
Alvo da megaoperação policial no Rio de Janeiro que deixou mais de 120 mortos, a organização criminosa Comando Vermelho (CV) foi criada em 1979, ainda sob o nome Falange Vermelha, no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, em Angra dos Reis. Os bastidores de seu surgimento são tema de um filme brasileiro disponível no canal Reserva Imovision do Amazon Prime Video, que tem sete dias de teste grátis: Quase Dois Irmãos (2004), da diretora Lúcia Murat.
Hoje com 77 anos, Murat é a mesma diretora de Que Bom te Ver Viva (1989), que recebeu os Candangos de melhor filme, atriz (Irene Ravache) e edição no Festival de Brasília; de Uma Longa Viagem (2011), ganhador do Kikito de melhor longa e do prêmio do júri popular no Festival de Gramado; e de Praça Paris (2017), vencedor dos troféus de direção e atriz (Grace Passô) no Festival do Rio.
Quase Dois Irmãos também foi laureado no Festival do Rio, nas categorias de melhor direção, melhor ator (o gaúcho de Santa Maria Flávio Bauraqui) e melhor filme latino-americano pela crítica, além de conquistar os prêmios de edição (Mair Tavares) e música original (Naná Vasconcelos) no Festival de Havana.
O roteiro de Quase Dois Irmãos foi escrito por Paulo Lins, autor do romance que deu origem ao filme Cidade de Deus (2002). Trata-se de um amplo exame da tragédia social do país, em especial a do Rio de Janeiro. Vai da romantizada década de 1950 aos violentos dias do século 21, passando pela época da ditadura militar.
O filme retrata a relação entre a classe média e a marginalidade cariocas a partir dos pontos de vista de dois personagens: o deputado federal Miguel, preso político nos anos 1970, e seu amigo de infância Jorginho, filho de sambista que, de assaltante pequeno, se transformou em um dos líderes do tráfico de drogas.
A história vai e volta no tempo, não só para tornar a narrativa mais dinâmica, mas também, como disse Lúcia Murat à época, "para acentuar o círculo vicioso" dessa vizinhança entre a classe média e o morro.

Na trama, o ator gaúcho Werner Schünemann interpreta o Miguel deputado, e Caco Ciocler faz o mesmo personagem quando jovem e idealista. Jorginho é vivido no presente por Antonio Pompeo e por Flávio Bauraqui na mocidade.
O primeiro reencontro se dá nos anos 1970, no presídio de Ilha Grande, onde, segundo consta, os criminosos comuns aprenderam com os militantes de esquerda a se organizarem, dando origem a facções como o temido Comando Vermelho. Presa política no mesmo período, Lúcia Murat aproveitou experiências pessoais para construir esse segmento de Quase Dois Irmãos.
A música assinada por Naná Vasconcelos (1944-2016) tem papel vital no filme. É, como afirma a diretora, o ponto de ligação entre esses dois mundos. Assim, nos anos 1950, a classe média reverencia a figura do sambista encarnado pelo cantor Luiz Melodia (1951-2017). Na cadeia, Miguel e Jorginho aparecem compondo um samba. Nos dias de hoje, as adolescentes sobem o morro para ouvir funk e hip hop.
Três perguntas para a diretora Lúcia Murat

Na época da estreia de Quase Dois Irmãos nos cinemas de Porto Alegre, eu entrevistei a diretora Lúcia Murat. Confira os principais trechos da conversa:
O quanto de sua experiência como presa política foi levado para o filme?
Muito. Não só fui presa política nos anos 1970 como tive um pai progressista nos anos 1950 que me mostrou as favelas. Vivo hoje a impotência de quem continua acreditando numa sociedade igualitária e depara com esta guerra social. Vivi, indiretamente, o conflito entre os presos políticos e os comuns na Ilha Grande, que, num certo sentido, deu origem ao Comando Vermelho. O CV foi bastante influenciado por esse contato. De início, proibiu nas cadeias o estupro, distribuiu comida nas favelas... Enfim, teve um discurso confuso, mas com fundo social. Mas na verdade a ideia do filme veio da situação atual, quando filhas de amigos começaram a subir o morro, ir a bailes funk e namorar jovens do tráfico. Então, pensei no que tinha ocorrido na Ilha Grande.
Como foi escrever o roteiro com Paulo Lins?
Foi ótimo. Tenho a impressão que nós, os chamados intelectuais de classe média, quando criamos o personagem povo, ele se transforma num tratado sociológico. O Paulo poderia vir com personagens de carne e osso. Ele conhecia o universo da favela e poderia ser o contraponto que eu precisava à classe média.

A senhora tem destacado o papel da música no filme, como talvez o único elo entre esses dois mundos. Acredita em harmonia?
O samba foi na minha infância a possibilidade de a classe média reverenciar a favela. Tentei reproduzir esse fascínio na abertura. Sem pieguismo, diria que a música no filme representa o desejo de que tudo fosse diferente. Não é questão de acreditar ou não. Mas se a gente perder esse desejo, o que será de nós?
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