
Stephen King é um escritor tão prolífico que no início da carreira precisou criar um pseudônimo para dar vazão a sua produção sem correr o risco de saturar o mercado. Sob o nome Richard Bachman, ele publicou sete romances. Dois deles ganharam adaptações cinematográficas neste ano: A Longa Marcha: Caminhe ou Morra, já disponível nas plataformas de aluguel digital, e O Sobrevivente (The Running Man, 2025), que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (20).
As duas histórias são parecidas. Ambas se passam em uma versão distópica dos Estados Unidos e envolvem um violento e mortífero jogo de sobrevivência, que pode dar ao vencedor um imenso prêmio. Mas os dois filmes são muito diferentes.
A Longa Marcha tem personagens carismáticos, um trabalho bem orquestrado de fotografia e montagem, dramaticidade, suspense e um convite à reflexão sobre os temas abordados (como a obsessão estadunidense pelo sucesso e a dessensibilização da sociedade diante da normalização da violência).
O Sobrevivente não tem nada disso. É só correria (fazendo jus ao título original) e barulheira — aí incluída a onipresença da trilha sonora, que sequer é empolgante ou tensa.
Quem dirige o filme é o britânico Edgar Wright, o mesmo de Chumbo Grosso (2007), Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010), Em Ritmo de Fuga (2017) e Noite Passada em Soho (2021). O personagem principal é encarnado por Glen Powell, coadjuvante em Top Gun: Maverick (2022) e protagonista de Todos Menos Você (2023), Assassino por Acaso (2023) e Twisters (2024).
Powell é uma aposta de Hollywood na busca por um novo Tom Cruise. Spoiler: ele não é. Pode ser um ator bonito, charmoso e disposto para as cenas de ação, mas falta aquela indispensável faísca natural dos grandes astros e falta a ilusão da imprevisibilidade — mesmo as explosões de seu personagem parecem friamente calculadas.
Talvez o único grande mérito de O Sobrevivente seja ser bem mais fiel ao livro publicado por Stephen King em 1982, diferentemente da fuleira adaptação lançada em 1987, sob direção de Paul Michael Glaser e com Arnold Schwarzenegger no papel principal.

Nesse filme ambientado em 2017, o Ben Richards vivido por Schwarzenegger era um capitão da polícia que, após se recusar a abrir fogo contra um protesto, acaba sendo incriminado pelo massacre e forçado a participar de um programa de TV. Durante três horas, ele tem de sobreviver a um torneio do tipo Gladiador montado em um estúdio.
No novo filme, que se passa em 2025, como na trama original, o Ben Richards interpretado por Powell é um trabalhador desempregado por causa de um histórico de insubordinação — na verdade, sua última demissão aconteceu porque tentou salvar colegas de exposição perigosíssima à radiação. Ele precisa desesperadamente de um trabalho para comprar remédios que salvem sua filhinha de dois anos — a não ser que sua esposa, Sheila (Jayme Lawson), comece a se prostituir no bar onde é garçonete.

A solução encontrada por Richards é se candidatar a um dos vários programas de competição promovidos pela Network. Trata-se da rede nacional de TV, que funciona como uma modernização do Coliseu romano, oferecendo entretenimento sangrento para anestesiar o público — um pouco como o próprio filme faz.
Por causa do corpo malhado e do temperamento explosivo de Richards, o chefão Dan Killian (papel de Josh Brolin) entende que o sujeito é perfeito para participar de The Running Man (O Sobrevivente na tradução brasileira), a sádica atração apresentada pelo sardônico Bobby T — personagem de Colman Domingo, indicado ao Oscar por Rustin em 2024 e por Sing Sing em 2025, que saboreia cada palavra.

Os corredores podem ganhar US$ 1 bilhão se sobreviverem durante 30 dias nas ruas das cidades do país. Richards, Jenni Laughlin (vivida por Katy O'Brian) e Tim Jansky (Martin Herlihy) se tornam alvo dos Caçadores — um grupo liderado pelo mascarado Evan McCone (Lee Pace) — e dos cidadãos comuns, que recebem recompensa por dedurá-los ou matá-los.
Há uma série de regras a serem cumpridas e de coadjuvantes que entram e saem de cena, e esses elementos, por um lado, contribuem para tornar menos genérica e menos tediosa a narrativa de O Sobrevivente e sua sucessão de sequências de ação e violência; por outro, inevitavelmente alongam o filme além do necessário — suas duas horas e 17 minutos se fazem sentir. A sensação é de estarmos em uma montanha-russa desgovernada e interminável, mas sem emoção e totalmente previsível.

O mais interessante em O Sobrevivente, ou talvez o mais assustador, é perceber como algumas previsões feitas por Stephen King em 1982 se concretizaram ao longo do primeiro quarto do século 21. O romance imaginou os Estados Unidos sob um governo autoritário e comandado por uma corporação gigantesca que não apenas controla o fluxo de informações: manipula, distorce, falsifica, incita o ódio mútuo. A pobreza é generalizada, o que garante à Network candidatos para seus programas violentos e audiência para os reality shows sobre o cotidiano fútil dos ricos. Há vigilância em massa, destruição ambiental e até o ressurgimento de doenças que já haviam sido erradicadas.
Mas como bem apontou o crítico David Rooney no Hollywood Reporter, o senso de humor e a irreverência de Edgar Wright contrastam demais com o retrato sombrio da desigualdade de classes, da pobreza, da assistência médica inadequada e da repressão policial. Uma coisa é estampar o rosto de Arnold Schwarzenegger nas notas de novo dólar; outra é fazer o personagem de Michael Cera, na hora de incinerar vilões, dizer "Eu gosto do bacon bem tostado".
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