
Springsteen: Salve-me do Desconhecido (Springsteen: Deliver me From Nowhere, 2025), que estreia nos cinemas nesta quinta-feira (30), é como se fosse o single de um disco duplo. Com menos de duas horas de duração, a cinebiografia musical revela-se curta para a história que quer contar, apesar de se concentrar em um período bem específico da carreira do cantor e compositor estadunidense Bruce Springsteen, hoje com 76 anos.
O filme é dirigido por Scott Cooper, o mesmo de Coração Louco (2009), que valeu a Jeff Bridges o Oscar de melhor ator no papel de um cantor de música country decadente e beberrão. Cooper também escreveu o roteiro de Springsteen: Salve-me do Desconhecido, tendo por base um livro publicado em 2023 por Warren Zanes.
Quem dá vida a Bruce Springsteen é Jeremy Allen White, ator duas vezes premiado no Emmy pela série O Urso. Ele canta de verdade em muitas cenas — vide as vibrantes interpretações de Born to Run (1975) em um show e, principalmente, a de Born in the U.S.A. (1984) em um estúdio —, mas o filme também usa gravações originais.

A trama começa em 1957, com cenas em preto e branco que mostram a infância de Bruce (Matthew Anthony Pellicano Jr.) junto à mãe carinhosa, Adele (Gaby Hoffmann), e o pai alcoolista e abusivo, Douglas (Stephen Graham). Assim que uma briga familiar recrudesce, o filme pula para 1981 e ganha cores.
Então com 30 e poucos anos, Bruce Springsteen chega ao fim da turnê de seu quinto disco, The River (1980), que lotou ginásios e estádios. Seu empresário e produtor, Jon Landau (papel de Jeremy Strong, vencedor do Emmy pela série Succession e indicado ao Oscar de coadjuvante por O Aprendiz), aluga uma casa isolada em Colts Neck, cidadezinha do Estado de Nova Jersey perto de onde o cantor cresceu.
Nesse endereço, Bruce vai compor as músicas de seu próximo álbum. Mas, mais do que isso, poderá se esconder da fama cada vez mais crescente e com a qual ainda não sabe lidar. Landau comenta que o astro tem uma relação complicada com o sucesso, sente-se culpado — é como se estivesse perdendo a conexão com o mundo de onde veio.
Mas qual é esse mundo? Eis uma das lacunas de Springsteen: Salve-me do Desconhecido. Se por um lado é louvável fazer uma cinebiografia que não tente abarcar todas as etapas da vida e da carreira de seu personagem, por outro o diretor Scott Cooper exige conhecimento prévio sobre Bruce Springsteen. Não é no cinema que o espectador leigo descobrirá como o cantor alcançou o estrelato sendo um porta-voz da classe operária.
Aliás, também não saberá por que ele resolveu escrever letras caudalosas sobre trabalhadores que acreditavam em uma terra prometida, por exemplo, nem o motivo de ter ganhado o apelido de The Boss (O Chefe) — que chega a ser irônico ou mesmo paradoxal, considerando os temas de suas canções. Tampouco o filme informa que Jon Landau era um crítico musical que, após assistir a um show do artista, em 1974, escreveu que "viu o futuro do rock and roll, e seu nome é Bruce Springsteen".

No futuro vislumbrado por Landau, Bruce Springsteen talvez se tornasse uma máquina de produzir hits roqueiros, como Hungry Heart (1980). A gravadora do cantor, a Columbia, espera um outro disco recheado de sucessos. Mas Bruce está em uma batida diferente.
Na casa em Colts Neck, o cantor começa a exibir sintomas de uma depressão que nunca é nomeada — em dado momento, um coadjuvante chega a temer que ele possa se suicidar. Suas inspirações refletem ou amplificam a turbulência mental.
As histórias da escritora Flannery O'Connor (1925-1964) fazem lembrar de seus tempos de criança — e flashbacks retomam os conflitos com o pai. Na TV, ele assiste ao filme Terra de Ninguém (1973), dirigido por Terrence Malick e estrelado por Martin Sheen, o que o leva a pesquisar sobre os assassinatos cometidos por Charles Starkweather (1938-1959) nos Estados do Nebraska e do Wyoming.

É na voz de Starkweather que Bruce compõe os versos de Nebraska (1982), poderosa faixa de abertura do austero, melancólico e até sombrio disco homônimo, gravado no seu próprio quarto, com instrumentação minimalista e uma qualidade sonora rudimentar — "É como se essas músicas viessem do passado", comenta Jon Landau. O álbum inclui Atlantic City, Johnny 99, Highway Patrolman e My Father's House. O estrondoso sucesso Born in the U.S.A. nasceu naquele mesmo ambiente, mas seu lançamento foi postergado porque não combinava com a proposta folk de Nebraska.
Springsteen: Salve-me do Desconhecido alterna o foco entre o doloroso processo criativo de Bruce, sua insatisfação com as gravações em estúdio e com banda, sua luta contra os fantasmas do passado, seu isolamento progressivo — ilustrado sobretudo no namoro com uma personagem fictícia, a mãe solteira Faye Romano (Odessa Young, em desempenho tocante) — e as pressões da gravadora. Landau, um empresário que defende o lado artístico, assegura: ele "lida com o barulho" enquanto o cantor pode continuar sua busca por "algo real".
Alguns temas são aprofundados, outros parecem apenas sobrevoados. Esbanja-se tempo com a caracterização visual de Jeremy Allen White no papel de Bruce Springsteen — a postura algo encurvada, as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, o olhar macambúzio —, mas não se gasta um segundo para contextualizar o período histórico retratado ou situar o cantor no cenário musical dos Estados Unidos. A relação traumática com o pai também parece resolvida de forma apressada ou com saltos bruscos.
Fica a sensação de que cairia bem ao filme mais uns 20 minutos ou mesmo meia hora. Aliás, é evidente que houve cortes em Springsteen: Salve-me do Desconhecido. Quem viu o trailer vai notar a ausência deste monólogo de Jon Landau que contribui para o desenho psicológico do protagonista: "Quando Bruce era pequeno, havia um buraco no chão do quarto dele. Um chão que deveria ser sólido, onde ele deveria poder ficar em pé. Bruce não tinha isso. Bruce é um reparador. O que ele está fazendo com este álbum é consertar aquele buraco no chão. Consertar aquele buraco dentro de si. Depois de fazer isso, ele vai consertar o mundo inteiro."
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