
A Netflix adicionou recentemente ao seu menu Kill Bill: Vol. 1 (2003) e Kill Bill: Vol. 2 (2004), filmes considerados como um só por seu diretor e roteirista, Quentin Tarantino.
Aliás, em dezembro vai estrear nos cinemas (pelo menos nos EUA) uma versão especial que une os dois volumes e inclui cenas inéditas e uma nova sequência em estilo anime. É o chamado Kill Bill: The Whole Bloody Affair.
Portanto, eis um filmaço com mais de quatro horas de duração que celebra o lendário astro das artes marciais Bruce Lee (1940-1973), as séries policiais dos anos 1970, o spaghetti western (o faroeste italiano), o Superman, os mangás e o que mais houver de bacana na cultura pop.
Até a ficção científica tem sua vez: vem da saga Jornada nas Estrelas o provérbio klingon "A vingança é um prato que se come frio" que abre Kill Bill. Trata-se de típica piada de Tarantino, que gosta de alterar e distorcer fatos históricos — vide Bastardos Inglórios (2009), Django Livre (2012) e Era uma Vez em... Hollywood (2019). A frase original está presente no romance francês As Ligações Perigosas (1782), de Choderlos de Laclos.
Com a peculiar estrutura fragmentada do cineasta e os famosos diálogos disparatados, Kill Bill conta a história de uma assassina profissional: Beatrix Kiddo, a Mamba Negra, agora conhecida como A Noiva e vivida por Uma Thurman (que trabalhara com Tarantino em Pulp Fiction).

No dia de seu casamento, em uma igrejinha do Texas, ela é vítima de um massacre ordenado por seu ex-chefe — o Bill do título, interpretado por David Carradine, ator da série de TV Kung Fu na década de 1970. A noiva sobrevive e, após quatro anos em coma, busca sua vingança no fio afiado de uma espada samurai.
As cenas de violência entraram para a história do cinema, mas não exatamente pela crueldade. O balé da pancadaria, o sangue falso que jorra feito chafariz dos corpos mutilados pela Noiva, a filosofia barata dos diálogos, a gritaria e as caretas dos capangas distanciam Kill Bill do mundo real e o aproximam de um desenho animado. Daí o recurso do anime para contar a trajetória de O-Ren Ishii (personagem de Lucy Liu).

O prazer de assistir a Kill Bill aumenta proporcionalmente ao conhecimento que se tem do universo reverenciado por Quentin Tarantino. O macacão usado pela Noiva, por exemplo, é igual ao que Bruce Lee vestiu em O Jogo da Morte (1978). Do seriado de TV O Besouro Verde (1966-1967), o cineasta pegou emprestadas as máscaras e a música-tema.
No volume 2, Tarantino adiciona à saga da Noiva uma história de amor, lágrimas e a verborragia característica.
A protagonista recapitula os acontecimentos do primeiro filme na sequência de abertura, que é decalcada do cinema noir da Hollywood dos anos 1940: em preto e branco, com música de suspense e o cenário projetado ao fundo enquanto a personagem "dirige" em uma estrada do deserto.
ALERTA DE SPOILERS para quem nunca viu o volume 1 de Kill Bill.

Parte da revanche da Noiva foi concluída na primeira parte. Agora, chegou a vez de derrubar o gordo e beberrão Budd (personagem de Michael Madsen), a loira caolha Elle Driver (vivida por Daryl Hannah) e o chefão Bill.
Como é hábito de Tarantino desde o início de sua carreira — vide as múltiplas visões do assalto em Cães de Aluguel (1992) —, o cineasta retorna à cena do crime. O massacre naquela igrejinha do Texas é detalhado — não em sua brutalidade, mas na sua motivação: é uma vingança que desencadeia a vingança acompanhada nos dois volumes de Kill Bill.
ALERTA DE SPOILERS sobre o volume 2.

Mais longo — tem 137 minutos, contra 111 do primeiro —, Kill Bill Vol. 2 dilui a ação frenética. Tem um ritmo mais compassado, a exemplo dos antigos faroestes de Hollywood. É verdade que traz um espetáculo coreografado de hiperviolência — o duelo entre a Noiva com Elle — comparável à sequência na casa de chá de Kill Bill Vol. 1, mas a cena que ninguém esquece é estática.
Quando a personagem de Uma Thurman é colocada dentro de um caixão e enterrada viva, a tela fica terrivelmente escura. Só ouvimos a agonia da Noiva e o som da terra cobrindo a tumba.
Quentin Tarantino semeia o filme com um grande punhado de referências. O sádico mestre de kung fu Pai Mei (encarnado por Gordon Liu) é uma homenagem a um de seus "heróis" da infância, um monge de longas sobrancelhas brancas, vilão em uma porção de filmes de artes marciais da Hong Kong da década de 1970 — dos quais o diretor copiou ainda o excesso de zoom-in e zoom-out (aproximar e afastar o foco dos personagens).
Outra marca tarantinesca, o emprego da cultura pop, aparece com força em um momento-chave, quando Bill explica à Noiva sua teoria sobre o Superman. Também torna-se mais evidente um fetiche do diretor: repare em quantos personagens aparecem de pés descalços. Tarantino parece dizer tanto a seus personagens quanto ao público: fique à vontade, estamos em uma grande brincadeira.
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