
Predador: Terras Selvagens (Predator: Badlands, 2025), que estreou nos cinemas nesta quinta-feira (6), prova que pode existir evolução no vasto e infinito universo das franquias, continuações, prólogos e refilmagens de Hollywood, onde tudo parece estar sempre sendo reciclado e requentado.
Na verdade, a palavra mais adequada é revolução, pois o filme muda, de novo, praticamente tudo o que sabíamos sobre a saga iniciada há quase 40 anos.
Mistura de três gêneros — ação, ficção científica e terror —, esta franquia remete às de Michael Myers (Halloween), Jason Vorhees (Sexta-Feira 13) ou Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo): não gira em torno de um herói, mas do vilão das histórias. Criado pelos roteiristas Jim Thomas e John Thomas, o personagem veio ao mundo em O Predador (1987), do diretor John McTiernan, que logo depois realizaria Duro de Matar (1988) e Caçada ao Outubro Vermelho (1990).
Nesse primeiro filme, Arnold Schwarzenegger, que já era um astro de Hollywood após títulos como Conan, o Bárbaro (1982), O Exterminador do Futuro (1984) e Comando para Matar (1985), interpreta um militar encarregado pelo governo dos Estados Unidos de liderar uma equipe para resgatar políticos presos na Guatemala. No país da América Central, o esquadrão descobre que está sendo caçado por uma criatura alienígena implacável e sanguinária, com arsenal customizado e aparentemente infinito, força sobre-humana e uma incrível capacidade de camuflagem, entre outros recursos biotecnológicos.

O sucesso comercial — custou entre US$ 15 milhões e US$ 18 milhões e arrecadou quase US$ 100 milhões nas bilheterias — motivou uma continuação: O Predador 2: A Caçada Continua (1990), dirigido por Stephen Hopkins, estrelado por Danny Glover e ambientado em Los Angeles, no contexto do conflito entre as gangues de traficantes. O fraco desempenho financeiro (US$ 57 milhões, contra um orçamento de US$ 30 milhões) e a péssima recepção junto à crítica colocaram o personagem na geladeira.
O exímio caçador extraterrestre só voltou à ativa na metade do século 21, com a produção de dois crossovers, Alien vs. Predador (2004), de Paul W.S. Anderson, e Aliens vs. Predador: Réquiem (2007), de Colin Strause e Greg Strause. Ambos conquistaram um dinheiro decente, mas foram massacrados pelos críticos.
A atriz brasileira Alice Braga foi coadjuvante de Adrien Brody e Laurence Fishburne no elenco de Predadores (2010), de Nimród Antal, e Shane Black dirigiu Boyd Holbrook e Trevante Rhodes em O Predador (2018), que feriu de morte a franquia.

Todos esses filmes se parecem um pouco uns com os outros. Até que em O Predador: A Caçada (2022), que estreou diretamente no streaming (pode ser visto no Disney+), o diretor Dan Trachtenberg — o mesmo do terror Rua Cloverfield, 10 (2016) — e o roteirista Patrick Aison trouxeram dois sopros de novidade. O primeiro foi escalar uma protagonista feminina, Amber Midthunder, e o segundo, ambientar a trama em um passado distante — 1719, na época em que os indígenas ainda dominavam territórios nos Estados Unidos.
Essa ideia disruptiva, a de que os predadores estão colecionando seus troféus há muito mais tempo do que pensávamos, expandiu os limites da franquia. Na companhia do roteirista Micho Robert Rutare, Trachtenberg desenvolveu esse conceito no longa-metragem de animação Predador: Assassino de Assassinos (2025), também lançado somente no Disney+. No filme, uma guerreira viking de 841, um ninja do Japão de 1609 e um piloto de avião da Segunda Guerra Mundial enfrentam caçadores intergalácticos.

Agora, com o maior orçamento de um filme da saga — US$ 105 milhões —, porque todas as cenas precisaram do trabalho da equipe de efeitos visuais, o diretor Dan Trachtenberg volta a se reunir com o roteirista Patrick Aison para revolucionar de novo a saga Predador.
Se você quiser ser totalmente surpreendido, como eu fui, pode parar a leitura por aqui. Mas prometo não dar spoilers sobre Predador: Terras Selvagens.
Novamente, Trachtenberg e Aison trazem dois sopros de novidade. O primeiro foi dar voz e diálogos aos predadores. Pupilo de Paul Frommer, que criou a linguagem do povo Na'vi em Avatar (2009), o linguista Britton Watkins inventou um idioma e sua verbalização para os habitantes do planeta Yautja. O som é gutural, e as palavras, claro, são desprovidas de afeto.
O segundo nem é um sopro, mas um tornado. Pela primeira vez, o predador não é um coadjuvante de luxo, mas o personagem principal, e que passa quase o filme inteiro sem o tradicional capacete. Mais do que o protagonista, o vilão brutal e bidimensional agora é o herói da história, com direito a uma jornada de amadurecimento e ao desenvolvimento da empatia. Podemos torcer por ele sem parecermos sádicos.

O predador do filme se chama Dek e é interpretado pelo dublê neozelandês Dimitrius Schuster-Koloamatangi, 24 anos. O corpo é o de Dimitrius, paramentado pelos times de figurino e maquiagem. Mas o rosto do protagonista demandou a técnica de animação computadorizada com captura de movimento para habilitá-lo a expressões emocionais mais sutis — que poderiam ser muito prejudicadas com o uso de uma máscara e de próteses.
Filmado na Nova Zelândia, sob a direção de fotografia de Jeff Cutter, egresso de Predador: A Caçada, e com design de produção de Ra Vincent, indicado ao Oscar por O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012) e Jojo Rabbit (2019), Predador: Terras Selvagens costura na trama, nos temas e no estilo visual uma série de influências: vão das ilustrações de Frank Frazetta (1928-2010) aos faroestes de Clint Eastwood, de Mad Max 2 (1981) ao game Shadow of the Colossus (2005).
O filme começa com um letreiro que informa: os yautjas não são caçados por ninguém, não são amigos de ninguém e são predadores de todo mundo. Estamos no planeta Yautja, onde a selvageria coexiste com a tecnologia, e onde dois de seus nativos travam um duelo feroz embalado pela épica trilha sonora de Sarah Schachner (outra remanescente de Predador: A Caçada) e Benjamin Wallfisch. Logo descobrimos que eles são irmãos: o mais velho, Kwei (papel de Michael Homik), está preparando Dek para um ritual de passagem.
Franzino para os padrões de Yautja, Dek quer provar seu valor como caçador para obter a aprovação do pai, o implacável Njhorr (também encarnado por Dimitrius Schuster-Koloamatangi), e ascender socialmente. Os manos planejam uma viagem do caçula ao planeta Genna, onde Dek poderia coletar um valiosíssimo troféu: a cabeça do Kalisk, um temido, gigantesco e virtualmente indestrutível animal.
As coisas não saem exatamente como o esperado, o que confere dramaticidade ao filme, mas Dek, enfim, vai parar em Genna. É um ambiente totalmente hostil, onde não apenas a fauna, mas também a flora pode ser letal. Há vermes que explodem, répteis voadores que lançam espinhos paralisantes, galhos que agarram e sufocam, planícies cobertas com grama-navalha — cujo nome é autoexplicativo. Ou seja: o predador, quem diria, virou presa frágil.

Logo Dek vai ganhar um interlocutor, ou melhor, uma interlocutora — e tagarela. Trata-se de Thia (papel de Elle Fanning), personagem que reforça os laços entre as franquias Predador e Alien: as duas compartilham o mesmo universo.
Thia é uma sintética da corporação Weyland-Yutani, como o androide Bishop de Aliens: O Resgate (1986) e Alien 3 (1992), o David de Prometheus (2012) e o Andy de Alien: Romulus (2024). Ela foi dada como morta depois de ser cortada ao meio — está sem as pernas — durante uma expedição à procura do Kalisk. Portanto, também é uma rejeitada, como Dek em seu clã.
E paro por aqui na descrição da sinopse, para não estragar a experiência do espectador. Há, por exemplo, personagens citados em outras críticas que, na minha opinião, deveriam ser mantidos em segredo.
O que dá para contar é que Predador: Terras Selvagens combina a aventura por um mundo novo e inóspito e a ação incessante com subtextos sempre oportunos: é possível escapar da masculinidade tóxica? Quando o ser humano vai parar de agredir a natureza para cooperar com ela?
Um leve spoiler: o final abre margem para uma continuação direta. Mas, enquanto estiver nas mãos de Dan Trachtenberg, nunca saberemos para onde a franquia Predador pode ir, porque o cineasta já mostrou ser adepto da inovação. Em relação a Predador: A Caçada, a única coisa que ele repete em Predador: Terras Selvagens é sua recusa em tirar soluções da cartola: todas já haviam aparecido em cenários e situações mostrados anteriormente, tudo o que aparece aqui poderá ser usado ou até ressignificado lá na frente.
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