
Recentemente resgatado do limbo digital pela plataforma de streaming MUBI, Perdidos na Noite (Midnight Cowboy, 1969) é o único título proibido para menores que venceu o Oscar de melhor filme. E nem adiantava estar com os pais ou responsáveis: só quem tinha a partir de 18 anos podia assistir quando estreou nos cinemas dos Estados Unidos este drama sobre prostituição masculina, pobreza e solidão em Nova York.
Na premiação da Academia de Hollywood, Perdidos na Noite ganhou também as estatuetas douradas de melhor direção, para John Schlesinger, e roteiro adaptado, por Waldo Salt a partir do romance escrito por James Leo Herlihy. Disputou ainda as categorias de melhor ator, com Jon Voight e Dustin Hoffman, atriz coadjuvante (Sylvia Miles) e edição (Hugh A. Robertson). No Bafta, da Academia Britânica, faturou os troféus de melhor filme, direção, ator (Dustin Hoffman), ator revelação (Jon Voight), roteiro e edição.
Embora seja recorrente nas cenas e embora seus versos traduzam à perfeição os sentimentos contrastantes de alienação e de esperança dos personagens, a canção Everybody's Talkin' não concorreu a nenhum prêmio cinematográfico, porque não foi composta para o filme. Escrita e gravada pela primeira vez em 1966, por Fred Neil, ganhou fama na versão cantada por Harry Nilsson para Perdidos na Noite, que vendeu mais de um milhão de discos e recebeu um Grammy em 1970.
Filme é um marco da Nova Hollywood

Perdidos na Noite é um dos marcos iniciais da chamada Nova Hollywood, a onda de criatividade e ousadia que sacudiu o cinema estadunidense no final dos anos 1960, ao lado de Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas (1967), de Arthur Penn, A Primeira Noite de um Homem (1967), de Mike Nichols, e Sem Destino (1969), de Dennis Hopper.
Surpreendentemente, porém, o filme e o diretor John Schlesinger (1926-2003), que depois assinaria outros três grandes títulos — Domingo Maldito (1971), O Dia do Gafanhoto (1975) e Maratona da Morte (1976) —, são citados raríssimas vezes pelo jornalista Peter Biskind no livro Easy Riders, Raging Bulls: Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock'n'Roll Salvou Hollywood, lançado nos EUA em 1998 e publicado no Brasil em 2009 pela editora Intrínseca, com tradução de Ana Maria Bahiana.
Biskind pode ter minimizado o papel de Schlesinger porque o cineasta era britânico e já tinha feito carreira no seu país de origem, inclusive competindo no Oscar de melhor direção por Darling, a que Amou Demais (1965). Mas Perdidos na Noite merecia mais do que nove breves menções em uma obra de 504 páginas.
O American Film Institute (AFI), por exemplo, reconheceu o filme como um dos cem melhores produzidos nos EUA — foi o 36º colocado no primeiro ranking, em 1998, e o 43º na atualização da lista, em 2007. Em 1994, Perdidos na Noite foi selecionado para preservação pela Biblioteca do Congresso.
O livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer deu uma página para "possivelmente a escolha mais audaz já feita para um Oscar", segundo a crítica Angie Errigo, por causa da abordagem de "temas difíceis para a época, como homossexualidade e prostituição" — essa edição é de 2008, portanto, anterior às conquistas de Moonlight: Sob o Luar (2016), o primeiro ganhador LGBT+, e Anora (2024), que tem como personagem principal uma prostituta.
A ruína do sonho americano e a desconstrução do caubói

Em duas colunas publicadas em Zero Hora nos dias 23 e 24 de abril de 1970, o crítico gaúcho José Onofre (1942-2009), definiu o filme como "uma estocada dramática contra o sonho americano. Ou melhor, contra a lata de lixo do sonho americano que serve como elemento integrador dos marginais, dos insatisfeitos, dos famintos homens comuns da América". A amargura é temperada pela melancólica harmônica da música instrumental de John Barry, também laureada no Grammy.
Para Onofre, Perdidos na Noite mostra a outra face da moeda, "a tranquila mudança de um sonho em pesadelo, o escoar-se lento das ilusões, gota a gota, enquanto o mundo permanece imóvel e imperdoável". É um filme sobre o estabelecimento (o chamado establishment) que se estrutura a partir do olhar transtornado de seus marginais, com "as ambições que sobraram após quase dois séculos de capitalismo". Ele aponta que a prostituição e a violência retratadas em cena "são acompanhantes quase eternas da nossa espécie, mas sem dúvida alguma só atingiram a intensidade atual graças às necessidades laterais da mais-valia".
Há uma outra leitura importante sobre Perdidos na Noite, como aquela referida pelo crítico paraibano radicado em Manaus Ivanildo Pereira no site Cine Set, em 21 de março de 2022. Ivanildo observou que o primeiro plano do filme apresenta a tela de um cinema drive-in. Não há imagens projetadas, apenas os efeitos sonoros — o galope dos cavalos, o espocar dos tiros — dos inúmeros faroestes já exibidos ali.
É uma abertura que, com confiança no simbolismo e na capacidade de interpretação do espectador, alude à desconstrução, quem sabe o apagamento, da figura do caubói como personificação da masculinidade. Os títulos de bangue-bangue que por lá estiveram em cartaz moldaram a ideia de homem do protagonista e a sua identidade, mas agora — tomando emprestada a letra de Everybody's Talkin' — ele não pode mais ver seus rostos e só escuta ecos.
Joe Buck e Ratso, os perdidos na noite

Na narrativa de Perdidos na Noite, John Schlesinger exibe fluidez e frescor — a festa psicodélica que reúne amigos do artista visual e cineasta Andy Warhol, como Viva, Ultra Violet, Taylor Mead e Paul Morrissey, "é o único trecho que deixa claro que se trata de um filme dos anos 1960", conforme escreveu Ivanildo Pereira. Contribuem para a atemporalidade e o vigor da obra os trabalhos do diretor de fotografia Adam Holender, que mescla o respeito à crueza urbana com um olhar sensível para as emoções humanas, e o montador Hugh A. Robertson, que pontua a trama com flashbacks tristes e perturbadores da vida pregressa do protagonista.
Esse protagonista tem o nome de Joe Buck e é interpretado pelo então quase estreante Jon Voight, que cativa ao imprimir no jovem personagem uma mistura de ingenuidade, obstinação, solidariedade e frustração. Joe abandona o emprego miserável de lavador de pratos em uma lanchonete e ruma do Texas para Nova York. Leva no corpo e na mala o figurino típico de caubói, incluindo botas e chapéu, acreditando que as mulheres ricas da cidade fariam fila para pagar por seus serviços como garoto de programa. Na bagagem emocional, ele carrega traumas sexuais que são vislumbrados ou mesmo detalhados nos flashbacks citados.
Em Nova York, logo Joe cria seu slogan: "Não sou um caubói de verdade, mas sou um baita garanhão!". Mas logo sua fantasia desmorona diante da dura realidade. Primeiro ele aprende que a cidade grande te engole se você não for esperto. Depois, se dá conta de que há outros tantos caubóis da meia-noite tentando ganhar a vida.

Os passos de Joe vão se cruzar com os de outro perdido na noite: Enrico Salvatore Rizzo, o Rico — ou Ratso, como é chamado, a contragosto, o personagem encarnado por Dustin Hoffman. No segundo papel importante de sua carreira, o ator dá provas da versatilidade pela qual seria conhecido.
Depois de aparecer como um jovem tímido e desajeitado em A Primeira Noite de um Homem (1967), que rendeu uma indicação ao Oscar, Hoffman surge como um pobre trambiqueiro de saúde frágil. Ratso mora clandestinamente em um prédio condenado pela prefeitura, usa roupas puídas, manca de uma perna, tem o rosto sempre suado e vem tossindo bastante. O personagem permite ao ator investir em maneirismos, na linguagem física da atuação e nos improvisos verbais.

Entrou para a história do cinema, por exemplo, sua fala improvisada quando, inesperadamente, um táxi desrespeitou o sinal vermelho e quase atropelou Jon Voight e Dustin Hoffman enquanto atravessavam uma rua na faixa de pedestres. "Estou andando aqui! Estou andando aqui!", grita Ratso, batendo a mão no capô do carro e repreendendo o motorista, que responde raivosamente. (Uma outra cena antológica de Joe e Ratso é a do ônibus, parodiada pela série Seinfeld no oitavo episódio da sexta temporada, The Mom & Pop Store, que inclusive conta com uma participação especial de Jon Voight.)
Por que o filme era proibido para menores?

Na época do seu lançamento nos Estados Unidos, Perdidos na Noite recebeu a mais restritiva classificação etária estabelecida pela Motion Picture Association (MPA), a associação comercial que representa os cinco maiores estúdios de cinema de Hollywood — Universal, Walt Disney, Warner Bros., Paramount e Columbia — e, hoje, também serviços de streaming, como a Netflix. O filme foi carimbado como X-Rated, ou seja, inadequado para crianças e adolescentes com menos de 18 anos, mesmo se acompanhados pelos pais.
Em 1990, a MPA alterou a nomenclatura para NC-17, porque o X, que não era uma marca registrada da entidade, havia sido cooptado pela indústria pornográfica. Entre os títulos classificados assim, estão, por exemplo, Showgirls (1995), Crash: Estranhos Prazeres (1996), Os Sonhadores (2003), Má Educação (2004), Desejo e Perigo (2007), A Serbian Film (2010), Shame (2011), Azul É a Cor Mais Quente (2013) e Blonde (2022).
A classificação NC-17 não necessariamente designa que um filme é pornô ou obsceno. Geralmente, é emitida por causa de elementos como violência, uso de drogas e conteúdo sexual. Esses três elementos estão presentes em Perdidos na Noite, que tem uma cena de estupro coletivo e mergulha no submundo do sexo de Nova York e no universo da cultura alternativa da cidade.

Na análise inicial da MPA, Perdidos na Noite teria uma classificação R, que permite a entrada no cinema de menores de 17 anos desde que na companhia de um pai ou responsável. Essa é a mesma classificação de vários ganhadores do Oscar, como Operação França (1971), O Poderoso Chefão (1972), O Silêncio dos Inocentes (1991), A Lista de Schindler (1993), Coração Valente (1995), Guerra ao Terror (2009), 12 Anos de Escravidão (2013), Moonlight (2016), Parasita (2019) e Anora (2024).
Foi o próprio estúdio produtor de Perdidos na Noite, o United Artists, que decidiu subir a régua. Seu chefe, Arthur Krim (1910-1994), havia consultado um psiquiatra que denunciou o "quadro de referência homossexual" do filme e sua "possível influência sobre os jovens". Ou seja, a homofobia é o que decretou a troca da classificação R para X.
Um selo X normalmente significaria um golpe duro nas pretensões comerciais de qualquer filme. Diante da restrição de público e também por moralismo, muitos cinemas se recusariam a exibir, e jornais e emissoras de TV poderiam não veicular anúncios publicitários. O marketing da United Artists transformou o limão em limonada — pagou comerciais que alardeavam: "Tudo o que você ouve sobre Perdidos na Noite é verdade!".
A campanha ajudou o filme a se tornar um surpreendente sucesso de bilheteria, arrecadando uma quantia 14 vezes maior do que o seu orçamento: custou US$ 3,2 milhões e faturou US$ 44,8 milhões.
Com o êxito financeiro e a conquista do Oscar, Perdidos na Noite foi relançado nos cinemas em 1971, agora com classificação R, mas sem nenhuma modificação. Para sua estreia na TV estadunidense, contudo, em 1974, o filme sofreu um corte de — pasme — 25 minutos. A duração caiu de 113 para 88 minutos, com mutilação da trama e do tom.
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