
Os 120 anos de nascimento de Erico Verissimo, que veio ao mundo em 17 de dezembro de 1905, ganharão uma homenagem em dose dupla neste sábado (15), às 16h, em Porto Alegre. No Memorial Erico Verissimo do Espaço Força e Luz (Rua dos Andradas, 1223), a editora Companhia das Letras lança a nova edição de Ana Terra, livro que integra a saga O Tempo e o Vento (1949-1962), e a adaptação em quadrinhos de Incidente em Antares (1971), último romance do escritor gaúcho, que morreu em 28 de novembro de 1975.
Participam do lançamento a jornalista, tradutora e doutora em história moderna Fernanda Verissimo, neta de Erico e filha de Luis Fernando Verissimo (1936-2025), a escritora Natalia Borges Polesso e dois dos três autores da HQ — o roteirista Rafael Scavone e o desenhista Olavo Costa (completa o time a colorista Mariane Gusmão). O ator Tarcísio Filho lerá trechos das obras. A entrada é franca, com retirada de senhas a partir das 15h.
Mistura de sátira política com realismo mágico, Incidente em Antares é uma das obras mais celebradas de Erico. A trama se passa em 1963 e está ambientada em uma fictícia cidade gaúcha às margens do Rio Uruguai. Por causa de uma greve geral dos trabalhadores, que inclui os coveiros, os finados deixaram de ser enterrados. No dia 13 de dezembro, sete defuntos insepultos levantaram de seus caixões, tornando-se, possivelmente, os primeiros zumbis da literatura brasileira.
Os mortos-vivos são: Quitéria Campolargo, a matriarca de Antares, que não resistiu a um infarto; Barcelona, um sapateiro anarcossindicalista, vítima de um aneurisma; Menandro Olinda, pianista genial que, com depressão, se suicidou; Cícero Branco, advogado brilhante, morto por causa de um AVC; João Paz, jovem torturado até a morte pela polícia; Pudim de Cachaça, um alcoolista envenenado pela esposa; e Erotildes, prostituta que teve tuberculose.

Os sete cadáveres falantes começam a perambular por Antares, exigindo um enterro digno. Agora sem medo de represálias, ao interagir com parentes e amigos eles revelam segredos, hipocrisias e crimes da sociedade, do empresariado, da classe política e da polícia. "Voltam à cidade para julgar os vivos, aqueles que estão moralmente mortos", como bem resumiu o historiador e crítico literário Flavio Loureiro Chaves em entrevista concedida a Patrícia Lessa Flores da Cunha e publicada em Zero Hora no dia 28 de julho de 2012.
Na mesma conversa, o autor do livro Erico Verissimo: O Escritor e seu Tempo (2001) destacou a bravura política do romancista gaúcho, que ousou fazer uma alegoria da ditadura militar no Brasil (1964-1985) durante os chamados anos de chumbo — o período de maior repressão, que vai de 1968 a 1974. A data 13 de dezembro, por exemplo, não foi escolhida aleatoriamente: coincide com o dia, em 1968, em que foi decretado o Ato Institucional nº 5, o AI-5, que fechou o Congresso Nacional, cassou mandatos e suspendeu direitos e garantias individuais. A trama denuncia a arbitrariedade, a corrupção, a censura, a manipulação da verdade e a tortura.
— Erico era de uma coragem absoluta, na literatura e fora dela _ disse Loureiro Chaves. — Quando se tratou de protestar contra a censura, duas vozes se ergueram: a de Jorge Amado (escritor baiano, 1912-2001) e a dele. Quando foi publicado Incidente em Antares, a editora (Globo) produziu uma tiragem de apenas mil exemplares, com medo de que a edição fosse apreendida. Erico teve uma ideia genial: a primeira edição circula com uma cinta, combinada a outdoors nas ruas, com os dizeres: "Num país totalitário, este livro seria proibido". Acontece que o país era totalitário, mas, a partir daí, o livro não foi proibido. São coisas que o tempo vai soterrando, mas, em 1971, quantos escritores protestaram? Quantos Incidente em Antares apareceram? Todos preferiam dizer que tinham livros guardados na gaveta, mas não apareceu nenhum. É o momento em que a UFRGS (em 1973) atribui a Erico o título de doutor honoris causa, e ele rejeita a homenagem com o argumento de que não pode aceitá-la de uma universidade sob ocupação militar e que cassa professores e alunos. Não esqueçamos que, nesse momento, quem dizia isso era mutilado em câmaras de tortura. Em outra ocasião, Erico saiu de casa e foi ao QG do III Exército exigir a libertação de Reynaldo Moura (escritor), que tinha acabado de ser preso. Erico entrou no III Exército, e o comandante, general Justino Alves Bastos, reuniu a oficialidade no salão nobre para apresentá-la ao "maior escritor do Rio Grande do Sul". Moura era idoso e angelical, mais ainda do que Mario Quintana. No dia seguinte, ele foi libertado.

Incidente em Antares já havia originado uma minissérie de TV da Globo, produzida em 1994 e estrelada por Fernanda Montenegro, Paulo Betti, Marília Pêra, Gianfresco Guarnieri, Diogo Vilela, Elias Gleiser e Ruy Rezende, e uma peça de teatro do Grupo Cerco, de Porto Alegre, vencedora do Prêmio Braskem Em Cena de melhor direção (Inês Marocco), atriz (Martina Fröhlich) e espetáculo pelo júri popular.
O romance tem quase 500 páginas, e a adaptação em quadrinhos, 184 (com o preço de R$ 119,90 na versão física e de R$ 49,90 no E-book). Como observa o escritor e crítico Sérgio Rodrigues no posfácio, o roteirista Rafael Scavone deixou de lado toda a primeira parte do romance — que traça paralelos entre a história do Brasil e a do RS com a da cidade —, "além de duas toneladas de detalhes e subtramas". Ao se concentrar no incidente e nos seus desdobramentos, Scavone consegue flagrar o "Erico inusitado, impiedoso, sardônico, picaresco", como enumerou o romancista gaúcho Josué Guimarães (1921-1986) em uma resenha do livro publicada em Zero Hora em 1971.
O roteirista aposta basicamente em diálogos, estratégia que dá movimento a uma história que, sim, depende bastante do texto, da prosódia e do vocabulário dos personagens, das nuances de cada palavra. Ao seu lado, Olavo Costa dota o elenco de muita expressividade e aproveita os raros solos da arte para criar respiro na leitura e explorar cenários — por falar nisso, ele estudou o mapa de Antares desenhado pelo próprio Erico Verissimo. As cores de Mariane Gusmão distinguem os mortos dos vivos sem jamais desarmonizar o conjunto.
Há monólogos impagáveis, como este do advogado Cícero, que funciona como uma síntese do poder corruptor do dinheiro e da capacidade da sociedade de se tornar insensível ao sofrimento de quem é perseguido e violentado durante uma ditadura: "Quando um homem como eu se mete com gente da laia do Vivaldino e do Tibério, fica tão enredado, tão comprometido, que o remédio é continuar, senão, está perdido. A princípio costumava ter peso na consciência, dormia mal, me recriminava, prometia a mim mesmo romper com a camarilha. Mas o dinheiro, que para alguns cheira mal, para mim tinha um perfume paradisíaco. O dinheiro, o sucesso e a boa vida".
E algumas passagens são extremamente pungentes, como a visita de João Paz a sua esposa, Ritinha, que carrega no ventre o filho do casal. Com o rosto desfigurado pela truculência policial, o morto-vivo faz um último pedido à mulher. "Não abra os olhos. Esquece que me viste assim. Abre as janelas. Deixe entrar o sol e o vento para que varram o meu rastro podre. Fica naquela manhã clara, naquele barco, no rio..." — o domingo em que, durante um passeio, Ritinha revelou a gravidez. "Nós íamos ter um filho", lembra João. "Éramos donos do mundo!"
Desafios e prazeres de adaptar clássico de Erico

Autor do roteiro da adaptação em quadrinhos do romance Incidente em Antares, de Erico Verissimo, Rafael Scavone nasceu em Porto Alegre, em 1982, e é historiador de formação. Desde 2019, se dedica à produção de HQs, como Funny Creek (Pipoca & Nanquim, 2023, com Eduardo Medeiros e Rafael Albuquerque) e Hailstone (Darkside, 2022 com Rafael de Latorre).
Paulistano nascido em 1986, o desenhista Olavo Costa ilustrou dois quadrinhos finalistas do prêmio Jabuti, ambos em parceria com o roteirista Felipe Pan e a colorista Mariane Gusmão e ambos publicados pela Nemo: Gioconda (2021) e O Menino Rei (2022).
Por e-mail, Scavone e Costa concederam a seguinte entrevista:
Qual foi o maior desafio na adaptação de Incidente em Antares? Quanto tempo levou a produção da HQ?
Rafael Scavone: Creio que o maior desafio para o roteiro foi o tamanho da obra original. É um livro de 500 páginas, denso, com muitos diálogos e coisas incríveis acontecendo. Então, levei mais tempo na preparação e seleção do que entraria do que escrevendo em si. Tudo isso tomando o cuidado para manter a HQ o mais fiel possível ao livro do Erico. Foram uns seis meses para ter o roteiro planejado e escrito. Depois veio a arte e cores, então, no total, foram uns três anos de trabalho.
Olavo Costa: Eu não estava acostumado a produzir HQs com muito mais do que cem páginas, e essa tem quase duzentas. Foram pouco mais de dois anos desenhando (com algumas interrupções, é claro, mas mesmo assim, é tempo pra caramba). Além disso, são sete protagonistas em cenas que se desenrolam ao longo de muitas páginas. Então o artista, a partir do roteiro, tem que "coreografar" essas cenas pra que tudo funcione nas interações entre personagens na hora de decupar as páginas.
E qual foi o maior prazer no trabalho, ou a maior descoberta no livro de Erico Verissimo?
RS: Incidente em Antares é um dos meus livros preferidos, então eu já estava bem familiarizado com a obra. Mas como tudo do Erico, quanto mais você relê, mais vai percebendo as camadas e as nuances que ele coloca em diálogos que, à primeira vista, parecem banais. Desnecessário dizer que isso também foi o meu maior pesadelo na adaptação, quando às vezes tive que abrir mão de cenas e personagens que já eram queridos para mim.
OC: Desenvolver visualmente personagens que só existem no texto escrito é um dos pontos altos do processo criativo para o artista. Mas acho que a minha parte favorita costuma ser a de planejar as páginas: trabalhar a composição dos quadros a partir de esboços, definindo onde entra o texto, o que se revela na cena… Já em relação ao livro original, foi muito legal redescobri-lo. Como não era leitura obrigatória nos meus tempos de estudante, só conhecia marginalmente o enredo principal.
Vocês têm algum personagem preferido? Quem e por quê?
RS: Pergunta difícil, mas acho que o advogado, Cícero Branco. Não só pelo senso de humor dele, mas também porque ele funciona como uma espécie de mestre de cerimônias de todo o incidente narrado no livro.
OC: Apesar dos muitos defeitos da personagem, gostei muito de desenhar a Dona Quitéria. A morte talvez tenha lhe trazido alguma simpatia.
E alguma passagem da história marcou mais vocês? Qual e por quê?
RS: Outra pergunta difícil, já que são muitas passagens marcantes, mas como o livro tem muito humor, eu elegeria duas passagens tristes. A primeira é quando Erotildes vai visitar a sua amiga Ritinha. A última fala dessa passagem sempre me dá um nó na garganta. A outra é quando João Paz vai visitar a sua esposa, que está grávida, essa também sempre me corta o coração quando leio. São duas passagens muito fortes e emotivas, e escancaram a realidade de violência — direta ou implícita — da nossa sociedade.
OC: Acho que a cena do coreto, que é o meio que o clímax da história, ficou bem legal. Toda a construção da cena, usando a praça pública como uma espécie de tribunal, onde, apesar dos salamaleques dos advogados, algumas verdades são expostas de maneira crua. As cores (que foram feitas com a Mariane Gusmão) dão o toque pra que essa cena vá ganhando intensidade, desde um azul tranquilo do meio-dia até um quase vermelho dramático do fim de tarde.
Como foi a "escalação do elenco"? Houve modelos de inspiração para o desenho dos personagens?
RS: Ah, houve sim! O Olavo, aliás, se divertiu definindo esse "elenco". Temos desde políticos da atualidade até personalidades da história recente do Brasil. O leitor atento vai identificar algumas fisionomias conhecidas na obra.
OC: Olha, algumas personagens foram livremente inspiradas na versão televisiva. É o caso do Paulo Betti como Cícero Branco, do Mauro Mendonça como Geminiano ou do Oswaldo Loureiro como Inocêncio Pigarço. Já a Dona Quitéria tem algo da Fernanda Montenegro, mas também um tanto do conde Drácula (do Coppola) vivido pelo Gary Oldman (em sua versão mais caquética, é claro, com aquele penteado exótico)… Em outros casos, mudamos completamente, seja para bater com a descrição original do Erico (no caso do Barcelona, por exemplo) ou porque achamos que faria sentido para a história (no caso do João Paz). E há ainda algumas referências a figuras políticas, como o promotor Dr. Mirabeau, livremente inspirado num recente ocupante da Procuradoria-Geral da República, ou o Padre Pedro-Paulo, inspirado num jovem Frei Betto, apesar de que, dizem as más línguas, tenha ficado meio parecido com o Renato Russo…
Os diálogos são, não raro, extensos. Como vocês trabalharam para encontrar um equilíbrio entre o texto e a arte?
RS: A ideia foi preservar o texto do Erico da melhor forma possível. Para tanto, e para funcionar na linguagem de HQ, algumas falas tiveram que ser encurtadas, mas sempre nas palavras do Erico. Não deixar a leitura pesada foi uma preocupação constante nossa, então muita coisa ficou apenas para a arte, que é também onde reside a magia das HQs. No final, a HQ ficou com 170 páginas de história, mas que flui muito bem! Estou bem feliz com o equilíbrio que chegamos.
OC: Certamente há páginas com bastante texto. O discurso juridiquês empolado é uma marca do advogado Cícero Branco, de outros personagens que se acham importantes e também do padre idealista Pedro Paulo. A gritaria é a regra quando o coronel Vacariano, o delegado Inocêncio ou o sindicalista Geminiano entram em cena. Porém, há outras cenas em que o silêncio também "fala alto", momentos mais dramáticos (como os da visita de João a Ritinha), personagens melancólicos (como o professor e maestro Menandro). E todos os diálogos são muito saborosos…
Incidente em Antares é uma sátira política que equilibra humor e contundência e que, já no início dos chamados anos de chumbo, ousou criticar a ditadura militar. O que vocês entendem que continua atual ou que é atemporal no romance?
RS: Na minha opinião, o maior mérito dessa obra-prima é justamente a atualidade dela, mesmo depois de cinco décadas da sua primeira publicação. O universo que Erico construiu em Antares é um microrretrato do Brasil. Têm desde o advogado chicaneiro até o policial bandido, passando por políticos de moral duvidosa. Mas o que me soa ainda mais atual é a hipocrisia e o tapetão na política, que está aí, bem presente, basta lembrar que tivemos uma nova tentativa de golpe de estado pouco tempo atrás.
OC: Não sei se acredito muito no conceito de obra que seja (verdadeiramente) atemporal ou universal. Mas o fato de que tivemos, num passado muito recente, um governo militarizado, corrupto e saudoso da ditadura (para não me estender nos deméritos), com figuras dignas de uma sátira do Erico, mostra o quanto a obra é atual.
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