
Antes tarde do que nunca: finalmente assisti a Black Rabbit (2025), que foi lançada em setembro pela Netflix. E vi os oito episódios praticamente um atrás do outro: metade em uma noite, metade na manhã seguinte. Porque é uma das melhores séries de suspense deste ano: impossível parar antes de conhecer o desfecho da caótica história estrelada pelos carismáticos Jude Law (indicado ao Oscar por O Talentoso Ripley e por Cold Mountain) e Jason Bateman (dos seriados Arrested Development e Ozark).
Black Rabbit foi criada por Zach Baylin, indicado ao Oscar de roteiro original por King Richard: Criando Campeãs (2021) e roteirista de A Ordem (2024), e Kate Susman. O enredo alude à controvertida trajetória do restaurante The Spotted Pig, um gastropub que funcionou em Nova York de 2004 a 2020 — não vou detalhar os elementos que inspiraram a série para evitar spoilers. O próprio Jason Bateman dirige os dois primeiros capítulos, e os demais são assinados pela atriz Laura Linney, pelo cineasta Justin Kurzel e por Ben Semanoff.
Jude Law interpreta Jake Friedken, o proprietário e cofundador do Black Rabbit, uma mistura de bar e restaurante com três andares localizada em Nova York, bem perto da rampa de acesso para a Ponte do Brooklyn. Aliás, a ambientação, que vai do cru ao charmoso, é um dos trunfos da série.
As cenas externas do estabelecimento foram filmadas em um dos últimos prédios com estrutura de madeira no sul de Manhattan, no número 279 da Water Street. O interior, com o papel de parede elegantemente descascado e os tijolos caprichosamente lascados, foi reproduzido em um estúdio. Entre as outras locações, estão o calçadão de Coney Island, ruas da comunidade chinesa no bairro Queens, a casa de banho Russian and Turkish Baths, na 10th Street, e o chiquérrimo restaurante The Pool, no Seagram Building.

Quando a história começa, Jake está celebrando uma noite muito especial no Black Rabbit, onde a chef Roxie (vivida por Amaka Okafor) prepara "hambúrgueres de 50 dólares". A clientela inclui Wes Williams (papel de Sope Dirisu), músico de sucesso e um dos investidores do restaurante, e Naveen (Amir Malaklou), outro sócio da casa. Do lado de fora, uma dupla mascarada se prepara para tentar roubar as joias valiosíssimas que serão exibidas na festa.
Nessa sequência de abertura, outro ponto forte de Black Rabbit salta aos ouvidos: a trilha sonora. As composições da dupla Danny Bensi e Saunder Jurriaans (a mesma das minisséries Acima de Qualquer Suspeita e Cortina de Fumaça) providenciam tensão e perturbação. A requintada seleção musical, que mescla rock, jazz, blues e soul, traz na lista duas canções tão melancólicas quanto empolgantes: We've Been Had (2001), da banda The Walkmen, e Untitled (2002), do Interpol. Vale citar também versos da lindíssima Under the Pressure (2014), do The War on Drugs, igualmente deprê na letra mas vibrante no som, que só se escuta ao fundo de uma cena: "Quando tudo desmorona e estamos em fuga / Permanecendo no rastro de nossa dor / E nós olhamos direto para o nada".
Durante a festa, pode-se ouvir o verso em português "Ela vai rebolando no chão" de Woof (2024), da dupla Sofi Tukker com Kah-Lo, e ao longo de Black Rabbit toca duas vezes a clássica I Choose You (1973), de Willie Hutch. A cantora britânica RAYE é vista em cena interpretando uma versão de What a Diff'rence a Day Makes, gravada originalmente por Dinah Washington em 1959. E Albert Hammond Jr., guitarrista dos Strokes, escreveu para a minissérie Turned To Black e Outside People, ambas cantadas por Jude Law — flashbacks revelam o passado roqueiro do seu personagem.

Flashbacks, a propósito, são recorrentes em Black Rabbit. Desde a largada. Assim que o assalto ao restaurante chega a um ponto de ebulição, a trama recua um mês no tempo, quando Jake vivia a expectativa da presença da crítica do jornal The New York Times ao seu estabelecimento. Ele tem pelo menos um pepino a descascar: sua bartender, Anna (Abbey Lee), vem faltando ao trabalho.
Entrementes, conhecemos o irmão mais velho de Jake, o pé-rapado Vince (Jason Bateman), que tem um histórico de compulsão — jogo, bebida, drogas, apostas... Depois de se meter em uma senhora enrascada, ele pede ao mano que mande urgentemente uma passagem aérea. O caçula reluta, mas permite que Vince reapareça na sua vida.
Enquanto acompanhamos os eventos que levaram àquela fatídica noite no Black Rabbit, conhecemos outros personagens importantes. Um deles é o agiota Mancuso, um chefão do submundo que é interpretado pelo ator surdo Troy Kotsur, ganhador do Oscar de coadjuvante por No Ritmo do Coração (2021). Novamente, sua atuação é magnetizadora, mas desta vez o pai que Kotsur encarna tem bem menos ternura.

E enquanto reconstitui os passos de Jake e de Vince, Black Rabbit empreende idas e voltas ao passado, tanto o recente quanto o mais remoto, quando eles ainda eram crianças. Essas viagens no tempo lançam novas luzes sobre os acontecimentos do presente e encorpam as personalidades dos irmãos Friedken. Ganham significado e relevância até coisas que parecem banais ou bobas, como pedir para "tirar a música de merda" que está tocando em um cassino.
Somos completamente envolvidos pela trama de Black Rabbit, não só por causa do suspense (que é turbinado pelo uso de cenários urbanos), das reviravoltas e do que o cineasta Martin Scorsese chama de risco emocional — o perigo genuíno para o protagonista ou mesmo para o espectador, que precisa encarar um espelho sombrio —, mas talvez principalmente por causa do drama familiar. Traumas surgidos na infância podem seguir a vida inteira sem serem curados. As atuações de Jude Law e Jason Bateman engrandecem dois personagens que ilustram como pode haver sentimentos conflitantes entre irmãos: afeto e raiva, cumplicidade e rivalidade, a mentira mais deslavada e a honestidade mais brutal.
O relacionamento entre Jake e Vince reforça como é fundamental poder contar com alguém muito próximo, mas, às vezes, estamos perto demais para enxergar as fissuras. Se à certa altura Mancuso retorce um ditado popular, o de que família não se escolhe, o personagem de Bateman faz um monólogo sobre a aleatoriedade e a arbitrariedade da vida — você nasce e esta é sua mãe, este é seu pai e talvez tenha um outro cara na casa também.
Mas Black Rabbit também enaltece os vínculos familiares — e, de novo, desde o princípio. Reparem, por exemplo, na relação saudável de Jake com o filho, Hunter (Michael Cash), e com sua ex-esposa, Val (Dagmara Dominczyck). A questão é: quando o sangue deixa de ser algo compartilhado para se tornar algo contaminado? Quando os laços que unem se tornam laços que prendem?
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