
O superelenco de O Agente Secreto (2025), filme de Kleber Mendonça Filho que estreou nesta quinta-feira (6) nos cinemas, inclui um nome em franca ascensão: Alice Carvalho, atriz potiguar de 29 anos que despontou como a Dinorah do seriado Cangaço Novo (2023).
No mesmo ano de 2023, ela foi vista como a empregada doméstica de Angela Diniz na cinebiografia Angela, estrelada por Isis Valverde. Depois, Alice trabalhou nas novelas Renascer (2024), da Globo, no papel de Joana de Pádua, a Joaninha, e Guerreiros do Sol (2025), como a Otilia Pellegrino.
Sua personagem em O Agente Secreto é Fátima, a esposa falecida do protagonista encarnado por Wagner Moura. Quando nasceu, porém, Fátima só existiria nas conversas do viúvo. Aos poucos, o diretor e roteirista pernambucano percebeu que ela tinha de ser de carne e osso, que precisava dar um rosto a ela.

Então, Kleber convidou Alice Carvalho, que usou seus dias de folga das gravações de Renascer para filmar suas cenas no thriller político ambientado em Recife, em 1977, durante a ditadura militar. A atriz tem pouquíssimos minutos de tela, mas faz valer cada segundo.
Fátima aparece em flashbacks. Sem dar muito spoiler, pode-se dizer que seu principal momento é decisivo para a trama do filme brasileiro escolhido para tentar uma vaga no Oscar internacional.
Pensando bem, vale um ALERTA DE SPOILER, porque descrever a cena é importante para entender a resposta que Alice deu durante a entrevista coletiva que ela, Kleber Mendonça Filho e a produtora Emilie Lesclaux concederam na Cinemateca Paulo Amorim na segunda-feira (3), por conta da exibição especial de O Agente Secreto na abertura do 13º Frapa, o Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre.
(Dado o aviso, vamos em frente.) A cena pequena mas poderosa de Alice é alta tensão e tem como cenário um restaurante recifense. Lá, o professor universitário Marcelo, um especialista em tecnologia industrial, conversa com dois empresários, pai e filho, que vieram de São Paulo carregando na mala o sentimento de superioridade em relação ao Nordeste, a arrogância e o desprezo.
No começo, Fátima, ela também docente, escuta calada, mas seu olhar e expressões sutis transmitem a dor e a revolta da personagem. Até que ela desabafa, em um monólogo intenso.
No Instagram, o crítico cearense PH Santos comentou:
— A personagem da Alice Carvalho fala o que nós, nordestinos, queremos falar para quem vem de fora achando que a gente é pouco.
Na entrevista em Porto Alegre, eu falei sobre como O Agente Secreto, a exemplo de Bacurau (2019), que Kleber Mendonça Filho dirigiu com Juliano Dornelles, valoriza a cultura nordestina ao mesmo tempo em que critica essa postura arrogante e preconceituosa das regiões Sudeste e Sul. E perguntei para Alice Carvalho como ela se sente em relação a isso. Ela respondeu assim:
— Onde se concentra o dinheiro? Em São Paulo e no Rio. É onde o dinheiro impera e opera que se perpetua essa cultura da exclusão. Já fiz trabalhos grandes, feitos para grandes emissoras e plataformas de streaming, e é impossível afirmar que eu não tenha passado por nenhum tipo de preconceito velado, aquela xenofobia misturada com o racismo que acontece de maneira muito sutil. Quando olhei para a roupa que eu estava vestindo na prova de figurino para O Agente Secreto, eu me dei conta de que havia sido apenas a segunda vez que essa roupa não era puída, rasgada, velha, suja ou que viesse com o intuito de ter um marcador social ali. A primeira vez foi em uma série que não saiu ainda, também feita perto de casa (no Nordeste). As duas vezes que eu não vesti uma roupa com essas características, porque é uma pecha que o grande mercado muitas vezes joga para corpos parecidos com o meu e de origens parecidas como a minha, foram em produções nordestinas. Ao custo dos nossos próprios esforços e da produção feita por nossos próprios pares, a gente tem conseguido estreitar a fronteira que existe com esse grande centro. Parece que há mais interesse em contar as nossas histórias. Vide Cangaço Novo, que foi um trabalho que fiz para um grande streaming (o Amazon Prime Video) e que me fez ser conhecida nacionalmente. Mas de que forma a gente vai tratar essas histórias, né? Vai ser o Nordeste inventado ou o Nordeste mais parecido com a imagem que a gente quer que o mundo tenha dele?
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