
A Netflix adiciona nesta quarta-feira (26) ao seu menu Parasita (Gisaengchung, 2019), a primeira produção não falada em inglês a conquistar o Oscar de melhor filme. Foi o ápice de uma trajetória triunfante: o longa-metragem dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-ho é um dos mais premiados de todos os tempos.
Parasita recebeu 309 troféus e distinções. A coleção inclui outras três conquistas no Oscar — melhor direção, roteiro original (coescrito por Joon-ho com Han Jin-wan) e longa internacional —, a Palma de Ouro no Festival de Cannes, dois Baftas (entregues pela Academia Britânica), o César (da França), o David di Donatello (da Itália), o Globo de Ouro de filme estrangeiro, o Independent Spirit Awards e o prêmio de elenco do Sindicato dos Atores dos EUA.
Na premiação da Academia de Hollywood, Parasita alcançou um feito que outros 20 títulos já tentaram. A lista inclui o brasileiro Ainda Estou Aqui (2024), o alemão Nada de Novo no Front (2022), o britânico falado em alemão Zona de Interesse (2023), os franceses A Grande Ilusão (1937), Anatomia de uma Queda (2023) e Emilia Pérez (2024), o grego Z (1969), os italianos O Carteiro e o Poeta (1994) e A Vida É Bela (1998), o japonês Drive my Car (2021), o mexicano Roma (2018) e o sueco Gritos e Sussurros (1973). A comédia romântica francesa O Artista (2011) venceu o Oscar de melhor filme, mas essa produção é muda, vale lembrar.
Em Parasita, Bong Joon-ho voltou a retratar o fosso que separa os ricos e os pobres — como no distópico Expresso do Amanhã (2013) — e a transitar entre gêneros: vai da comédia farsesca ao drama com crítica social, passando pelo thriller policial e flertando com o terror urbano. O diretor já havia demonstrado essa habilidade em O Hospedeiro (2006), uma ficção científica sobre monstros que se faz acompanhar por humor ácido e comentário político, e Okja (2017), que mescla fábula Disney, discurso ambientalista e sátira ao capitalismo globalizado.
No filme ganhador do Oscar, a combinação de conteúdo e forma traz um frescor e um vigor únicos à história de uma família de desempregados que enxerga uma chance de ascensão quando o filho, Ki Woo (papel de Choi Woo-sik), ganha a oportunidade de se passar por professor de inglês para a filha adolescente de um casal abastado.
Detalhar a sinopse seria estragar a experiência de quem nunca viu Parasita. Porque há uma virada de roteiro — um plot twist— realmente inesperada, que conduz o filme a caminhos bem distintos daqueles que poderíamos ter vislumbrado.
O que dá para dizer, sem avançar no sinal, é que os quatro personagens principais formam a família Kim, que busca, literalmente, um lugar ao sol — eles moram em uma casa onde quase metade do pé-direito fica abaixo do nível da rua. Às vezes, sua "vista" é atrapalhada por um bêbado urinando na sarjeta. O quarteto se sustenta à base de bicos, como montar embalagens de pizza, caçam o wi-fi da vizinhança e mal se incomodam quando o inseticida aplicado nas calçadas entra pela janela — "Dedetização grátis!", diz o pai, Ki Taek (encarnado por Song Kang-ho).

Em um mundo onde, à época da estreia do filme, os 26 mais ricos somavam o mesmo patrimônio dos 3,8 bilhões mais pobres, Parasita não tem pudor em apontar para quem devemos estender nossa empatia. Sim, os protagonistas são moralmente ambíguos (como de hábito no cinema da Coreia do Sul), fazem trambiques e tomam algumas atitudes drásticas. Mas pai, mãe, filho e filha são unidos, riem juntos, esforçam-se para estarem sempre perto uns dos outros.
Os Kim são o contrário da família da mansão onde Ki-woo vai dar aulas de inglês, os Park, que quase nunca aparecem reunidos e que tratam as pessoas como produtos descartáveis — demitir alguém que trabalha há anos para eles não provoca dor de cabeça.

Aliás, os ricos vivem tão despreocupadamente que acabam alheios à pobreza que os rodeia. A não ser que os miseráveis estejam debaixo de seu nariz. Ah, aí o preconceito vem à tona — a certa altura, Dong-ik (vivido por Lee Sun-kyun), empresário do ramo da tecnologia, reclama do "cheiro de rabanete velho" que sente quando precisa usar o metrô.
Para quem assistiu ao seriado Downton Abbey (2010-2015) e às suas adaptações cinematográficas, Parasita é uma espécie de contraponto. Se na produção britânica empregados brigam pela honra de servir a realeza, no filme sul-coreano pobres duelam entre si pela sobrevivência, mesmo que isso signifique subserviência, insalubridade e exploração de sua mão de obra. Se em Downton Abbey os patrões são amistosos, a ponto de a indiscrição de um valete gerar não mais do que um olhar de espanto, em Parasita o senhor do castelo deixa claro que há fronteiras a serem respeitadas: "Não suporto pessoas que cruzam o limite".

Os cenários e os enquadramentos foram bastante planejados para ilustrar e reforçar os pontos citados acima. Os Kim moram todos apertados, isto é, estão muito próximos. A casa dos Park tem espaços abertos, quase vazios, simbolizando a falta de calor humano entre os integrantes da família. Merece destaque, como bem apontou o crítico Inácio Araújo na Folha de S. Paulo, o buraco negro que delimita, na mansão, o espaço dos ricos, o que inclui uma sala com ampla iluminação natural, e o dos pobres, subterrâneo e escuro.
O que os Kim querem, como todos nós queremos, é uma vida melhor. Mas o pai já é velho o suficiente para ter sofrido as consequências do apartheid social retratado em Parasita. Já anulou seus sonhos em troca de uma resignação, digamos, otimista:
— Se você faz um plano, a vida nunca funciona assim. O melhor plano é não ter planos. Sem planos, nada pode dar errado. Se algo fugir do controle, não importa.
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