
Em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira (27), o filme Bugonia (2025) reúne três nomes que já se tornaram figurinhas carimbadas no Oscar: o diretor Yorgos Lanthimos, a atriz Emma Stone e o ator Jesse Plemons.
Lanthimos, 52 anos, dirigiu Dente Canino (2009), que disputou o Oscar internacional representando a Grécia. Depois, ele concorreu ao prêmio de melhor roteiro original, por O Lagosta (2016), escrito com Efthimis Filippou, e recebeu duas indicações nas categorias de melhor filme, como um dos produtores, e melhor direção, por A Favorita (2018) e por Pobres Criaturas (2023).
Stone, 37 anos, ganhou duas vezes o Oscar de melhor atriz, por La La Land: Cantando Estações (2016) e por Pobres Criaturas, pelo qual também competiu na categoria de melhor filme, no papel de produtora. Ela foi indicada ao troféu de coadjuvante por Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), em 2015, e por A Favorita.
Plemons, 37 anos, só concorreu uma vez à premiação da Academia de Hollywood, em 2022, como coadjuvante em Ataque dos Cães. Mas na última década o ator integrou o elenco de sete títulos indicados ao Oscar de melhor filme: Ponte dos Espiões (2015), The Post: A Guerra Secreta (2017), Vice (2018), O Irlandês (2019), Judas e o Messias Negro (2020), Ataque dos Cães (2021) e Assassinos da Lua das Flores (2023).

O diretor grego e os dois atores estadunidenses já haviam trabalhado juntos em Tipos de Gentileza (2024), que valeu a Jesse Plemons o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes, mas foi solenemente — e merecidamente — ignorado no Oscar. O mesmo não deve — e nem deveria — acontecer com Bugonia. Nas apostas da imprensa de Hollywood, esta comédia ácida está bem cotada nas categorias de melhor atriz e de roteiro adaptado, assinado por Will Tracy (um dos produtores da série Succession) e baseado em Save the Green Planet!, nome em inglês do filme sul-coreano Jigureul Jikyeora! (2003), de Jang Joon-hwan.
Bugonia talvez seja a obra mais acessível de Yorgos Lanthimos, um cineasta célebre por provocar desconforto, choque ou perplexidade no público. Mas continua sendo um filme de Lanthimos: tem um olhar misantropo e um pé no bizarro, combina senso de humor com pessimismo, crueldade e violência, examina e ridiculariza as dinâmicas e as figuras de poder.

Na trama, Emma Stone interpreta Michelle Feuer, CEO de uma megacorporação farmacêutica, a Auxolith. Capas de revistas mostram que Michelle é uma estrela do mundo dos executivos. Já no trabalho, é o pavor da área de RH. Na sua empresa, em nome do suposto bem-estar dos empregados, ela estabelece que todos podem ir embora às 17h30min — a não ser que estejam ocupados, tenham coisas a fazer, metas a cumprir etc. O horário de encerramento do expediente não é obrigatório: o funcionário "fica livre para decidir". O timing cômico da atriz deixa cada ponderação mais perversa.
Michelle acaba sequestrada pelo apicultor Teddy (Jesse Plemons) e seu primo autista, Don (interpretado por um ator que tem autismo, Aidan Delbis). A dupla não pede resgate: o motivo não é financeiro.

Teddy acredita que a CEO da farmacêutica é uma alienígena disfarçada, vinda do planeta Andromeda em uma missão maléfica. Os andromedanos estariam dizimando as abelhas, que, com seu trabalho de polinização, respondem por um terço da produção global de alimentos — "É como sexo, mas mais limpo", compara o personagem de Jesse Plemons. "Ninguém se machuca."
Sob o comando de Teddy, os dois primos se prepararam física e mentalmente para o sequestro e o cárcere privado: malharam o corpo e "limparam o cache psíquico" — o que incluiu a castração química, para não ficarem à mercê da sedução de sua vítima. No cativeiro, eles cortam todo o cabelo de Michelle (a propósito, Emma Stone teve sua cabeça raspada de verdade) e besuntam seu corpo com um creme anti-histamínico, para impedi-la de enviar um sinal de socorro. Simultaneamente, Teddy exige que ela marque uma audiência com o imperador andromedano.
Não convém avançar mais na sinopse, mas vale dizer que haverá cenas perturbadoras, sobretudo quando combinadas à trilha sonora composta por Jerskin Fendrix.
Os diálogos travados entre Teddy e Michelle refletem sobre o capitalismo, a polarização política e o comportamento humano — ou talvez a desumanização decorrente da ganância e do radicalismo. O enredo permite a Yorgos Lanthimos satirizar nossa tendência de nos escorarmos no chamado viés de confirmação, ou seja, buscamos e interpretamos informações que validam crenças já existentes, ignorando ou minimizando as evidências contrárias.
O filme vai ao encontro do que o pesquisador Marc-André Argentino, especialista em terrorismo, extremismo violento e combate à radicalização, e conhecido pelos estudos sobre o movimento de extrema direita QAnon, declarou recentemente em entrevista para a repórter Isabella Sander, de GZH. Líder da equipe de análise de dados públicos do Centro Canadense de Engajamento Comunitário e Prevenção da Violência, Argentino afirmou que o QAnon "criou uma população mais vulnerável a teorias conspiratórias" — que vão de "eleições roubadas" à associação entre o uso de Tylenol e o autismo. "É qualquer narrativa que reforce sua visão de mundo", resumiu o pesquisador.
Em Bugonia, quando Don pergunta ao primo se ele tem certeza de que Michelle é uma extraterrestre, Teddy responde: "Os sinais estão claros. Mas você só nota se estiver procurando". O apicultor também prefere encontrar um único culpado para os problemas, sejam os seus ou os do mundo, desconsiderando — de propósito ou por visão obtusa — que quase sempre as razões são multifatoriais. Não à toa, em dado momento Michelle dá-se por vencida em um debate natimorto como muitos que acontecem nas redes sociais: "Não posso mudar sua opinião".
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