
Pior do que uma piada ruim é uma piada de que ninguém ri. Infelizmente, está cheia delas a comédia Quando o Céu se Engana (Good Fortune, 2025), um filme bem intencionado mas pouco inspirado que estreia nos cinemas de Porto Alegre nesta quinta-feira (6).
Trata-se do primeiro longa-metragem dirigido por Aziz Ansari, comediante estadunidense filho de imigrantes indianos que ganhou dois prêmios Emmy pelo roteiro da série Master of None (2015-2021), protagonizada por ele mesmo. Ansari também escreveu Quando o Céu se Engana e interpreta um dos três personagens principais. Os outros dois são vividos por Keanu Reeves e Seth Rogen.
O filme é uma espécie de modernização da comédia Trocando as Bolas (1983), mudando o ambiente da bolsa de valores para o mundo dos aplicativos. Nesse título dirigido por John Landis, um magnata que acredita na genética e outro que acredita no meio social trocam de lugar um corretor rico (Dan Aykroyd) e um sujeito em situação de rua (Eddie Murphy).
Em Quando o Céu se Engana, Keanu Reeves interpreta Gabriel, um anjo dedicado a salvar motoristas que ficam usando o celular enquanto dirigem. Aliás, eis um dos poucos momentos do filme capazes de abrir pelo menos um sorriso no espectador: na repartição divina administrada pela personagem da atriz Sandra Oh, Martha, existem anjos para cada tipo de situação — das avalanches à inspiração musical.
Gabriel está descontente com seu trabalho. Ele quer fazer algo mais grandioso. Então, resolve ajudar o personagem de Aziz Ansari, Arj, um cara sem sorte que sobrevive de bicos em Los Angeles e faz do carro sua cama.
Gabriel tenta convencê-lo de que ter dinheiro não resolveria seus problemas. Para provar sua teoria, troca a vida do sujeito com a de um empresário rico, Jeff (Seth Rogen), o principal investidor do app de entregas para o qual Arj trabalha. Claro que as coisas não saem como o esperado, e o anjo acaba perdendo suas asas, ou seja, passa a experimentar a vida de um ser humano.

Com o seu jeitão meio blasé, meio aparvalhado, Keanu Reeves até mantém o espectador entretido enquanto Gabriel saboreia o mundano e depara com as vicissitudes do capitalismo. Mas, como bem apontou o crítico PH Santos, Quando o Céu se Engana reluta em fazer do anjo o verdadeiro protagonista.
Ao jogar o foco para Arj e Jeff, Aziz Ansari aborda um velho paradoxo econômico: uns enriquecem e esbanjam graças ao trabalho exaustivo e mal remunerado de muitos outros. Só que o filme faz isso sem a mínima criatividade no roteiro — aliás, a piada melhorzinha foge do tema e é requentada: versa sobre como os brancos vêm e lidam com os negros.
Quando o Céu se Engana também tem uma preguiça monumental na construção das cenas e é quase aleatório na montagem. Diante da ironia desanimada do personagem de Ansari e da atuação em piloto automático de Rogen, mais fácil sentir vontade de dormir do que de rir.
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