
O dia 19 de novembro marca o aniversário de 30 anos da primeira exibição nos cinemas de um filme que revolucionou o mundo da animação: Toy Story (1995), de John Lasseter, disponível no Disney+. E a revolução promovida por seu estúdio, a Pixar, foi tanto tecnológica quanto artística.
Gigante dos desenhos animados feitos à moda antiga, com cada quadro desenhado à mão, a Disney ainda contava os milhões arrecadados com O Rei Leão (1994) quando decidiu apostar no futuro e no talento dos jovens animadores da Pixar. Ao bancar Toy Story, nasceu o primeiro longa-metragem de animação produzido totalmente em computação digital. Ou, no mínimo, a primeira experiência do tipo que realmente foi lançada e que realmente funcionou.
Toy Story inaugurou uma era. As imagens geradas por computador (CGI) já haviam sido usadas em filmes como o visionário Tron: Uma Odisseia Eletrônica (1982), a animação japonesa Golgo 13: O Profissional (1983) e os sucessos de bilheteria O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991) e Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993). Mas seu emprego fora em cenas. A Pixar resolveu fazer um longa inteiro.
O segundo saiu em 1996 e é brasileiro: a animação Cassiopeia, de Clovis Vieira. Em 2000, 50% dos filmes de animação utilizavam CGI, número que disparou para 90% em 2009.
Pertencente desde 2006 à Disney, a Pixar surgiu em 1979 como parte da Divisão de Computação da Lucasfilm, a empresa do cineasta George Lucas, criador da saga Star Wars (Guerra nas Estrelas), iniciada em 1977. Lá, Alvy Ray Smith dirigiu As Aventuras de André e Wally B. (1984), um curta com animação digital feita por John Lasseter.
Em 1986, o estúdio foi comprado por Steve Jobs (1955-2011), cofundador da Apple, e passou a produzir animações digitais. O primeiro curta-metragem, Luxo Jr. (1986), de John Lasseter, apresenta a história do abajur que se tornou a marca registrada da Pixar. Também dirigido por Lasseter, Brinquedo de Lata (1988) ganhou o Oscar de melhor curta de animação e serviu como embrião de Toy Story: o protagonista é um boneco assustado pelas ações de um bebê.
A trama de "Toy Story"

Ainda que a Disney já tivesse lançado O Estranho Mundo de Jack (1993), um sombrio conto natalino, Toy Story quebrou paradigmas. Seus personagens têm uma atitude mais cínica do que era o habitual, e o filme também dispensa os números musicais, tradicionalíssimos nas animações do estúdio fundado por Walt Disney (1901-1966) desde seu primeiro longa-metragem, Branca de Neve e os Sete Anões (1937).
Escrito a muitas mãos, como as de Lasseter, Pete Docter e Andrew Stanton, Toy Story é uma fábula sobre identidade, amizade e lealdade contada pelo ponto de vista dos brinquedos. O filme encena o eterno conflito entre o antigo e o moderno, representados, respectivamente, por Woody (voz de Tom Hanks no original), um antiquado caubói de pano, e Buzz Lightyear (dublado por Tim Allen), um astronauta repleto de botões e funções.
Woody vê ameaçado o seu posto de boneco favorito quando o garoto Andy ganha de aniversário o vistoso Buzz. Enciumado, o caubói tenta se livrar do astronauta, e eles vivem às turras até se unirem numa grande aventura para enfrentar o menino malvado da casa ao lado que gosta de torturar e mutilar soldadinhos, cavalinhos etc.
A tecnologia de "Toy Story"

Para realizar Toy Story, os cineastas e programadores da Pixar construíram o software de animação RenderMan. Uma equipe de 100 pessoas, sendo 27 animadores, trabalhou mais de 800 mil horas na renderização, ou seja, o processo de dar realismo e fluidez às cenas e aos personagens, aplicando luzes, sombras, texturas.
Trabalhar com CGI abriu novas possibilidades no cinema de animação, permitindo que os animadores adicionassem detalhes que antes eram impossíveis ou demandariam um esforço hercúleo — como o padrão xadrez na camisa de Woody ou os adesivos no capacete de vidro curvo de Buzz. Também puderam incrementar a capacidade de expressão dos personagens: foram criados 212 controles de movimento só para o rosto do caubói.
Mas havia limitações. Os softwares se prestavam melhor para objetos geométricos, como blocos e bolas, e davam uma aparência de plástico a, por exemplo, figuras humanas. A Pixar fez do limão sua limonada: os personagens de Toy Story são justamente brinquedos de plástico — e que ficavam no quarto de uma criança, com um piso simples e plano, ideal para executar as ilustrações e a sua renderização.
Na comparação com os títulos mais atuais do estúdio, a diferença de qualidade técnica pode saltar aos olhos. Não à toa, o diretor Andrew Stanton, que ganhou duas vezes o Oscar de melhor longa-metragem de animação, por Procurando Nemo (2003) e por WALL-E (2008), disse em entrevista à revista Time que "Toy Story é o filme mais feio que já fizemos".
— Mas você não se importa, porque fica envolvido com a história até hoje — completou Stanton.
De fato, todos os componentes mágicos da Pixar já estavam lá: a criatividade, a sensibilidade, a comicidade, o desenvolvimento dos personagens, a alternância das sequências de ação com os momentos reflexivos sobre o comportamento humano. De partida, o estúdio mostrou sua capacidade de se comunicar tanto com as crianças quanto com os adultos — não só pela nostalgia despertada pelos brinquedos, mas também por abordar temas cinzentos em cenários coloridos, como a inevitabilidade da mudança, o abismo do ego e o medo da obsolescência.
E o primeiro Toy Story ainda legou uma canção imortal, doce na melodia e certeira na letra, You've Got a Friend in Me, de Randy Newman, no Brasil traduzida como Amigo Estou Aqui: "Amigo, estou aqui! / Amigo, estou aqui! / Os seus problemas são meus também / E isso eu faço por você e mais ninguém / O que eu quero é ver o seu bem / Amigo, estou aqui! / Amigo, estou aqui!".
O sucesso de "Toy Story"

A receptividade foi estrondosa e imediata: por três semanas consecutivas, Toy Story liderou o ranking das bilheterias nos cinemas dos Estados Unidos. Orçado em US$ 30 milhões, o filme arrecadou US$ 401,1 milhões no total (contando seus relançamentos). Logo veio a sua sequência, Toy Story 2 (1999), que faturou quase meio bilhão de dólares. Cifras bilionárias foram atingidas por Toy Story 3 (2010) e Toy Story 4 (2019), e em 2026 teremos Toy Story 5 (leia mais no fim da coluna).
O primeiro Toy Story foi a primeira animação a concorrer ao Oscar de melhor roteiro original. Também foi indicado nas categorias de música, composta por Randy Newman, e canção original, com You've Got a Friend, e ganhou um prêmio especial pela inovação tecnológica.
Em entrevista para a Time, John Lasseter afirmou que as prioridades estabelecidas com Toy Story permaneceram as mesmas na Pixar: cada história idealizada exige algo que o estúdio não sabe como fazer, então seus cineastas, animadores e engenheiros da computação inventam a tecnologia necessária. É a história a ser contada que impulsiona o desenvolvimento digital.
Na mesma reportagem, Lasseter disse que não mede o sucesso de Toy Story ou mesmo da Pixar pela quantidade de longas-metragens já produzidos pelo estúdio (29), de dinheiro arrecado por seus filmes (mais de US$ 17 bilhões) ou de conquistas no Oscar (23 no total até agora, incluindo os curtas). Cinco dias após a estreia da aventura de Woody, Buzz e companhia, enquanto esperava no aeroporto um voo de conexão para Dallas, o cineasta ganhou um prêmio que não pode ser mensurado:
— Havia um garotinho com a mãe segurando um boneco do Woody. A expressão no rosto dele eu jamais esquecerei. Foi a primeira vez que vi um personagem que criamos nas mãos de outra pessoa. Penso nisso todos os dias: aquele personagem não me pertencia mais, pertencia a ele.
As continuações de "Toy Story"

O sucesso de Toy Story já rendeu três sequências e um filme derivado. No ano que vem, teremos o quinto título na cronologia oficial. Saiba mais sobre cada um deles:
Toy Story 2 (1999)

De John Lasseter. Quando Andy sai de férias, um colecionador de brinquedos rapta Woody, então Buzz Lightyear e seus amigos entram em uma missão de resgate. Mas o caubói é tentado pela ideia de viver para sempre em um museu.
Além de, novamente, enaltecer o valor da amizade, Toy Story 2 oferece uma exemplar reflexão sobre o consumismo desenfreado. Pensado inicialmente para ser lançado apenas em vídeo, acabou superando a bilheteria do primeiro filme, com US$ 487 milhões. Concorreu ao Oscar de melhor canção original (When She Loved Me, de Randy Newman) e ganhou o Globo de Ouro de melhor comédia ou musical. (Disney+)
Toy Story 3 (2010)

De Lee Unkrich. Mais de 10 anos após Toy Story 2, o reencontro com a querida turma de brinquedos liderada pelo caubói Woody e pelo robô Buzz Lightyear tem um tom melancólico. O outrora menino Andy está saindo de casa rumo à universidade, o que faz os bonecos há muito escanteados temerem por seu destino. Eles acabam indo parar em uma creche, onde são hostilizados por uma gangue chefiada por um urso de pelúcia traumatizado pelo abandono de seu antigo dono.
A risada das crianças está garantida, enquanto os adultos não seguram a emoção diante de temas como o fim da infância, o tempo que parece passar voando e a hora de os filhos saírem de casa. Toy Story 3 faturou US$ 1,06 bilhão nas bilheterias, recebeu o Oscar de animação e o de canção original (We Belong Together, por Randy Newman) e disputou mais três categorias na premiação da Academia de Hollywood: melhor filme, roteiro adaptado e edição de som. (Disney+)
Toy Story 4 (2019)

De Josh Cooley. Os brinquedos que eram de Andy agora estão com a pequena Bonnie. Consequentemente, Woody não tem mais a mesma ascendência: sua estrela de xerife volta e meia vai parar no peito de Jessie, e há uma "prefeita" no armário da guriazinha, a boneca Dolly. A trama foi escrita a partir da pergunta "O que aconteceu com Betty?", o abajur de porcelana visto pela última vez em Toy Story 2 (1999), e que agora encarna a mulher independente e destemida, tendo a seu lado outra garota, Isa Risadinha. Há até uma vilã, digamos assim, Gabby Gabby, a boneca relegada ao esquecimento e à amargura porque lhe falta voz — extrapolando no simbolismo, é a mulher que sofre calada porque ninguém a escuta.
Dosando comicidade com temas dolorosos — abandono, sentimento de exclusão, depressão —, Toy Story 4 arrecadou US$ 1,07 bilhão e conquistou o Oscar de animação. O filme também competiu na categoria de canção original, com I Can't Let You Throw Yourself Away, de Randy Newman. (Disney+)
Lightyear (2022)

De Angus MacLane. Este é o filme que o menino Andy, de Toy Story, assistiu e que o fez pedir de presente um boneco do personagem Buzz Lightyear. Ou seja, estamos diante de um astronauta "de verdade", que não tem mais a voz de Tim Allen, mas a de Chris Evans, que empresta a sua dignidade de Capitão América (na versão dublada, a interpretação é de Marcos Mion).
É uma aventura de ficção científica com visual mais realista, robôs perigosos e paradoxos das viagens no tempo. Não chega a ser ruim, mas falta coração. Faltou também reconhecimento do público — foram somente US$ 226,4 milhões arrecadados nas bilheterias — e do Oscar: sequer foi indicado ao prêmio de melhor longa de animação. (Disney+)
Toy Story 5 (2026)

De Andrew Stanton e McKenna Harris. O filme deve abordar o impacto da tecnologia no brincar das crianças, com a substituição dos brinquedos tradicionais por dispositivos eletrônicos. A turma enfrenta uma ameaça representada por tablets com inteligência artificial em formato de sapo: a antagonista da história se chama Lilypad.
No trailer recém divulgado, os fãs são apresentados a essa nova personagem, que tem a voz original em inglês de Greta Lee, atriz de Vidas Passadas (2023) e Tron: Ares (2025). No elenco de vozes em inglês, Tom Hanks retorna como o leal cowboy Woody; Tim Allen volta a interpretar o astronauta Buzz Lightyear; Joan Cusack "calça de novo suas botas" como a destemida Jessie; e Tony Hale dá outra vez voz ao brinquedo artesanal Garfinho. O apresentador de TV Conan O'Brien se junta ao time como Smarty Pants, um brinquedo tecnológico criado para ensinar crianças a usar o banheiro. (Estreia nos cinemas prevista para 18 de junho de 2026)
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