
A Sala Paulo Amorim da Casa de Cultura Mario Quintana exibe com exclusividade nos cinemas de Porto Alegre um filme bem cotado para o Oscar: Jay Kelly (2025). Dirigida por Noah Baumbach e protagonizada por George Clooney, a comédia dramática tem sessões às 19h30min — e vai estrear na Netflix no dia 5 de dezembro.
Trata-se do 14º longa-metragem de Baumbach, que já concorreu quatro vezes ao Oscar: pelo roteiro original de A Lula e a Baleia (2005), como produtor (na categoria de melhor filme) e roteirista de História de um Casamento (2019) e como coautor do roteiro adaptado de Barbie (2023).
Escrito pelo cineasta com a atriz Emily Mortimer, Jay Kelly é ambientado no mundo do cinema, onde fama, poder e glamour volta e meia escondem bastidores melancólicos, caóticos ou até perversos. Por identificação, autocrítica ou narcisismo, a Academia de Hollywood costuma prestigiar filmes assim — vide as premiações ou indicações de títulos como Crepúsculo dos Deuses (1950), O Dia do Gafanhoto (1975), O Jogador (1992), O Artista (2011) e Mank (2020) —, embora tenha praticamente ignorado Babilônia (2022).

A trama e a encenação de Jay Kelly evocam dois clássicos: Oito e Meio (1963), de Federico Fellini, e Memórias (1980), de Woody Allen, cineasta que se inspirou no filme italiano e é uma grande influência na carreira de Noah Baumbach. Em vez de um um diretor, o protagonista é um astro hollywoodiano em crise existencial — o Jay Kelly do título, interpretado por George Clooney. A Itália é o principal cenário, e as cenas misturam a realidade com lembranças e alucinações.
Nesse universo que fabrica ilusões e no qual a vida artística e a vida pessoal podem se confundir, identidade é um tema crucial, como Baumbach explicita ao utilizar uma epígrafe: "Ser você mesmo é uma enorme responsabilidade. É muito mais fácil ser outra pessoa ou ninguém" (a frase é da escritora Sylvia Plath). Jay Kelly encarnou tantos personagens que talvez nunca tenha se olhado de verdade no espelho.
Tudo começa com um plano-sequência que retrata as filmagens da última cena da mais recente produção estrelada por Kelly. Seu personagem parece ser um detetive, que, depois de ter levado um tiro, morre ao lado de um cachorro. No derradeiro monólogo, o sujeito diz que pôde ver o fim antes do fim — é outro recado direto sobre a jornada do protagonista, que será instado a fazer o balanço de sua vida a partir de um plano frustrado, de uma notícia triste e de um reencontro fortuito.

Jay desejava aproveitar seus raros dias de folga na companhia da filha caçula, Daisy (Grace Edwards), antes que ela vá para a faculdade, mas a garota quer viajar pela Europa com os amigos. Será que a distância entre os dois tornou-se impossível de ser encurtada? Será que essa relação está condenada, como a do ator com a filha mais velha, Jessica (Riley Keough)?
Logo depois, Jay é informado de que o diretor responsável por lançá-lo ao estrelato, Peter Schneider (Jim Broadbent), morreu passando muitas dificuldades. Bate um sentimento de culpa no ator ao lembrar que, alguns meses antes, havia se negado a associar seu nome a um novo filme para ajudar Schneider a conseguir financiamento.

Na saída do funeral, Jay reencontra um antigo colega da escola de teatro, Timothy (Billy Crudup), que o convida para tomar um drinque. A cena entre os dois personagens dura apenas oito minutos, mas pode valer a primeira indicação ao Oscar (na categoria de melhor ator coadjuvante) para Crudup, duas vezes ganhador do Emmy pela série The Morning Show.
Não cabe aqui revelar o teor da conversa e suas consequências, mas o cotejo de Jay Kelly com seu passado vai catalisar uma virada de mesa que deixa em polvorosa todo o estafe do astro: o empresário Ron (Adam Sandler, outra boa aposta para o Oscar de coadjuvante), a assessora de imprensa Liz (Laura Dern), a figurinista e maquiadora Candy (Emily Mortimer), o segurança Silvano (Giovanni Zeqireya)... Jay desiste de iniciar um novo projeto e volta atrás na decisão de não aceitar uma homenagem em um pequeno festival de cinema da Toscana, na Itália — a participação no evento, na verdade, é pretexto para surpreender Daisy durante uma viagem de trem.

Essa viagem tem doses de comédia maluca, doses de publicidade metalinguística (o tributo a Jay Kelly é, no fundo, um tributo a George Clooney) e doses de sentimentalismo barato. Aliás, é melosa demais a música composta por Nicholas Britell, indicado ao Oscar por Moonlight (2016), Se a Rua Beale Falasse (2018) e Não Olhe para Cima (2021) e premiado no Emmy pela série Succession (2018-2023).
Jay vai se despindo das máscaras públicas e descobrindo que era um corpo sem alma, mas esse desnudamento é mais suavizado do que se poderia esperar do diretor dos crus e dolorosos A Lula e a Baleia e História de um Casamento. No site Mídia Ninja, a crítica, atriz e diretora Lilianna Bernartt resumiu bem: é como se Noah Baumbach "colocasse açúcar em cada possibilidade de angústia".
Ainda assim, Jay Kelly acerta um nervo — e até consegue transcender o subgênero da celebração do cinema. O filme tem algo a dizer sobre todos nós que desempenhamos dois, três ou mais papéis: na vida pessoal, na vida profissional, na vida familiar... As lições aprendidas pelo protagonista encarnado por George Clooney valem para qualquer pai que já colocou o trabalho na frente dos filhos. (O personagem de Adam Sandler faz uma espécie de contraponto, tentando priorizar a família e, mesmo do outro lado do Atlântico, lendo uma história para o filho pequeno dormir.)
O tempo corre e atropela boas intenções. Ao contrário do que acontece em um set de filmagem, quase nunca temos a chance de repetir a cena. A ausência machuca, e o processo de cicatrização pode romper mais ainda o vínculo. Às vezes, como aprende Jay Kelly, tudo o que sobra é só um filme que passa na memória.
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