
Ressurgiu no menu da Netflix Ilha do Medo (Shutter Island, 2010), segundo maior sucesso de público na carreira do diretor Martin Scorsese e uma das seis parcerias do cineasta com o ator Leonardo DiCaprio. Veio depois de Gangues de Nova York (2002), O Aviador (2004) e Os Infiltrados (2006) e antes de O Lobo de Wall Street (2013) e de Assassinos da Lua das Flores (2023).
Nas bilheterias, o filme faturou US$ 294,9 milhões — só perde para O Lobo de Wall Street, que arrecadou US$ 392 milhões. Por outro lado, Ilha do Medo é o único dos últimos nove longas-metragens de ficção de Scorsese que não concorreu ao Oscar.
O próprio diretor não é muito fã desse título, tanto por causa das críticas negativas quanto pelos problemas enfrentados na produção (logísticos e meteorológicos) e na pós-produção ("bateu uma depressão", contou o cineasta no livro Conversas com Scorsese, de Richard Schickel).
O thriller policial é baseado em um romance do escritor estadunidense Dennis Lehane originalmente lançado no Brasil como Paciente 67, em 2005, e depois rebatizado com o mesmo nome do filme. A dica para quem ainda pretende ver Ilha do Medo é simples: fuja do livro.
Nem é pela questão da inevitável comparação — na verdade, o roteiro escrito por Laeta Kalogridis é bastante fiel à obra de Lehane, autor que também está por trás de Sobre Meninos e Lobos (2003), de Clint Eastwood, Medo da Verdade (2007) e A Lei da Noite (2016), ambos de Ben Affleck, e também das minisséries Black Bird (2022) e Cortina de Fumaça (2025).
Essa fidelidade obriga o leitor convertido em espectador a ter uma dupla personalidade para conseguir esquecer num escaninho da mente toda a história, sob pena de ser privado do suspense, do mistério, da desconfiança — tão necessários para a fruição do filme.
Quem não sabe patavina sobre Ilha do Medo não precisa temer: nada do que será dito daqui para a frente vai além da sinopse publicada no Google ou do que se vê nos minutos iniciais. E faço um convite para quem já assistiu ao filme: reveja, para caçar as pistas espalhadas.

A trama de Ilha do Medo se passa em 1954. Leonardo DiCaprio interpreta o policial do FBI Teddy Daniels, que, na companhia de seu novo parceiro, Chuck Aule (Mark Ruffalo), é mandado para a ilha Shutter, na costa do Estado de Massachussetts, sede de um bem protegido hospital psiquiátrico para criminosos (o nome da ilha é apropriado: em inglês, shutter pode significar "pessoa ou coisa que fecha").
Lá, a dupla vai investigar a fuga de uma paciente, Rachel Solondo, assassina de seus próprios filhos. As buscas são dificultadas pela força da natureza — uma tempestade se aproxima —, por uma certa resistência do médico-chefe, o doutor Cawley (Ben Kingsley), e por um inimigo interno: Teddy é acossado por sonhos e pesadelos envolvendo sua esposa (Michelle Williams) e sua experiência como soldado na Segunda Guerra Mundial.

Para onde essa trama avança caberá ao espectador descobrir, mas pode-se falar de como. Reconhecido esteta na arte de fundir imagem e música, Martin Scorsese, na companhia do diretor de fotografia Robert Richardson e das equipes de cenografia e de efeitos visuais, cria um ambiente opressivo bastante adequado, uma espécie de noir em cores, com ecos de Alfred Hitchcock (1899-1980), para o qual colabora especialmente a trilha sonora. Trata-se de uma parede de som que mescla composições de Brian Eno, Krzysztof Penderecki e John Adams, entre outros — uma mistura que traduz tanto o estado de espírito do protagonista quanto a ideia de quebra-cabeças proposta pelo enredo.
Ainda que por vezes acelere demais o andamento quando deveria ir mais devagar (e vice-versa), o cineasta e seu ótimo elenco — que inclui Max von Sydow, Emily Mortimer, Jackie Earle Haley, Patricia Clarkson e Elias Kotteas — encontram tempo para trazer à tona temas relevantes.

Um deles é como as guerras dessensibilizam os homens e traumatizam os soldados que voltam para casa: de modo geral, todos aqueles que mataram e viram seus companheiros morrer têm de dificuldade de se encaixar de novo na chamada vida normal.
Outro é o peso dos rótulos: uma interna diz que, no momento em que você é classificada como louca, todas suas atitudes passam a ser vistas como sintomas.
E há ainda a luta incessante do indivíduo contra seus próprios fantasmas, uma batalha na qual nem sempre a vitória merece comemoração. Como diz um personagem: melhor viver como um monstro ou morrer como um homem bom?
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