
Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (The Fantastic Four: First Steps, 2025), que estreou no Disney+ nesta quarta-feira (5), cumpre uma tradição: de 10 em 10 anos, surge nos cinemas uma nova formação da primeira equipe de super-heróis dos quadrinhos da Marvel, criada em 1961 pelo roteirista Stan Lee (1922-2018) e pelo desenhista Jack Kirby (1917-1994).
Trata-se de uma família — e esta é uma palavra-chave na nova trama —, composta por personagens que ganharam seus poderes durante uma missão espacial: uma tempestade galáctica alterou o seu DNA.
Reed Richards, um gênio da ciência, virou o Sr. Fantástico, que tem o poder de esticar seu corpo como se fosse elástico. A esposa dele, Sue Storm, se tornou a Mulher Invisível, que também pode invisibilizar outras pessoas e objetos e também é capaz de criar e manipular campos de força. O irmão dela, Johnny Storm, regula a temperatura de seu corpo a ponto de entrar em combustão — é o Tocha Humana. Ben Grimm é um agregado: o melhor amigo de Reed se transformou no Coisa, um ser rochoso fortíssimo e ultra-resistente.

Primeiros Passos traz a quarta encarnação do Quarteto Fantástico.
Em 1994, Roger Corman (1926-1994), um veterano dos filmes B de Hollywood, dirigiu ilustres desconhecidos (Alex Hyde-White, Rebecca Staab, Jay Underwood e Michael Bailey) em uma adaptação que, de tão ruim, nunca foi lançada.

Em 2005, Tim Story comandou Ioan Gruffudd, Jessica Alba, Chris Evans (antes de virar o Capitão América da Marvel) e Michael Chiklis em um filme que parecia mais uma aventura dos Trapalhões do que de super-heróis.
Em 2015, o diretor Josh Trank fez jus a seu sobrenome: é uma tranqueira o filme que tinha no elenco Miles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan (antes da fama) e Jamie Bell.

Em 2025, Matt Shakman, diretor da ótima minissérie WandaVision (2021), conseguiu juntar o melhor elenco, tanto em talento quanto em prestígio. Seu filme também foi o de maior bilheteria: US$ 521,8 milhões.
Quem faz o papel de Reed Richards é Pedro Pascal, famoso por causas das séries Game of Thrones, The Mandalorian e The Last of Us.
Sue Storm é vivida por Vanessa Kirby (nenhum parentesco com o artista Jack Kirby), que concorreu ao Oscar de melhor atriz por Pedaços de uma Mulher (2020) e foi a jovem princesa Margaret na série The Crown.

Johnny, o Tocha Humana, é encarnado por Joseph Quinn, em alta desde que apareceu como Eddie Munson em Stranger Things. De lá para cá, ele atuou no prólogo de Um Lugar Silencioso (em 2024), em Gladiador II (2024) e em Tempo de Guerra (2025) e foi contratado para ser o George Harrison na tetralogia dos Beatles.
Ben Grimm também é interpretado por um ator em ascensão: "por baixo" da computação gráfica que dá vida ao Coisa está Ebon Moss-Bachrach, que ganhou dois prêmios Emmy de melhor ator coadjuvante pelo seriado O Urso.
Além de muito bom individualmente, o elenco está bem entrosado em Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, o que faz os momentos de humor soarem mais naturais — ainda que algumas piadas fiquem deslocadas em meio a cenas de perigo. E o filme também acerta na escalação dos vilões: Ralph Ineson, de A Bruxa (2015) e Sede Assassina (2023), empresta seu vozeirão para o gigante Galactus, e Julia Garner, que ganhou três Emmys pela série Ozark, é a Surfista Prateada, arauta do devorador de planetas.
Outro trunfo do filme é a sua concepção visual. A história se passa em um mundo retrofuturista, todo inspirado nos anos 1960 — as roupas, os carros e os programas de TV (como o que reconta a origem do supergrupo) remetem àquela época. O figurino do Quarteto Fantástico merece destaque: dá gosto ver a textura dos elegantes uniformes. Em direção de arte, é um dos filmes mais bonitos da Marvel — só perde para os do Pantera Negra.
Por estar ambientado em um mundo alternativo, Quarteto Fantástico: Primeiros Passos também parece ser o filme mais autocontido da Marvel, ou seja, você não tem de saber nada do que aconteceu em trocentos filmes anteriores nem assistir às fraquíssimas séries de TV. A Marvel deveria fazer mais títulos assim.
Mas, claro, chega uma hora em que esses personagens precisam se conectar com o Universo Cinematográfico Marvel. Ainda bem que isso ocorre apenas na primeira das duas cenas pós-créditos, que tanto serve como chamariz para Vingadores: Destino, previsto para estrear em dezembro de 2026, quanto obriga Reed, Sue, Johnny e Ben a vestirem a camisa de força que a Marvel criou para si mesma, ao desenvolver narrativas interligadas destinadas a culminar em um megaevento.
Há mais pontos positivos, mas para explicar talvez eu tenha que DAR SPOILERS, ok? Então, se você preferir evitar, pode parar a leitura por aqui.
Se quiser continuar, aqui vai:
A ameaça que o Quarteto Fantástico enfrenta pode parecer meio genérica: Galactus, que tem uma fome insaciável, quer consumir a Terra. Mas a proposta que o terrível vilão faz à equipe de super-heróis acrescenta à trama um drama genuíno: Galactus diz que vai poupar a Terra se Reed e Sue entregarem o filho recém-nascido deles, Franklin, uma criança que eles tentaram ter durante dois anos, como os pais revelam na cena de abertura, e que, supostamente, tem um poder imenso.
O que a família fantástica vai fazer: sacrificar um bebê pelo bem de toda a humanidade? O dilema afeta a percepção da equipe pelo público, permitindo ao filme ensaiar, embora de forma tímida, até por causa da curta duração (são menos de duas horas), uma discussão sobre a relação da mídia e da sociedade com o Quarteto Fantástico — ou com os super-heróis em geral, ou com as celebridades e os ídolos em geral.
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