
A Netflix adicionou recentemente ao seu menu as oito temporadas de uma série de suspense sensacional: Homeland (2011-2020), que tem 96 episódios no total e que mistura geopolítica contemporânea com teorias da conspiração, cenas de ação com dramas psicológicos.
Trata-se da adaptação, para o contexto dos Estados Unidos pós-11 de Setembro, de uma série israelense, Prisioneiros de Guerra (Hatufim, 2009-2012), criada por Gideon Raff, o mesmo da minissérie O Espião (2019). Homeland foi desenvolvida por Alex Gansa e Howard Gordon, ambos ex-produtores de um seriado semelhante, 24 Horas (2001-2010).
No circuito de premiações, Homeland somou 40 indicações ao Emmy, com oito vitórias, incluindo melhor série dramática (na temporada de estreia), melhor ator (Damian Lewis, de Band of Brothers) e duas vezes na categoria de melhor atriz (Claire Danes, antes premiada pela minissérie Temple Gradin). É um pecado que Mandy Patinkin nunca tenha sido laureado como ator coadjuvante, e a jazzística música tema composta por Sean Callery também merecia uma estatueta. No Globo de Ouro, Homeland ganhou duas vezes o troféu de seriado dramático, Danes repetiu a dose dupla entre as atrizes, e Lewis faturou como melhor ator pelo primeiro ano da produção.
Homeland começa com uma sequência tensa pelas ruas de Bagdá, capital do Iraque. Uma agente da CIA, Carrie Mathison (interpretada por Claire Danes), tenta encontrar seu informante antes que ele seja enforcado pelas autoridades iraquianas. Hasan, o tal sujeito, pode ter uma informação crucial sobre um iminente ataque terrorista aos Estados Unidos — um país, vale lembrar, para sempre traumatizado pelos atentados a Nova York e Washington comandados em 2001 por Osama bin Laden.
Dez meses depois, Claire tem como alvo principal o misterioso terrorista Abu Nazir (encarnado por Navid Negahban). Enquanto isso, uma equipe militar dos EUA descobre, durante uma operação no Iraque, que um fuzileiro naval desaparecido havia oito anos ainda está vivo. Libertado do cativeiro, o sargento Nicholas Brody (papel de Damian Lewis) retorna para casa como herói de guerra.

Não é spoiler o que vem a seguir (aliás, para preservar os leitores que não sabem nada da série, vou me ater a sua primeira temporada): todo mundo mente o tempo todo em Homeland.
Brody não é o santinho que pintam. Ele inclusive se converteu ao islamismo durante o período em que era prisioneiro. Às escondidas, na garagem de sua casa, reza para Maomé.
Embora alheia a essa conversão religiosa, Carrie suspeita que Brody seja um agente duplo: sua libertação seria parte de um plano complexo orquestrado pela Al-Qaeda para cometer algum grave ataque dentro dos EUA.

Ao mesmo passo em que tenta convencer o chefe da divisão de Oriente Médio da CIA, Saul Berenson (Mandy Patinkin), seu mentor, a permitir a vigilância do fuzileiro naval para comprovar sua ligação com Abu Nazir, a agente omite seu problema de saúde mental: transtorno bipolar, o que afeta sua vida pessoal e profissional. Carrie tem surtos de mania ou de depressão e se expõe a situações de risco — a combinação de determinação pétrea e instabilidade emocional da personagem é brilhantemente encarnada por Claire Danes.
A esposa do sargento Brody, Jessica (vivida pela carioca Morena Baccarin), não foi santa na sua suposta viuvez: na hora em que ele telefona para dizer que está vivo, ela estava transando com outro militar, Mike Faber (Diego Klattenhoff), justamente o melhor amigo do marido.

Concubina de um príncipe saudita, Lynne Reed (Brianna Brown) é uma informante de Carrie. Saul, por sua vez, mente para si mesmo que está tudo bem no casamento com a indiana Mira.
O diretor do Centro de Contraterrorismo da CIA, David Estes (papel de David Harewood), também tem algo a esconder, assim como o vice-presidente dos EUA, o belicista William Walden (Jamey Sheridan). Na verdade, Estes e Walden não disfarçam tanto: por meio desses personagens, para quem os fins justificam os meios, Homeland vai na contramão e assume uma postura mais crítica à política intervencionista dos EUA.
A série também se notabiliza por seu realismo na representação do mundo das relações internacionais, do terrorismo e da espionagem — muitas situações ficcionais parecem tiradas do noticiário —, por um clima paranoico (a desconfiança é da natureza desse universo) e por um ritmo eletrizante, pelo menos na primeira temporada: a sucessão de movimentos de ataque e contragolpe neste tabuleiro explosivo faz querer maratonar os episódios. Mas o coração de Homeland é o conflito entre Carrie e Brody — e este jogo de gata e rato é potencializado por existir um conflito psicológico entre Carrie e ela mesma e entre Brody e ele próprio.
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