
Os números não mentem: Furiosa: Uma Saga Mad Max (Furiosa: A Mad Max Saga, 2024), que estreou neste domingo (16) na Netflix, foi um retumbante fracasso comercial. Custou US$ 168 milhões, fora os gastos com marketing, e arrecadou US$ 172,7 milhões nas bilheterias. O prejuízo colocou em xeque os planos do cineasta australiano George Miller de realizar novas aventuras no mundo pós-apocalíptico que criou há 45 anos.
É uma pena, porque Furiosa é um filmaço, sobretudo para quem curte cenas de ação que parecem estar realmente acontecendo. Há duelos corpo a corpo ou motorizados e perseguições de carro, de moto, de caminhão, a cavalo ou até via aérea no vasto deserto em que a Austrália se transformou.
Hoje com 80 anos, Miller volta a oferecer uma tremenda lição a cineastas mais jovens que apresentam sequências sujas e confusas como sinônimo da urgência e do caos de um combate. Na companhia do diretor de fotografia Simon Duggan, da dupla de editores Margaret Sixel (sua esposa) e Eliot Knapman e do coordenador de dublês Guy Norris (creditado como "action designer"), coloca a ação sempre no centro da cena. Que é limpa, digamos, apesar de não raro respingar sangue de mentirinha na lente da câmera. Nada que prejudique o olhar do público, concentrado no meio da tela, seguindo o deslocamento dos personagens, dos veículos, das lanças, das bombas e de outras peças de um arsenal entre o arcaico e o engenhoso.
A monocromia e a amplidão dos cenários são aliados de peso, indicando profundidade e destacando no que devemos prestar atenção. Por falar em cores, vale dizer que, a exemplo de Mad Max: Estrada da Fúria (2015), Furiosa ganhou uma versão especial em preto e branco, a Black and Chrome, com mais contraste e saturação, atualmente indisponível no streaming.

Furiosa é o quinto filme da franquia. Todos foram dirigidos por Miller, também coautor dos roteiros que, por meio da brutalidade e da punição, evocam o passado da Austrália, colônia penal da Inglaterra entre 1788 e 1868. Cada título pode ser visto de forma autônoma, não existe uma linha cronológica bem definida, embora se perceba uma progressão nos elementos distópicos, uma expansão no chamado worldbuilding, a construção do universo narrativo.
Em Mad Max (1979, disponível na HBO Max), que custou algo entre US$ 350 mil e US$ 400 mil e faturou US$ 100 milhões, a trama está ambientada "daqui a alguns anos". Apesar da escassez de recursos e da violência desenfreada, ainda existem as cidades como as conhecemos e até a polícia.
O protagonista, Max Rockatansky (papel que catapultou Mel Gibson), é o craque das perseguições automobilísticas, na verdade, das agressivas interceptações nas estradas australianas. Depois de provocar a morte de um ladrão de carro, ele acaba atraindo a revolta da gangue de motoqueiros comandada pelo cruel Toecutter (Hugh Keays-Byrne).

A abertura de Mad Max 2: A Caçada Continua (1981, também no menu da HBO Max) contextualiza: a disputa pelo petróleo causou uma guerra de proporções catastróficas entre as potências mundiais. O planeta se tornou uma terra árida e sem lei. A bordo de um Ford Falcon V8 envenenado, o solitário Max segue patrulhando as rodovias enquanto remói as dores do seu passado.
Aqui, Miller firma o parentesco de sua saga futurista com os faroestes. A desolada Wasteland do interior australiano remete ao deserto dos clássicos de John Ford, como No Tempo das Diligências (1939) e Rastros de Ódio (1956). O personagem de Gibson é como um caubói, um homem de poucas palavras, em uma história de vingança. Que é filmada à moda antiga, ou seja, com poucos cortes, tendo paciência para observar a paisagem tétrica — e lançando mão de closes à la Sergio Leone nos momentos de tensão. A refinaria de gasolina transformada em comunidade é como se fosse o forte ou o vilarejo a ser ameaçado por um bando de saqueadores, e Max surge como o estranho sem nome vivido por Clint Eastwood no filme homônimo de 1973. Seu carro é seu cavalo.
O extravagante Mad Max 3: Além da Cúpula do Trovão (1985, igualmente na HBO Max) aproxima a franquia dos épicos ambientados na Roma do Coliseu. Após chegar a uma cidade cheia de arruaceiros e governada pela traiçoeira Tia Entity (a cantora Tina Turner), Max se torna um gladiador.
Ao fechar a trilogia, Miller resolveu se dedicar a outros gêneros. Fez comédias (As Bruxas de Eastwick, 1987), dramas (O Óleo de Lorenzo, 1992), infantis (coescreveu Babe: O Porquinho Atrapalhado, de 1998, e dirigiu sua continuação, em 1998), animações (Happy Feet: O Pinguim, 2006, que lhe valeu o Oscar da categoria, e Happy Feet 2, 2011). Mas nunca abandonou a ideia de voltar a Mad Max. Só que enfrentou toda sorte de obstáculos: dificuldades financeiras, o 11 de Setembro, a recusa de Mel Gibson em retomar o personagem...
Até que nasceu o grande sucesso da série, Mad Max: Estrada da Fúria (2015, disponível na Netflix e no Amazon Prime Video), que arrecadou US$ 380 milhões, conquistou seis prêmios no Oscar — edição, design de produção, figurino, maquiagem, edição de som e mixagem de som — e concorreu a outros quatro, incluindo os de melhor filme e direção. Furiosa, por sua vez, não recebeu nenhuma indicação.

Estrada da Fúria abriu um novo caminho. Agora encarnado por Tom Hardy, Max Rockatansky faz uma narração em off durante os créditos iniciais do filme e é a primeira pessoa que vemos em cena, de costas para nós, urinando à beira de um penhasco em um deserto de cores intensas e mastigando um lagarto, pouco antes de ser capturado pelos soldados de corpo embranquecido do tirano Immortan Joe.
Mas a principal personagem é a Imperatriz Furiosa interpretada por Charlize Theron, que se rebela contra o cruel governante da Cidadela: resolve resgatar as Cinco Noivas, as mulheres que o vilão mantinha aprisionadas para lhe trazer filhos "perfeitos". É o ponto de partida para uma caçada incessante e eletrizante.
Furiosa é o que Hollywood classifica como prequel, um filme que narra eventos anteriores ao da história original. No caso, o público é convidado a visitar a infância e a juventude de Furiosa, interpretada primeiro pela promissora Alyla Browne (da minissérie As Flores Perdidas de Alice Heart) e depois por Anya Taylor-Joy, hoje um dos nomes mais quentes na indústria cinematográfica. Merecidamente: mesmo com pouquíssimas falas, ou talvez por isso mesmo, a atriz se impõe.

Na cena de abertura, em um oásis verde, a menina Furiosa está colhendo uma fruta. Como se tivesse cometido o pecado de Eva, vai acabar sendo sequestrada por motoqueiros liderados por Dementus, personagem que permite a Chris Hemsworth mesclar seus conhecidos dotes cômicos com um insuspeitado talento para a vilania.
O roteiro escrito por George Miller e Nico Lathouris vai revelar, por exemplo, como Furiosa perdeu seu braço esquerdo e como montou seu veículo de guerra. Segue uma cartilha básica das tramas de vingança — ainda que entabule reflexões pertinentes sobre seu poder corrosivo — e até pede que o espectador não dê bola para perguntas que ficam sem resposta (como quanto à falta de reação diante de um certo desaparecimento na Citadela). Mas Furiosa tem uma série de trunfos que o alçam ao pódio das superproduções hollywoodianas.
Tudo contribui para fazer do filme um espetáculo imperdível, e nada fica em segundo plano. Furiosa não seria o que é sem os figurinos concebidos por Jenny Beavan (vencedora do Oscar por Estrada da Fúria e também por Uma Janela para o Amor e Cruella) e o trabalho primoroso do time de maquiagem, por exemplo. Ou sem o enorme elenco de coadjuvantes, que inclui Charlee Fraser, da comédia romântica Todos Menos Você (2023), como a destemida mãe da protagonista, Lachy Hulme assumindo o lugar do finado Hugh Keays-Byrne atrás da máscara de Immortan Joe e George Shevtsov na pele enrugada e tatuada do Historiador, o ancião aprisionado por Dementus que comenta o pendor belicista da humanidade.
Aliás, em um mundo assustado por guerras (como entre a Rússia e a Ucrânia e entre Israel e o Hamas), pelas mudanças climáticas e pela ascensão de líderes messiânicos e populistas, Furiosa sequer pode ser visto como diversão escapista. Trata-se, como bem resumiu no Letterboxd o cineasta Kleber Mendonça Filho — que referenciou Mad Max 2 em Bacurau (2019, codirigido por Juliano Dornelles) —, da "versão pesadelo daquele sucesso (Estrada para Fúria), uma obra conceitual mais selvagem, mais violenta, mais sombria e sinistra, excessiva e obcecada ao ponto de dar angústia".
Por mais que as cenas de ação sejam deslumbrantes, por mais que sequências como a do ataque ao comboio do Pretorian Jack (Tom Burke, o Orson Welles de Mank) maravilhem o olhar, há sempre um travo amargo — sublinhado pela aterrorizante trilha sonora composta pelo holandês Tom Holkenborg, uma espécie de marcha fúnebre em tom acelerado e com roncos de motor, como condiz a personagens que estão constantemente na estrada, o tempo todo correndo para matar ou morrer.
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