
A Netflix lançou nesta quarta-feira (12) mais um documentário sobre um crime chocante, desta vez ambientado no Brasil. Caso Eloá: Refém ao Vivo (2025) relembra o sequestro e o assassinato da adolescente Eloá Cristina Pereira Pimentel, 15 anos, em 2008. Entre as 13h30min do dia 13 de outubro e as 18h08min de 17 de outubro — portanto, durante cem horas —, a garota foi mantida refém, sob a mira de um revólver, pelo ex-namorado, Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, no apartamento onde ela morava, em um conjunto habitacional de Santo André (SP).
Dirigido por Chris Gattas, o documentário traz entrevistas com muita gente que viveu de perto essa tragédia: os pais e os irmãos de Eloá, amigos da adolescente, policiais e jornalistas. Os depoimentos são intercalados ou acompanhados por imagens de arquivo da cobertura televisiva (e também reconstituições com atores).
Durante cinco dias, o país assistiu ao vivo o dramático desenrolar do caso. Com câmeras inclusive em helicópteros, a imprensa procurava transmitir cada passo das negociações entre a polícia e o sequestrador.
Caso Eloá: Refém ao Vivo mostra erros da polícia, da imprensa e do próprio público. E faz isso com sobriedade — embora, inevitavelmente, os familiares da vítima não consigam segurar o choro durante seus depoimentos.
Até hoje a operação policial é questionada. Seus comandantes são criticados por não terem autorizado a ação de um sniper, um atirador de elite, que poderia alvejar Lindemberg nos momentos em que ele aparecia na janela do apartamento. Pelo menos aqui, vale ponderar: será que mesmo para um especialista não era muito difícil acertar o disparo sem colocar em risco a vida de Eloá? Vale também contextualizar, lembrando um caso de alta repercussão ocorrido oito anos antes: o sequestro do ônibus 174, no Rio de Janeiro.
Naquele 12 de junho de 2000, quando Sandro Barbosa do Nascimento decidiu sair do ônibus que havia sequestrado, ele usou como escudo a professora Geísa Firmo Gonçalves. Depois que os dois desceram do veículo, um policial tentou atingir Sandro com um tiro de submetralhadora, à queima-roupa, mas acabou errando — pior: acertou a refém de raspão no queixo. Como reação, o sequestrador atirou três vezes contra as costas de Geísa, que não resistiu aos ferimentos.
Pelo menos outras duas decisões da polícia na condução do Caso Eloá, contudo, podem deixar atônito o espectador que desconhece os detalhes do sequestro. A primeira foi a de chamar de volta à cena do crime Nayara Rodrigues, 15 anos, amiga de Eloá.
Quando Lindemberg invadiu o apartamento, no dia 13, ela também havia sido feita refém. O jovem libertou Nayara na noite do dia 14. No dia 15, policiais entenderam que a garota poderia ajudar nas negociações — e acabou se tornando novamente vítima de cárcere privado. Como diz no documentário o capitão Diógenes Lucca, ex-comandante do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar de São Paulo, "o Gate entrou para a história como a primeira tropa que tinha um refém e passou a ter dois".
Outra decisão bastante controversa foi tomada no desfecho da tragédia. A polícia afirmou que invadiu o apartamento porque ouviu o disparo de um tiro, mas tanto Nayara, que estava no local, quanto o perito criminal Ricardo Molina, que analisou áudios, sustentam que Lindemberg só começou a atirar em Eloá depois que os policiais explodiram a porta. E houve uma perda de tempo considerável até que o sequestrador pudesse ser imobilizado: a polícia parece não ter previsto que ele poderia ter montado uma barricada, com uma mesa e uma estante.

A cobertura pela imprensa também foi polêmica. O circo armado em torno do conjunto habitacional em Santo André ultrapassou limites éticos. O documentário recupera, por exemplo, o afã dos cinegrafistas de conseguirem uma imagem de Eloá já dentro da ambulância.
A televisão transformou Lindemberg em um astro midiático durante o sequestro, e essa condição influenciou seu comportamento e interferiu nas negociações com a polícia. O cúmulo da irresponsabilidade foram as entrevistas ao vivo, por telefone, que o criminoso concedeu a emissoras de TV. Além de bloquear momentaneamente a linha de acesso do negociador da polícia, prejudicando a operação e ameaçando as reféns, essas entrevistas deram mais poder a Lindemberg, fizeram ele se sentir mais dono da situação. Ele percebeu que era o ator principal de um show transmitido para todo o país.
Mas a imprensa só fez isso porque sabia que daria audiência. E aqui está o nosso erro, o do público: damos ibope demais para o crime.
"A má notícia, infelizmente, ela interessa para as pessoas", resume o repórter Fábio Diamante em Caso Eloá: Refém ao Vivo. Somos ávidos pela tragédia e, não raro, romantizamos o crime e os bandidos, como bem aponta Ronickson, o irmão mais velho de Eloá.
E ainda temos muita leniência com o crime passional, sobretudo — ou seria somente? — quando cometido contra mulheres. "Parece que as pessoas quase estavam torcendo para que aquilo não acabasse", comenta a promotora Daniela Hashimoto. Em um vídeo de arquivo de um programa de TV, surge o advogado Ademar Gomes dizendo esperar que o sequestro terminasse com "um casamento futuro entre ele (Lindemberg) e a namorada apaixonada dele".
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