
O representante da Argentina no Oscar de melhor filme internacional não vem aparecendo nas apostas da imprensa de Hollywood. Mas Belén: Uma História de Injustiça (Belén, 2025), que está disponível no menu do Amazon Prime Video, tem credenciais que não podem ser desprezadas.
Para começar, há a tradição do cinema argentino, que venceu duas vezes a categoria — com A História Oficial (1985) e com O Segredo dos seus Olhos (2009) — e concorreu em outras seis premiações (a última delas em 2023, com Argentina, 1985). Na América Latina, o país empata com o México no ranking de indicações.
O tema de Belén, a criminalização do aborto, é candente nos Estados Unidos desde que, em 2022, a Suprema Corte anulou a histórica decisão do caso Roe vs. Wade, em 1973, que garantia o direito constitucional federal à interrupção da gravidez. A legalidade do procedimento passou a ser decidida individualmente por cada um dos 50 Estados — aqueles governados por Republicanos (o partido do presidente Donald Trump) implementaram proibições ou restrições severas.
O filme é baseado em uma história real, o que geralmente conta pontos junto à Academia de Hollywood, e pode ser classificado como drama de tribunal, um subgênero bastante apreciado pelos votantes do Oscar.
E existem, claro, os méritos artísticos. Belén comove sem cair na pieguice ou no dramalhão, Belén explica o caso sem se tornar burocrático na narrativa ou na estética, Belén choca sem abdicar da ternura ou até do humor.
Trata-se de uma adaptação do livro Somos Belén (2019), no qual a advogada e feminista Ana Correa reconstitui uma luta judicial que mobilizou não apenas a Argentina — também se envolveu no caso a ONG Anistia Internacional, por exemplo — e que acabou sendo o estopim para a mudança na legislação do país sobre o aborto.
Belén é o segundo longa-metragem dirigido pela atriz Dolores Fonzi. Como na sua estreia, Blondi (2023), ela também faz o papel principal e coassina o roteiro — aqui, com Laura Paredes (outra atriz do filme), Agustina San Martín e Nicolás Britos.
A história começa com um impactante plano-sequência dentro de um hospital público na província de Tucumán, no noroeste da Argentina. Acompanhada pela mãe, chega uma jovem de 20 e poucos anos com fortes dores abdominais. Trata-se de Julieta, personagem interpretada por Camila Plaate, premiada como melhor atriz coadjuvante no Festival de San Sebastian, na Espanha.
Julieta vai ao banheiro e sofre um aborto espontâneo. Ela sequer sabia que estava grávida, mas acaba denunciada por "ter descartado um feto". Ainda na cama do hospital, é algemada por uma policial. Depois, é condenada cumprir pena na prisão sob a acusação de "homicídio agravado pelo vínculo".

Dolores Fonzi encarna a advogada Soledad Deza, que, após entreouvir uma conversa entre familiares de Julieta, decide se inteirar sobre o caso. Junto a sua sócia, Barbara (Laura Paredes), a protagonista assume a defesa da jovem presa injustamente por um aborto considerado ilegal.
A partir daí, um grupo de mulheres precisa enfrentar tanto o sistema judicial quanto a sociedade, ambos marcados por ideais conservadores, dogmas religiosos e valores patriarcais. Os direitos femininos são negados, cerceados ou, na melhor das hipóteses, menosprezados.
É assinante mas ainda não recebe minha carta semanal exclusiva? Clique aqui e se inscreva na newsletter.
Já conhece o canal da coluna no WhatsApp? Clique aqui: gzh.rs/CanalTiciano


