a performance da maldade".

Essa provocação é retomada mais adiante, quando Claire Dederer examina Lolita (1955), o romance mais famoso de Vladimir Nabokov (1899-1977). Trata-se do diário do pedófilo e estuprador de crianças Humbert Humbert. A autora se pergunta: um escritor que escreve sobre um monstro, que se põe no lugar de monstro, é também um monstro? E por que retratar um monstro?
Brilhante e desconcertante, esse capítulo também traz de volta à narrativa Roman Polanski. "Todo mundo quer comer garotas novinhas!", bradou o cineasta no rescaldo do estupro da garota de 13 anos que cometeu em 10 de março de 1977. "Por que Nabokov deveria contar a história de Humbert? Porque, como Polanski nos diz, é uma história comum. É horrível, impensável e aterradora e acontece o tempo todo. Isso a torna um tema adequado para um escritor."
O crime das mulheres artistas

O outro capítulo extenso de Monstros: O Dilema do Fã se chama "Mães que abandonam" e tem como principais personagens a escritora Doris Lessing (1919-2013) e a cantora Joni Mitchell, 82 anos. "Se o crime masculino é o estupro, o crime da mulher é a falha em cuidar dos filhos", escreve Dederer, que pondera sobre as dificuldades e as cobranças impostas a quem é mãe e artista — ou mãe e trabalhadora de qualquer outra área.
Ao listar exemplos de atitudes que podem ser vistas como sinais de abandono — fechar a porta do escritório ou do estúdio para as crianças, colocar o filho em uma creche, divorciar-se e deixar que o outro genitor tenha a guarda majoritária —, Dederer observa que nenhuma delas é considerada abandono se praticada por homens. Especialmente se forem artistas.

Ao final, Claire Dederer se debruça sobre o caso de Miles Davis (1926-1991), trompetista e compositor que legou ao mundo um dos discos mais incensados do jazz, Kind of Blue (1959). Ela cita bastante Mad at Miles: A Black Woman's Guide to Truth (1990), ensaio de Pearl Cleage, dramaturga, escritora de ficção e ensaísta negra que escreve sobre a evolução de seu relacionamento com a música do artista.
Cleage é sobrevivente de abuso, e seu conhecimento sobre a violência física, psicológica e até patrimonial perpetrada por Miles Davis contra mulheres negras provoca turbulência nos seus sentimentos sobre a música dele em Kind of Blue — que a faz se sentir menos sozinha e que se tornou um totem pessoal, a trilha sonora de várias épocas de sua vida. Ela está simultaneamente brava e apaixonada por Miles.
"Podemos" — pergunta Pearl Cleage — "fazer amor ao ritmo das 'músicas antigas de Miles' quando sabemos que ele pode ter passado a manhã do dia em que a gravou estapeando uma de nossas irmãs? Podemos continuar a celebrar o gênio em face do monstro?"
Não há resposta simples nem única. Não existe receita de bolo. A solução, segundo Dederer, depende do que parece o oposto da autoridade: a experiência pessoal. O sentimento que aquele filme, aquele livro, aquela música, aquela pintura provocou na gente. A beleza que encontramos e valorizamos — e aqui a autora cita o crítico de arte Dave Hickey (1940-2021): "A beleza é aquilo de que gostamos, quer devamos ou não, aquilo a que respondemos involuntariamente". O amor, com sua natureza irracional e emocional ("O coração tem razões que a própria razão desconhece", já dizia Pascal).
Claire Dederer ama Polanski. Esse fato pode não ser ideal, pode até ser deprimente, como ela afirma, mas é verdadeiro.
"Em outras palavras: não existe uma resposta correta. Não há autoridade e não deve haver autoridade. Você está liberada. Você é inconsistente. Você não precisa ter uma grande teoria sobre o que fazer com Michael Jackson. Você é uma hipócrita, hoje e sempre. Você adora Annie Hall (o título original de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), mas mal consegue olhar para um quadro de Picasso. Você não é responsável por resolver essa contradição irreconciliável. Na verdade, você não vai resolver nada por meio do seu consumo; a ideia de que você pode resolver é um beco sem saída. A maneira como você consome arte não faz de você uma pessoa boa ou ruim."
É assinante mas ainda não recebe a minha carta semanal exclusiva? Clique AQUI e se inscreva na minha newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano





