
A Tela Quente da RBS TV exibe nesta segunda-feira (10), às 22h25min, Ficção Americana (American Fiction, 2023), que conquistou o Oscar de roteiro adaptado, escrito pelo diretor Cord Jefferson a partir do romance Erasure (2001), de Percival Everett.
O título competiu em mais quatro categorias na premiação da Academia de Hollywood: melhor filme, ator (Jeffrey Wright), ator coadjuvante (Sterling K. Brown) e música original, com a trilha jazzística composta por Laura Karpman.
Ficção Americana foi o primeiro longa-metragem dirigido por Jefferson, que trazia no currículo o trabalho como roteirista nas séries Master of None, The Good Place e Watchmen. O filme lança um outro olhar sobre o racismo nos Estados Unidos.

O cineasta foca nas ideias estereotipadas e nas práticas segregacionistas às quais personagens e autores negros estão sujeitos na literatura, no cinema, nas séries. Isso é sinalizado já na escalação de Jeffrey Wright, um eterno coadjuvante, ao papel de protagonista.
Seu personagem e sua família também fogem à regra. Ele, Thelonius Ellison, o Monk (o apelido faz referência ao homônimo famoso, o pianista e compositor Thelonius Monk, nascido em 1917 e morto em 1982), é um escritor; seus irmãos, Lisa (Tracee Ellis Ross) e Clifford (Sterling K. Brown), são médicos.
Os romances de Monk até que recebem elogios acadêmicos, mas vendem mal, muito mal — para piorar, nas livrarias não estão exibidos nas vistosas prateleiras de ficção, mas em uma mais oculta, sobre "estudos afroamericanos". Afinal, o autor é negro. Mas seu novo manuscrito foi recusado pelas editoras, sob a justificativa de que "não é negro o suficiente".
Ao participar de um seminário literário, Monk depara com uma sala quase vazia: estão todos assistindo ao painel de outra escritora negra, Sintara Golden (encarnada pela atriz, comediante e produtora Issa Rae), que se tornou best-seller graças a uma obra que atende aos clichês entronizados na sociedade majoritariamente branca dos Estados Unidos — a começar pelo título: We's Lives in Da Ghetto.

Fulo da vida, às voltas também com um grave problema familiar, Monk decide extravasar escrevendo uma sátira na qual zomba dos lugares-comuns esperados de autores de sua etnia, uma trama cheia de gírias e com pais malandros, filhos drogados e gangues violentas. A partir daí, Ficção Americana discute tanto a representação dos negros no mundo da cultura e do entretenimento quanto o racismo e a hipocrisia dos brancos.
Paralelamente, como a provar que uma narrativa de realizadores e personagens negros pode prescindir dos estereótipos, Cord Jefferson desenvolve os conflitos familiares dos Ellison. Li aguns críticos louvando essa parte como a melhor do filme, mas, para mim, Ficção Americana cai significativamente, torna-se menos interessante, quando se afasta do debate central. Que, em seus momentos mais inspirados, remete a um tesouro de Spike Lee escondido no limbo digital: A Hora do Show (Bamboozled, 2000). É uma sátira feroz com uma amarga reflexão: inclusão requer assimilação?
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